por uberlandiahoje | fev 27, 2026 | Ponto de Vista |
Ana Maria Coelho Carvalho- Bióloga
Certa vez, quando meu marido Zé ainda era vivo, fomos em um grupo de sete pessoas, conhecer algumas cidades de Portugal, Espanha e Itália. No grupo estava o meu irmão Fá (apelido carinhoso), um homenzarrão de coração bondoso, na sua primeira viagem ao exterior, e o Vicente, compenetrado e bem vestido, irmão gêmeo do meu marido e que nunca andou de avião. Mas ele foi corajoso, entrou direto em um Boeing 747, num voo de 12 h.
As confusões começaram já no aeroporto de Uberlândia, no check- in. O Zé levou tudo na bagagem, menos o passaporte. Pensou que eu tinha levado para ele (claro, a culpa é sempre minha). O avião quase saindo, o resto da turma esperando em Guarulhos-SP, os euros de todos na sacolinha do Zé, o último voo para chegarmos a tempo. Nesse contexto dramático, o filho, que tinha nos levado ao aeroporto, voltou em casa comigo, a toda velocidade, para procurarmos o passaporte. Rezei para todos os santos e encontrei-o no fundo de uma gavetinha. Fomos os últimos a embarcar no avião e o Zé escapou de um ataque cardíaco.
Já em Guarulhos, o Fá chegou de um voo de Belo Horizonte e pegou a mala na esteira. No momento de despachá-la, a alça, que tinha uma fitinha verde, arrebentou e a mala caiu . Ele apanhou-a , colocou a etiqueta com o seu nome e fez o check-in. Lá fomos nós para a escala em Frankfurt, o maior aeroporto da Europa. Depois da aterrissagem, entramos em um ônibus moderno que nos conduziria para perto do portão de embarque. Parece que o Vicente pensou que o ônibus era um corredor, pois entrou por uma porta e saiu pela outra. Com uma multidão de pessoas entrando e falando em todas as línguas, ninguém percebeu. De repente, a esposa viu-o do lado de fora, parado na plataforma, segurando firme sua mochila. Ela gritou horrorizada. O Vicente, lépido e assustado, entrou pela porta da frente do ônibus. Se ficasse ali, adeus Vicente.
Enfim, chegamos ao hotel Marriot, em Lisboa. O Fá abriu a mala para tomar um banho relaxante e soltou um palavrão. Não era a sua. Estava cheia de chinelinhos de crianças, shorts pequeninos, bonés, chapéus de praia e um saquinho de remédios. Entrou em desespero e fui ao quarto socorrê-lo. Concluímos que a mala que ele despachou em SP era mesmo aquela, pois estava com a alça quebrada, com a fitinha verde e com o seu nome. Ou seja, ele pegou a mala de outra pessoa na esteira, quando chegou de BH. Depois de vários telefonemas e muito drama, descobriu-se a dona da mala e também a mala do Fá, nos achados e perdidos da TAM em São Paulo. Desistimos de pedir o envio da mesma, compramos algumas roupas para ele e carregamos a “mala dos meninos”, como passou a ser chamada, durante toda a excursão.
Nessa mesma noite da chegada, na salinha de informática do hotel, roubaram minha bolsa nova, com apenas a caixinha dos óculos dentro (lá os ladrões são sofisticados, fingem que são hóspedes e roubam bolsas, até nas mesas do café). Enquanto estava espantada, surgiu o Fá, mais espantado ainda. Contou que, passado o susto da mala, foi tomar banho. Apoiou-se na alça de metal da banheira para não escorregar, ela quebrou e ele levou um tombo estrondoso. Fomos dormir rápido, antes que acontecessem mais tragédias. O Fá tomou um remedinho da mala dos meninos, para dor de cabeça, escovou os dentes com o dedo e dormiu.
Bem, isso foi apenas o começo. O dia seguinte já começou com a Lourdinha, amiga da minha cunhada, levando um tombo na escadaria do hotel, daquele tipo que só vemos em filmes trágicos. Mas, mesmo com tantas confusões, chegamos a Roma e realizei o meu sonho, conheci a cidade eterna. Valeu cada minuto da viagem, e entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
por uberlandiahoje | fev 27, 2026 | Ponto de Vista |
Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.
Um ônibus sem autorização legal para fazer fretamento e sem autorização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) saiu do Maranhão/MA com destino a Santa Catarina e sofreu acidente grave em Marília/SP, vitimando até o momento sete passageiros e deixando dezenas de feridos em hospitais da região.
O veículo com pneus sem condições de uso, sem possuir cintos de segurança, sem ter a lista exigida com nomes e os documentos dos passageiros tombou na Rodovia BR-153, entre os munícipios de Ocauçu e Marília. Uma das muitas rodovias federais que estavam no caminho entre o Maranhão e Santa Catarina.
A primeira pergunta sem resposta até o momento é a seguinte: Quem contratou os trabalhadores para saírem do Maranhão com destino a Santa Catarina para trabalharem na colheita de maçãs? Quem é o dono da propriedade em Santa Catarina? Outra pergunta pertinente é: Quem fez a contratação do ônibus irregular para realizar transporte de passageiros (fretamento) e transitar em rodovias?
Em seguida, surge a seguinte questão: se o veículo não tinha condições de transitar por rodovias, estando totalmente irregular perante as autoridades de trânsito, como conseguiu percorrer mais de 2.200 quilômetros sem que nenhum agente da Policia Rodoviária Federal ou Estaduais tenham parado e fiscalizado o ônibus?
Esse veículo cruzou diversas cidades, passou por postos da PRF e da PRE de vários estados sem que nenhum policial tenha notado as péssimas condições deste ônibus. Como? Quem poderia explicar essa situação?
A ANTT tem fiscalização ou apenas como agência reguladora dos veículos de transporte faz as regras? Segundo o site da Agência: a ANTT possui Postos de Fiscalização e Atendimentos (PFAs) espalhados pelos principais terminais de transporte rodoviário de passageiros do país. Nesses locais, o usuário do transporte interestadual pode esclarecer as suas dúvidas, fazer reclamações ou solicitar a ajuda de um fiscal.
Os PFAs garantem uma ampla cobertura de fiscalização do transporte interestadual regular de passageiros em razão das suas localizações estratégicas.
Tudo isso está no papel, porém, nas estradas essa situação não impede que veículos sem nenhuma condição transitem impunemente colocando vidas em risco.
Fica a nítida impressão de que muitas pessoas fizeram vistas grossas desde a contratação dos trabalhadores em que haja um contrato formal com valores, CNPJ, ou dados da fazenda onde exerceriam seus trabalhos, passando pela contratação do ônibus em péssimas condições.
Tudo isso nos faz pensar em trabalho escravo, sem a devida regularização da contratação, utilizando-se meios irregulares para o transporte dos trabalhadores por milhares de quilômetros sem documentação, alimentação adequada e um ônibus decente.
Enquanto o Congresso Nacional discute a questão da escala 6X1, nós ainda assistimos trabalhadores rurais vítimas do trabalho escravo ou semiescravo, do desprezo dos empresários envolvidos com a vida dessas pessoas pobres e sem voz.
por uberlandiahoje | fev 25, 2026 | Ponto de Vista |
D., Flávio de Andrade Goulart – Médico, professor de Medicina na UFU e na UNB, secretário de Saúde em Uberlândia e sobrinho do poeta Carlos Drummond de Andrade
Resiliência é uma palavra que tem origem na metalurgia, significando a capacidade dos metais em manter ou voltar à sua forma original mesmo após serem estressados pela temperatura ou esforços mecânicos – ao algo assim. A psicologia também utiliza o termo, como um aspecto positivo da personalidade, que faz com que as pessoas sejam capazes de manter o élan vital mesmo após serem expostas a traumas profundos. Curiosamente, em versão mais atual, gerada no período pós pandemia, esta palavra tem sido utilizada também em relação aos sistemas de saúde. É do que trata este artigo da tradicional revista médica britânica, The Lancet, em atualíssima matéria, em edição para as Américas datada de outubro de 2025 (ver link), cuja síntese, traduzida e adaptada por mim, trago para os leitores deste blog.
O conceito de Funções Essenciais de Saúde Pública (FESP), é aspecto fundamental na abordagem de Atenção Primária à Saúde (APS), e fundamental para compreender a chamada resiliência dos sistemas de saúde, particularmente durante emergências, como foi o caso da recente pandemia de Covid. O presente estudo se aprofunda sobre as lacunas eventuais na implementação das FESP e o fortalecimento (ou não) da resiliência do sistema de saúde em 17 países da América Latina e do Caribe, mediante aplicação de questionários a gestores nacionais, através de uma Abordagem Delphi modificada. Foram identificadas variadas capacidades de implementação das FESP e definidas duas dezenas de tópicos para direcionar as políticas e os investimentos necessários. Entre os temas levantados estão a vigilância; as respostas a emergências; os sistemas de informação em saúde; o desenvolvimento de políticas; a alocação de recursos e a equidade em saúde.
Os achados do referido estudo confirmam a convergência entre os conceitos de FESP e de APS e de sua importância na construção da resiliência nos sistemas de saúde, cabendo aos países desenvolver planos de ação abrangentes com roteiro individualizável, através de abordagens estruturadas e baseadas em evidências.
A APS, é bom lembrar, representa uma abordagem de ação setorial bastante abrangente, envolvendo toda a sociedade, voltada à organização dos sistemas de saúde, englobando em si as funções de saúde pública, as políticas setoriais múltiplas e o empoderamento da comunidade, constituindo ainda um nível específico de cuidado que serve como o primeiro ponto de contato, oferecendo atendimento acessível, contínuo e coordenado aos usuários.
Já as FESP têm sido cada vez mais reconhecidas como fundamentais para a dinâmica dos sistemas de saúde, por incorporarem ações essenciais, como prevenção de doenças, promoção da saúde e gerenciamento da saúde da população, ampliando o alcance dos sistemas de saúde além do cuidado individual e clínico, abordando necessidades de saúde da população mais amplas e determinantes sociais da saúde. Integrar este par de conceitos (FESP e APS) fornece uma estrutura operacional para ações de saúde pública proativas e sustentáveis, apoiando tanto a prestação rotineira de serviços quanto as capacidades necessárias para uma resposta eficaz a emergências, atendendo as necessidades de saúde da população de maneira holística, fortalecendo assim a resiliência.
Resiliência, aplicada aos sistemas de saúde, é um conceito multidisciplinar que vem evoluindo bastante, podendo ser definida a como capacidade de antecipar, absorver, adaptar-se e se recuperar de choques, mantendo as funções essenciais. Isso sido refinado e expandido nos últimos anos, para incluir a capacidade de aprender e transformar em resposta adequada tanto os choques agudos quanto as situações contínuas [FA1] de estresse. Perspectivas interdisciplinares, particularmente da engenharia da resiliência, enfatizam a necessidade de capacidade proativa, da aprendizagem contínua e da adaptabilidade, dos sistemas de saúde, e não apenas de sua capacidade de recuperação. A resiliência não representa, portanto, uma propriedade inerente aos sistemas de saúde ou das FESP, mas sim um resultado de esforços deliberados para construir tal capacidade institucional, promover governança robusta e fortalecer uma força de trabalho qualificada e adaptável.
Quanto à aplicação prática disso, é importante levar em conta o contexto do país e o impacto potencial nas prioridades selecionadas, cabendo assim fazer uma avaliação profunda das capacidades e lacunas relativas às FESP em cada país, de forma a desenvolver planos de ação consequentes e adaptados adaptam aos requisitos locais.
O estudo aponta que na América Latina, e com certeza também no Brasil, o foco da mudança deveria incluir o aumento e a garantia de continuidade dos investimento em saúde, o aprimoramento da colaboração intersetorial e a melhoria da integração do cuidado para fortalecer as capacidades de desempenho, aspectos que se desdobram na necessidade permanente de se adaptar estratégias no enfrentamento dos impactos recorrentes nos sistemas de saúde, como no caso dos desastres naturais e migrações, além da habitual fragmentação na organização dos serviços. Isso requer, naturalmente, revisão e atualização constantes, na medida que novas evidências possam surgir, novas tecnologias se desenvolverem e evoluírem as circunstâncias nacionais, de forma a garantir que as políticas de saúde permaneçam capazes de dar respostas às necessidades em mudança. Caberia, assim, repetir tal exercício de revisão de forma regular, com envolvimento das diversas partes interessadas, mesmo externas ao setor de saúde, o que será fundamental para promover a desejável melhoria contínua.
Em conclusão, abordar as lacunas identificadas na integração das FPEP e da APS, particularmente no desenvolvimento da capacidade da força de trabalho e da alocação aprimorada de recursos, constituem fatores essenciais na resposta adequada emergências de saúde pública e, por consequência, no fortalecimento da resiliência do sistema de saúde. Isso implicar não só em avaliações rotineiras das FPEP, como na correta definição de áreas-chave de atuação e na priorização de investimentos e apoio político.
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Eu já havia publicado aqui algo sobre Resiliência em Saúde, sob o foco da pandemia de COVID. Veja abaixo
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Ainda dentro de tema da resiliência, no caso do nosso sistema de saúde, não há dúvidas que enfrentamento da pandemia revelou fortalezas, mas também fragilidades do SUS. Por um lado, seu caráter de sistema de saúde universal, integral e gratuito garantiu, apesar dos pesares, o atendimento a tempo e a hora de milhares e milhares de pessoas doentes ou por adoecer. É nisso é que podemos classifica-lo com um sistema de fato resiliente, essencial para efetivação do direito à saúde, mas também para a manutenção de atividades sociais e econômicas. Por outro lado, suas fragilidades, agravadas pela crise política e econômica e pela condução irresponsável do governo federal à época, ficaram evidentes. Efeito colateral da pandemia foi a ter gerado uma multidão de pacientes invisíveis, ou seja, pessoas portadoras de comorbidades e diversas patologias que acabaram sem atendimento ou tendo o mesmo retardado, pelo excesso de demanda durante o período crítico da pandemia. Isso acarreta o desafio de enfrentar a fila de quem ficou para trás, dos muitos problemas de saúde que não foram tratados e que podem ter se agravado. Tornam-se necessários, portanto, reforços à organização dos serviços bem como do aporte financeiro do SUS. Mas uma coisa é certa, mesmo com mais de 700 mil mortos os especialistas convergem na afirmativa de que sem o SUS, mesmo fragilizado, poderia ter sido muito pior.
• Saiba mais:
• The Lancet Regional Health – Americas – Volume 50, October 2025, 101237
• Essential public health functions for primary health care resilience in Latin America and the Caribbean: a regional assessment – ScienceDirect
• http://dx.doi.org/10.1590/1679-395120200185
• Estudo revela como a pandemia afetou os atendimentos no SUS | Agência Fiocruz de Notícias
• Pandemia, Sindemia e o Mundo Invisível – A SAÚDE NO DISTRITO FEDERAL TEM JEITO!
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• Bolsa família & Saúde
• O Bolsa Família não apenas transformou vidas, mas também impactou a saúde pública no Brasil. Um estudo no The Lancet Public Health mostra que o programa reduziu mortes e hospitalizações, destacando a força de políticas sociais integradas ao SUS. De 2000 a 2019, foram mais de 713 mil mortes e 8,2 milhões de internações evitadas, resultados da sinergia entre transferência de renda, políticas de saúde e o trabalho das equipes de saúde da família. Esses números representam vidas salvas e comunidades fortalecidas. Projeções indicam que, com a ampliação do programa e o fortalecimento das redes de saúde, até 680 mil mortes poderão ser evitadas até 2030. Essa conquista é fruto de um esforço coletivo de sociedade, profissionais de saúde, gestores e pesquisadores, que transformam as condicionalidades em cuidado real. Convido você a ler o texto completo em nosso site e refletir sobre como fortalecer ainda mais o SUS, compromisso de todos nós.
por uberlandiahoje | fev 24, 2026 | Ponto de Vista |
Marília Alves cunha – Educadora e escritora
Concordo, não podemos viver do passado. O passado é só lembrança, algumas inesquecíveis. O mundo evolui a cada instante e nossa evolução é necessária, muitas vezes imprescindível. A tecnologia não espera ninguém, avança, cria novas conexões, repagina-se a todo momento. Viver neste mundo de admiráveis mudanças e procurar adaptar-se a elas é necessário, tem seus atrativos imensos. O melhor é procurar percorrer modernidades, nem que seja por pura sobrevivência.
Nos dias de carnaval, atoa na vida, estive pensando sobre isto e matutando sobre o que fazer na solidão do ninho. Ver desfiles de escola de samba? Não tenho o mínimo interesse, acho tudo sempre igual, monótono e sem graça. Vi alguns recortes da escola de samba de Niterói, que elogiava o Lula, batia no Bolsonaro, zombava da família e da religião e era tudo de péssimo gosto. Não foi novidade, sempre fazem isto, coisas erradas, quando querem ressaltar para melhor o presidente. Talvez seja difícil mesmo. O personagem não ajuda. Escrever sobre política não estava nos meus planos. Escapulir do Master, dos velhinhos roubados ,dos covardes senadores, de ministros corruptos, de acordão, do joguete em que se transformou o povo brasileiro, da pizza em que tudo, parece, vai se transformar consegui a muito custo! Esquecer por breve tempo o fracasso nacional em vários aspectos era o intento.
O melhor a fazer seria ouvir música, embalar-me em suas delicadezas. Dizem alguns que, em matéria de música, sou saudosista. Sou mesmo, quase que por completo. De alguma maneira também, um pouco crítica da maneira como nos comunicamos hoje em dia. Muito WhatsApp, muita mensagem, muita distância. Faltam encontros, o dar-se as mãos, o sorriso bom que atrai e é carinho. Faltam abraços apertados, aconchegantes, gostosos, daqueles que fazem a gente entregar-se, nunca mais querer soltar-se. Faltam as conversas sem telinhas, olhos nos olhos, gargalhadas explodidas, cheias de luz. Os meios digitais não trazem estas sensações, mas vivemos aqui e agora e é forçoso acostumar-se. E curtir o que puder deste admirável mundo, sem deixar de lado heranças lindas do passado.
Como dizia antes de perder-me, ouvi muita música neste carnaval, tirando proveito do sensacional Spotify à minha disposição, a qualquer hora ou lugar. Gosto de ouvir música, prestando atenção nas letras, no romantismo ou graça que elas contêm, na poesia de seus versos. Grandes poetas as escreveram, com a alma em transe e o coração nas mãos… Vamos relembrar algumas, revisitar este legado lindo que o passado nos deixou?
“Olhos nos olhos, quero ver o que você faz/ ao sentir que sem você eu passo bem demais/e que venho até remoçando/me pego cantando sem mais nem porquê/e tantas águas rolaram/tantos homens me amaram bem mais e melhor/ que você.” OLHOS NOS OLHOS (Chico Buarque)
“A porta do barraco era sem trinco/ e a lua furando o nosso zinco/salpicava de estrelas nosso chão/ tu pisavas nos astros distraída/ sem saber que a beleza desta vida/ é a cabrocha, o luar, o violão.”
CHÃO DE ESTRELAS (Orestes Barbosa e Silvio Caldas)
“Eu falo porque esta dona/ já mora no meu barraco/ à beira de um regato e um bosque em flor/ de dia me lava a roupa/ de noite me beija a boca/ e assim nós vamos vivendo de amor.”
SE ACASO (Lupicínio) Rodrigues)
“Enfim, volto ao jardim/ com a certeza que devo chorar/ pois bem sei que não queres voltar para mim/ queixo-me as rosas/ mas que bobagem/ as rosas não falam/simplesmente as rosas exalam/ o perfume que roubam de ti.”
AS ROSAS NÃO FALAM (Mestre Cartola)
“Tanto riso, Ó, quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão/Arlequim está chorando por amor da Colombina/ no meio da multidão. MÁSCARA NEGRA (Zé Keti)
“É bom passar uma tarde em Itapoã/ ao sol que arde em Itapoã/ouvindo o mar de Itapoã/ falar de amor em Itapoã.
TARDE EM ITAPOÃ (Vinicius de Morais)
“Mas é preciso ter manha/ é preciso ter graça/ é preciso ter sonho sempre/ Quem tem na pele esta marca/ costuma ter a estranha mania de ter fé na vida.
MARIA, MARIA (Milton nascimento)
por uberlandiahoje | fev 23, 2026 | Ponto de Vista |
Gustavo Hoffay – Agente Social
Sigo envelhecendo e comigo as lembranças dos primórdios da minha vida vão surgindo de maneira cada vez mais nítida e constante. Pais, irmãos, sobrinhos, netas, fazendas, banhos em açudes ou em cachoeiras e pequenos riachos, passeios a cavalo, gostosas travessuras, a reza do terço próximo do fogão à lenha e logo após a janta, o amanhecer com vacas e bezerros mugindo no curral, saboreando com a minha mãe e o meu irmão caçula o “sanduiche americano” no restaurante do Minas Tênis Clube em BH…..Fui, sim, um garoto alegre, feliz, ria alto e a mamãe dizia que a minha gargalhada não iria tornar mais dolorosa a dor de alguns dos nossos vizinhos; ela completava: -“Mas quando chorar soluce baixinho, bem baixinho e de modo a não apagar o sorriso de alguém próximo e que tem o direito de estar sorrindo enquanto se diverte”. Certa noite, após o jantar em nossa pequena fazenda, pouco antes de colocar um disco do Martinho da Vila e abrir uma garrafa de cerveja, ela disse-me :- “Se você escorregar na estrada da sua vida e cair com a bunda no chão, não fique chorando; levante-se pois você ainda tem um longo caminho a seguir, muito chão para pisar e, além do mais, ainda vai atrapalhar a passagem de quem vem atrás e tropeçar no seu corpo caído. Ter medo de que? Se é triste cair, ainda pior é você arrastar alguém na sua queda! Se alguma vez você ficar nervoso e gritar, lhe der vontade de sair chutando tudo o que encontrar pela frente, então se esforce o quanto puder para manter-se na linha. Sim, porque atrás vem muita gente e que igual a você também deseja encontrar o mundo belo e inteiro”! Minha mãe, dona Phyllis, era sábia. Devorava livros, meditava romances kardecistas enquanto pintando seus quadros ou cuidando dos jardins naquela gostosa fazenda no município de Gouveia, abundante de cristais e Sempre-Vivas, no portal sul do Vale do Jequitinhonha. Ao encontrar uma muda ou semente de alguma árvore frutífera, lembro que ela nunca a plantava entre cercas mas, sempre, bem ao lado da trilha que saia da porteira, seguia até à porta da nossa casa e depois saia em direção ao moinho mais abaixo para que, segundo ela, um dia muitos pudessem descansar à sua sombra e se alimentar dos seus frutos…..sem nada pagarem para deles deliciar-se. Aaaah, minha mãe…! E ela continuava dizendo:-“ Mas se você encontrar apenas um caminho onde exista benditas árvores frutíferas, não siga sozinho por ele; poste-se bem no início dele e com um braço estendido , assim, desse jeitinho, como a uma flecha apontando, diga aos viandantes: -“Esse é o caminho da felicidade! E, Gustavo, quando enfim você chegar depois de todos e iluminado por sorrisos recebidos, verá que os outros estarão à sua espera, para que você entre primeiro”. “-Onde, minha mãe”? “-Por caminhos onde passar feliz e certo que as intempéries previsíveis em nada impedirão você de continuar contornando obstáculos, visto que não estará sozinho e ciente de que a sua fé e as suas ações estimularam o desempenho dos seus deveres a favor da vida em plenitude, inclusive para muitos que seguem com você”. Minha mãe faleceu feliz, imagino, quando eu contava vinte e um anos de idade. Despediu-se desta vida junto com o meu pai, de imediato, em um acidente rodoviário no ano de 1.979. Pois é, mãe! Muito escorreguei, caí, levantei, não arrastei pessoa alguma em minhas quedas, sofri, delirei, chorei e aos trancos e barrancos , um dia , finalmente, reencontrei a linha da vida, a qual proporcionou-me a oportunidade de tornar a ver, abraçar, beijar e curtir um casal de filhos que eu não via a mais de dezesseis anos, uma outra filha de quem eu não tinha notícias a mais de trinta anos, conhecer três netas maravilhosas e também a graça de ter contribuído para ver nascer e educar uma filha, hoje com vinte e quatro anos de idade. Não me arrastei, levantei e segui sem medo, me mantive na linha e hoje gozo do orgulho que sinto de mim mesmo e de você, minha mãe Phyllis!
por uberlandiahoje | fev 22, 2026 | Ponto de Vista |
João Batista Domingues Filho – Cientista Político – Professor UFU/INCIS
A corrupção no Estado democrático e na sociedade civil começa, quase sempre, pela desobediência à lei constitucional. Nesses contextos, o interesse individual escuso (autonomia sem limite da lei) tende a prevalecer sobre os direitos do cidadão. Um Estado democrático faz funcionar leis iguais para todos, desde que suficientemente enraizadas na sociedade, de modo a separar o que é direito público do que é direito privado entre os indivíduos. No Brasil, porém, a corrupção prevalece em todos os lugares da vida social, expressando-se como generalização da corrupção na governança pública e na conduta do indivíduo. Não há eficiência na imposição de “custos” (punição legal) à corrupção, pois ocorre a transmutação do interesse público em interesse privado sem lei. Nesse cenário, levar vantagem em tudo passa a ser a única lei que funciona bem.
Direita e esquerda não se diferenciam em capacidade de exercer a corrupção no interior do Estado. Em ambos os casos, a máquina pública converte-se no lugar privilegiado para buscar o “lucro” privado. Talvez isso seja apenas uma fase do desenvolvimento de nossa democracia, podendo configurar-se como características passageiras do processo de construção da democracia brasileira. Todavia, a participação política no processo de domínio da gestão pública é fisiológica e não ideológica. Por essa razão, não há pureza cívica do brasileiro: todos são capazes de corrupção no Estado e na sociedade. Esse diagnóstico se reflete na opinião pública reinante: “todo político é ladrão” e “o povo, fora da lei, dá um jeitinho em tudo”. Como consequência, instala-se o consolo popular de que a corrupção sempre existirá em qualquer governo e sociedade. A legislação existente para combatê-la — “impor custos” — torna-se, assim, impossível de ser cumprida no Estado e na sociedade brasileira, dada a situação quase “pandêmica” da corrupção.
O Estado democrático é o lugar de realização do interesse público e da cidadania cívica. Entretanto, a corrupção das instituições políticas evidencia que as regras constitucionais não são efetivas em assegurar a autonomia do Estado diante dos interesses privados. Numa democracia, cada indivíduo tem o direito de buscar seu interesse de quaisquer naturezas (autonomia). Contudo, os limites desse direito são constitucionais: não valem a violência, a trapaça nem a violação de normas que garantem a sociabilidade pacífica. Leis efetivas são aquelas que expressam uma cultura cívica, funcionando como orientação geral das condutas dos indivíduos. Assim, uma democracia só funciona adequadamente quando há o enraizamento de normas capazes de eliminar a corrupção das relações sociais. A questão central, portanto, é compreender o que favorece esse “enraizamento”, especialmente quando os padrões culturais e sociopsicológicos em operação generalizam a aceitação da corrupção como prática normal das interações sociais.
No Brasil, prevalece uma cultura que favorece a trapaça em benefício do interesse próprio. Essa configuração cultural tem origem e continuidade na herança escravista, no elitismo reinante e na desigualdade social persistente, naturalizada como “normal” entre os brasileiros. Grandes “maracutaias” dos políticos, formas brutais e violentas de criminalidade bem como a instabilidade das instituições políticas não abalam a leniência de nossa cultura com a busca do interesse próprio sem os limites da lei. As normas democráticas e cívicas, assim como eventuais reformas morais ou ideológicas e processos de conversão coletiva, não ocorrerão de forma suficiente para criar uma cultura cívica enquanto persistir a generalização da corrupção brasileira. Se há alguma possibilidade de criação de uma cultura cívica e democrática no Brasil, a porta de entrada para essa nova realidade passa, necessariamente, pela eliminação do padrão de desigualdade vivenciado pela maioria dos brasileiros.