Como explicar o bolsonarismo e o negacionismo em saúde

Dr. Flávio de Andrade Goulart*

O bolsonarismo como fenômeno político existe de fato, sendo inúmeras as análises disponíveis sobre o mesmo, seja de cientistas políticos, sociólogos ou jornalistas, que identificam e tipificam tal fenômeno. Seja lá o que for, para mim, este “ismo” é mais uma questão de caráter do que de ideologia. Ou ainda de ética (ou estética). Cabe a pergunta: existe um bolsonarismo em saúde? Para definir um pouco melhor o fenômeno, recorro ao jornalista Philipp Lichterbeck, que escreve no portal Deutsch Welle, o qual,apesar de estrangeiro, parece conhecer muito bem o Brasil, ao descrever os “cinco pilares” do fenômeno, que na verdade dão sustentação a todo um pensamento da extrema direita no Brasil. São eles: (1) militarização; (2) atendimento a uma suposta vontade do povo; (3) messianismo; (4) hostilidade à ciência e (5) anticomunismo. Alguns deles são especificamente brasileiros, outros pertencem ao conjunto de ideias da nova direita internacional. Lichterbeck alerta que é fácil considerar simplesmente “ridículos” o presidente e seus seguidores, já que eles vivem dando oportunidade para isso, mas que há certa metodologia por trás dessa loucura, e reduzir o caso a mero histrionismo de um sujeito “sem noção” seria um erro fatal. Mas além de tal visão de um jornalista, trago hoje aqui algo mais filosófico, ou seja, as reflexões de Zygmunt (ou, aportuguesando, Segismundo) Bauman.
Bauman foi um filósofo polonês, cujo pensamento tem uma trajetória curiosa. Filho da família judia perseguida pelo Nazismo, teve que se exilar de sua terra natal, mas a ela retornou como combatente contra os nazistas. Fez carreira militar e pertenceu ao exército da nova Polônia, então sob domínio comunista e forte influência soviética. Mas sua independência em relação aos dogmas vigentes em tal ambiente logo o tornaram, de novo, um exilado. Radicou-se, então, na Inglaterra, onde foi professor na Universidade de Leeds até a sua morte, em 2017. Um dos conceitos sociológicos originais desenvolvidos por ele foi o de modernidade líquida, para configurar uma época em que as relações sociais, inclusive amorosas, além das econômicas, políticas e de produção se tornaram frágeis, fugazes e maleáveis, à maneira dos líquidos. Tal mudança se opõe ao conceito de modernidade sólida, vigente secularmente até meados do século 20, quando as relações sociais eram, segundo ele, estabelecidas de maneira mais firme e duradoura. Para Bauman tal mudança não representa propriamente uma ruptura com o estatuto anterior, mas sim uma continuação, só que conduzida de maneira diferente. A tal liquidez pode parecer vantajosa em alguns aspectos, mas segundo Bauman ela pode ser também porta aberta para distopias um tanto sórdidas. A partir dessas ideias tentarei aqui desenvolver uma explicação do bolsonarismo e o negacionismo científico peculiar ao mesmo.
Ao vermos a horda bolsonarista em ação, seja soltando fogos contra o prédio do STF, pedindo intervenção militar, se acotovelando para aclamar seu pretenso “mito”, negando o risco de contágio na atual pandemia, entre outras barbaridades, é forçoso perceber a presença de algumas das características daquilo que Bauman considera sinais de um novo tempo marcado pela fluidez (modernidade líquida, nas palavras dele), mas sem dúvida distópico. Isso se evidencia, por exemplo, pelos fetiches compartilhados pela massa que se mantem presa ao imaginário propagado pelo ex capitão, como, por exemplo: a crença em uma promessa de felicidade e de grandeza, com fundamentos na pátria, na família e em Deus; a segurança a ser conquistada através do armamento das pessoas; o vislumbre de um “Brasil grande”, retroagindo a um sonho da ditadura militar; a força do individualismo empresarial, religioso, pessoal; a conclamação a um modo de vida self-made (“deixar de ser maricas”, “parar com mimimi”, voltar urgentemente ao trabalho, por exemplo); a transferência de culpa a terceiros, geralmente identificados como comunistas, esquerdistas, chineses, interesses estrangeiros, prefeitos e governadores; a aceitação do medo como instrumento de ação política; a desconfança não só em relação ao “sistema” (seja lá o que isso for), mas também em relação às conquistas da ciência, entre outros aspectos. Acima de tudo, a crença, e mais do que isso, a devoção a um “mito” (que traz consigo um outro cortejo de mitos) traduzido pelos acólitos como o Salvador, o Cavaleiro, o Atleta, o Militar Destemido, o Homem Forte e “imbrochável” que não fraqueja.
E por aí vamos. Zyg Bauman já tinha percebido a raiz de nossa tragédia. Mas o pior é que nem ele nem nós sabemos ao certo como sair dela.
Vamos então ao bolsonarismo sanitário.
O primeiro aspecto a ser lembrado não poderia deixar de ser o negacionismo científico, propagado pelo mandatário e seu cortejo de forma exacerbada ao longo da pandemia de Covid-19. Onde há bolsonaristas, como é fácil constatar, tem alguém negando alguma verdade à qual a ciência já conferiu legitimidade, seja a respeito do uso da cloroquina e outros medicamentos, dos efeitos da vacinação, da potencialidade do contágio, das medidas de isolamento ou da gravidade dos sintomas da doença. Tudo isso parece derivar diretamente de algo que também se faz no EUA, graças ao trumpismo, mas aprofundar tal questão seria insistir no dilema do ovo e da galinha, para lembrar que isso, na verdade, faz parte do universo autoritário populista professado lá e cá.
Desvalorização de conquistas e realizações anteriores ou de origem em terceiros, mediante filtro ideológico. Ideologia, aliás, é só a dos outros, pensam eles. Isso seria um derivado do quesito acima, mas aqui apresenta uma feição mais política do que científica. O ataque ao Programa Mais Médicos é um bom exemplo disso, mas de certa forma a rejeição à vacina chinesa e ao trabalho do Instituto Butantã, associado ao Governo Doria, a acusação de “balbúrdia ” nas universidades, também fazem parte de tal quadro.
Estranhamento em relação a tudo que não é costumeiro. Na perversa lógica bolsonarista tudo que é novo ou venha de realidade estranha à ideologia professada pelos militantes é rejeitado ou posto em desconfiança. Militantes (de qualquer coloração, aliás), são aqueles sujeitos que recortam o mundo em janelinhas e passam a enxergar tudo através delas. Isso não acontece apenas em relação às situações citadas acima, de fundo científico, mas também em relação a costumes que começam a se difundir e serem aceitos pelo mundo a fora, inclusive juridicamente, como é o caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo, das considerações relativas a gênero, do conceito ampliado de família, do aborto legal, da não-naturalização do estupro, da obrigatoriedade de proteção individual, do valor das vacinas e das medidas preventivas em saúde, além de outras situações.
Obediência e fidelidade irrestritas ao líder condutor. Aqui há um encontro forte e definitivo com a ideologia que orienta o fascismo. Obediência é tudo e mesmo a remota possibilidade e de que ela seja negada ou contrariada já custou a cabeça de dois Ministros da Saúde em plena vigência da pandemia, além da compulsória fidelidade de todo o conjunto de auxiliares do Presidente. Isso ficou traduzido de forma espantosa pela proverbial frase recente de Pazuello, o comandante-de-guarnição na saúde: aqui uns mandam, outros obedecem. Mesmo que seja contra as regras da ciência e do bom senso. E sempre com o aplauso da claque que ordinariamente frequenta a beirada da cerca do Palácio da Alvorada.
Meritocracia e aparelhamento institucional. Isso tem como diretriz irrevogável a seguinte tese: quem não concorda comigo é meu inimigo. Valeu para auxiliares que acabaram por perder prestígio, como Moro, Mandetta e aquele outro Ministro da Saúde cujo nome ninguém mais se lembra e continua valendo para pessoas ou grupos situados mesmo fora da esfera do governo e não sintonizados com ele, tais como, comunidade científica, OAB, estudantes, manifestantes contrários em geral. Já os que estão de acordo com o governo passam por um processo sui-generis de seleção “meritocrática”, no qual o que conta é a fidelidade e a não-contestação de ordens que vindas de cima, não a competência técnica e o conhecimento. Isso se dá não só nas nomeações de ministros, mas também de cargos de outras esferas, nos quais o governante é responsável legal por indicações, como Ministério Público, AGU e STF. Organismos externos ao governo, mas a ele sintonizados, como são os casos notórios da FIESP, do Conselho Federal de Medicina e da Associação Medica Brasileira, entre outros, procuram obedientemente fazer a sua parte, mesmo não sendo obrigados a isso. É isto que denomino aparelhamento das instituições, ainda não praticado tão intensivamente no Brasil, mesmo nos anos da ditadura.
Apologia das redes sociais. No atual governo, vale o que está registrado no Facebook, no Instagram ou no WhatsApp, quando não nas lives presidenciais semanais, não nos textos sérios e referendados cientificamente ou na mídia independente. Assim ocorre, por exemplo, com a indicação de medicamentos para o Covid, a validade de vacinas e outros procedimentos médicos e até com a escolha dos inimigos da vez em relação aos interesses nacionais. Trata-se de um quadro de extrema valorização e consequente tomada de posição em função de informações circulantes em redes sociais, inclusive em questões de interesse nacional evidente, como foi o caso recente da negativa em adquirir a vacina chinesa após um comentário dirigido a Bolsonaro por um ignaro membro de sua milícia digital.
Modelagem a partir de realidades externas. Não é só a Trump e aos EUA que se aplica o presente postulado. O olhar para fora do bolsonarismo é seletivamente atento, dentro de uma visão antolhada e enviesada, que insiste em propagar que ideologia é só a dos outros. Se a vacina é chinesa, ela não presta, mas a cloroquina que os Estado Unidos usam só pode ser boa para nós. A tecnologia israelense de transformar água do mar em potável é o que há de melhor. É claro que ignoram o que a realidade nega, como foi o caso da rejeição posterior da cloroquina naquele país, ou que as demais vacinas em teste também possuem componentes chineses, além de que a ciência brasileira instalada no Nordeste já dominava a tal tecnologia da água salgada. O liberalismo econômico à moda de Chicago e Pinochet, professado por Paulo Guedes, representa mais um bom exemplo disso. As redes sociais do bolsonarismo são extremosamente dedicadas a louvar as virtudes da medicina praticada nos EUA, ao mesmo tempo que negam, com veemência, a qualidade dos médicos formados em Cuba, ignorando que os indicadores de saúde neste país são superiores àqueles vigentes na potência mais ao Norte.
Bonapartismo. Isso representa uma forma de ideologia política inspirada na maneira como Napoleão Bonaparte governou. É o mesmo que Cesarismo, numa referência ao todo-poderoso imperador romano. Suas características principais são: culto à personalidade; esvaziamento do Legislativo e do Judiciário perante o Executivo; exercício desmedido de um suposto carisma pelo governante; liderança autoritária; antiliberalismo político. Precisa dizer mais alguma coisa? A questão se torna especialmente intensa no Brasil dada a aceitação acrítico-mítica com que o grupo bolsonarista encara seu líder, inclusive nas questões de saúde, que faz lembrar o título de Duce (condutor) que Mussolini atribuía a si próprio. Complementam o quadro a pletora do governo com agentes militares, inclusive na saúde, enquanto a manada aplaude e pede mais. Afinal de contas já se reivindicou até uma intervenção militar no Brasil. Não é que ela chegou?

*Dr. Flávio de Andrade Goulart é médico, professor de Medicina na UFU e na UNB, secretário municipal de Saúde em Uberlândia e é sobrinho do poeta Carlos Drummond de Andrade.

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PARA SABER MAIS

Que tempos!

Cesar Vanucci*

“Lamentável quanto à forma e ao conteúdo”.
(Nota oficial do TSE sobre declaração do Presidente Bolsonaro”

Estupefação! De tom bastante vigoroso, ainda assim a expressão revela-se insuficiente para exprimir o estado de espírito reinante frente às arengas, de teor antidemocrático, produzidas pelo ocupante do Planalto. Na crônica política jamais se presenciou algo assim. O Supremo mandatário – no caso especifico, um governante guindado ao posto com consagradora votação pelo voto eletrônico – a lançar no ar, de repente, declarações tão esdrúxulas quanto à lisura do modelar processo eleitoral e contra outros valores igualmente caros ao sentimento nacional.

São ditos e atos belicosos que trazem intranquilidade social, afetando as atividades produtivas. A inquietação suscitada impele as lideranças e organizações representativas da coletividade a comparecerem a público para reiterar sua inteiriça confiança nas instituições. Trata-se de louvável tentativa de abrandamento das tensões, recomendada pelo bom-senso.

Em ataques desabridos ao modelar sistema eleitoral vigorante, sem prova que dê sustentação à assertiva, lançou-se no ar a suspeita de o processo aprestar-se a fraudes.
A atitude permite uma associação de ideias com a “trapalhada” que Trump aprontou na eleição presidencial em seu país. A ameaçadora alegação de que sem voto impresso não haverá eleição desencadeou, de imediato, reações de personalidades destacadas, de diferentes tendências, repudiando incisivamente as despropositadas manifestações.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ministro Luiz Roberto Barroso, em nota, definiu a declaração como “lamentável quanto à forma e ao conteúdo”. Explicou que, desde a implantação das urnas eletrônicas, em 1996, jamais se documentou qualquer fraude. Recordou que, de lá pra cá, foram eleitos os Presidentes Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro. Aduziu: “Como se constata singelamente, o sistema não só é íntegro como permitiu a alternância no Poder”. O Ministro aludiu ainda, reportando-se à eleição de 2014, que o PSDB, partido que disputou o segundo turno, promoveu auditoria no esquema de votação e reconheceu a legitimidade dos resultados. Citando os ministros que, antes dele, Barroso, presidiram o TSE participando da organização dos pleitos, afirmou que “a acusação leviana de fraudes é ofensiva a todos”. No âmbito da Corte, foi tomada também decisão de se pedir ao Presidente Bolsonaro, por intermédio da Corregedoria Geral Eleitoral, “que apresente as supostas provas de fraude”. Barroso esclarece que até aqui não houve qualquer resposta. Na conclusão da nota oficial do TSE é salientado o seguinte: “Qualquer atuação no sentido de impedir as eleições na data prevista na Constituição viola princípios constitucionais e configura crime de responsabilidade”.

Numerosas outras autoridades, entre elas os presidentes do Senado e da Câmara do Deputados, governadores de estado, líderes de organizações partidárias e de entidades da sociedade civil comentaram publicamente, rechaçando-as, as impertinentes vociferações antidemocráticas. Chamou atenção em especial o pronunciamento dos subprocuradores da República, integrantes do Conselho Superior do Ministério Público Federal. Eles solicitaram do Procurador Geral da República, Augusto Aras, abertura de investigação sobre as declarações do Presidente Jair Bolsonaro. Argumentaram que “as falas presidenciais têm traços de grave e concreta ameaça ao principal instituto de concretização da democracia e pode configurar abuso”.

Que instantes mais sombrios esses! Além da medonha pandemia, ineficientemente combatida – como documentado na CPI do Senado -, os brasileiros ainda se veem às voltas, naturalmente apreensivos, com intimidadoras agressões a conceitos e valores arraigados na consciência cívica e democrática.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Virtude pessoal e virtude institucional

Percival Puggina*

Li “O homem medíocre”, de José Ingenieros, pela primeira vez, em 1999 quando topei com ele na biblioteca de meu pai, que falecera dois anos antes. Era uma edição argentina de 1917. Um capítulo do livro, em especial, chamou-me a atenção por parecer escrito para aquela realidade. Ele tratava da diferença entre a mera honestidade e a virtude, bem como da falsa honestidade daqueles que a exibem como troféu. “Em todos os tempos, a ditadura dos medíocres é inimiga do homem virtuoso. Prefere o honesto e o exibe como exemplo. Mas há nisso um erro ou mentira que cabe apontar. Honestidade não é virtude, ainda que não seja vício. A virtude se eleva sobre a moral corrente, implica uma certa aristocracia do coração, própria do talento moral. O virtuoso se empenha em busca da perfeição. O honesto, ao contrário, é passivo”.

“Não há diferença entre o covarde que modera suas ações por medo do castigo e o cobiçoso que age em busca da recompensa”, afirma o filósofo portenho enquanto sentencia sobre o homem medíocre: “Ele teme a opinião pública porque ela é a medida de todas as coisas, senhora de seus atos”.

Quantos existem, de uns e de outros, na vida social! Estão nas empresas disputando postos, nas salas de aula ansiando pelos favores dos mestres, na vida pública buscando aplauso e voto. Súditos da maioria, apontam seu dedo cobiçoso ou covarde sempre que vislumbram, nos demais, algo que possa ser apontado como falha ou falta. Cada sucesso por essa via é um passo na direção do que denominam vitória e um recuo em relação à verdadeira virtude. Continua Ingenieros: “A sociedade proclama: ‘Não faças mal e serás honesto’. Mas o talento moral tem outras exigências: ‘Persegue a perfeição e serás virtuoso’. A honestidade está ao alcance de todos; a virtude é uma escolha de poucos. O homem honesto suporta o jugo a que o prendem seus cúmplices; o virtuoso se eleva sobre eles com um golpe de asa”. São palavras que queimam a palha da mediocridade e incendeiam a alma dos que buscam a virtude porque é nela, e não na simples honestidade, que se medem os valores da aristocracia moral.

É preciso distinguir a virtude que se alcança por adesão voluntária a um determinado bem, da virtude intrínseca a modelos institucionais que inibem a conduta não virtuosa. A fidelidade será, sempre, um produto da vontade humana. O pérfido só renunciará a perfídia quando ela se mostrar inconveniente. O venal pode trocar de camiseta, mas só não terá preço se não houver negócio a ser feito. É por esse motivo que quando o STF proclamou a constitucionalidade da Lei da Ficha Lima, eu disse que estávamos trocando de fichas, mas não estávamos acabando com a sujeira que, logo iria encardir outras tantas.

Por quê? Porque essa lei assume como verdadeiro que a corrupção tem apenas causas intrínsecas aos indivíduos, mas isso é falso. Ela tem, principalmente, causas de natureza institucional. E, mesmo no plano das individualidades, só teremos pessoas virtuosas em maior número quando a virtude for socialmente reconhecida como um bem a ser buscado e quando as famílias, as escolas públicas e os meios de comunicação compreenderem a relação existente entre o desvario das condutas instalado na vida pública e o estrago que vêm fazendo na formação da consciência moral e na vida privada.

Não há virtude onde não há uma robusta adesão da vontade ao bem. E isso não acontece por acaso. A busca da virtude exige grande empenho.

Contudo, a democracia (governo de todos), não é necessariamente aristocracia (governo dos melhores). E será sempre tão sensível à demagogia quanto a aristocracia é sensível à oligarquia. Portanto, numa ordem democrática, como tanto a desejamos, é necessário estabelecer instituições que, na melhor hipótese, induzam os agentes políticos a comportamentos virtuosos ou, com expectativas mais modestas, inibam as condutas viciosas.

Ora, o modelo político brasileiro parece ter sido costurado para compor guarda-roupa de cabaré.

Não há como frear a corrupção que se nutre de um modelo institucional que a favorece tão eficientemente, seja na ponta das oportunidades, seja na ponta da impunidade cada vez mais escorada por leis de proteção. Não estou falando de leis que a combatam, mas de um modelo político que a desestimule. Como? Libertando a administração pública dos arreios partidários, por exemplo. Ao entregar para o aparelhamento partidário a imensa máquina da administração (que a mais elementar prudência aconselharia afastar das ambições eleitorais), o Brasil amarra cachorro com linguiça e dá operosidades e dimensões de serraria industrial ao velho e solitário “toco”. “É politicamente inviável fazer isso no Brasil”, estará pensando o leitor destas linhas em coro com a grande maioria dos que, entre nós, exercitam poder político. Eu sei, eu sei. Não sou ingênuo. Está tudo errado, mas não se mexe. As coisas são assim, por aqui.

Do mesmo modo como a fusão do Governo (necessariamente partidário e transitório) com a Administração (necessariamente técnica e neutra porque permanente no tempo) cria problemas e distorções de conduta, a fusão do Governo com o Estado (que, por ser de todos, não pode ter partido) faz coisa ainda pior no plano da política interna e externa. Desde a proclamação da República, os governantes tratam de aparelhar o Estado e exercer influência sobre suas estruturas.

Todos os cidadãos, toda a mídia, todos os prefeitos, todos os governadores, todos os vereadores e deputados estaduais sabem que se produziu uma brutal concentração de poder e de recursos na União e na capital da República. Tal concentração é incompatível com a própria forma federativa de Estado, que, entre nós, virou um arremedo de si mesma. É grave. Gravíssimo. Mas tem coisa ainda pior na falência da Federação. Onde se reconheça que o Princípio da Subsidiariedade é irmão gêmeo da Liberdade, sabe-se, simetricamente, que a centralização de poder é irmã gêmea do totalitarismo. E, como ele, inimiga figadal da democracia. Mas eu sei: é politicamente inviável, no Brasil, retomar a boa forma federativa valorizando o poder local. Vai-se pelo viés oposto. Centraliza-se tudo, dos exames vestibulares aos recursos públicos. Depois, se descentraliza em conta-gotas, nas doses suficientes para gerar relações de dependência e submissão.

Em nosso sistema de governo, o presidente da República, uma vez eleito, deve buscar maioria parlamentar constituindo um arco de alianças formado por partidos minoritários. Com efeito, face à quantidade de legendas que disputam os pleitos parlamentares (há mais de duas dezenas de partidos representados na Câmara dos Deputados), todas as bancadas resultam minoritárias. Não existe maioria natural. E não havendo maioria natural, a “base” precisa ser adquirida pelo governo mediante um largo estoque de moedas de troca – entre outras, as mais valorizadas: cargos, liberação e pagamento de emendas parlamentares, verbas para nebulosas organizações não-governamentais, concessões de emissoras de rádio e televisão e dispensas de licitação. Os desdobramentos dessas operações acabam, mais cedo ou mais tarde, nas páginas policiais.

Em Brasília se decidem, como consequência, todos os contratos, todos os favores, todas as leis e todas as exceções às leis instituídas, atraindo corruptos e corruptores como pote de mel atrai abelha.

Resumindo: enquanto não enfrentarmos os vícios do sistema político e as deformações morais administradas em doses crescentes à sociedade, estaremos a uma distância da virtude que há de fazer o maligno esfregar as mãos em puro contentamento.

*Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

Atacado e varejo

Iria de Sa Dodde – Professora – RJ

Corrupção no Brasil , pelos usos e costumes de décadas, já é considerado um ramo comercial. Seus negociantes tratam o assunto como varejistas e atacadistas. Darei apenas um exemplo de cada. No varejo seriam as rachadinhas praticadas por 100 % dos políticos. No atacado são as propinas dos empreiteiros onde apenas, no máximo, 30 % dos políticos têm acesso. Ambas ainda sonegam impostos ajudando a dilapidar o erário nacional.

Brasil brasileiro!

Marília Alves Cunha*

É cada uma que acontece neste país… Muitas vezes fico por acreditar no espírito inventivo, na criatividade e imaginação solta que impele alguns a ir além do razoável, passar por cima de qualquer lógica que preze a seriedade e o cabível. Não sei se este tipo de coisa acontece em outros países ou se algumas bizarrices são uma coisa doidamente nossa. Afinal, temos a jabuticaba que só existe aqui…

O governador do Maranhão, por exemplo, estado reconhecidamente pobre, eternamente explorado por governos que nada fizeram pela melhoria de vida do seu povo, que apresenta um dos HDI mais baixos do país, resolveu construir módulos íntimos em 11 unidades prisionais do estado. Deve ter pensado o ilustre governador: preso tem o direito de se divertir, receber companheiras (companheiros também?) com conforto, segurança, paz… Esqueceu-se, por certo, do grande número de maranhenses a quem é negado o direito de ter estas doces alegrias, por viverem amontoados em espaços minúsculos e desconfortáveis, incapazes de abrigar decentemente a própria família e deixar a intimidade rolar solta. Coisas do Brasil…

Outro exemplo de como as coisas se desvirtuam por aqui: A Universidade Federal do Sul da Bahia aprovou a criação de cotas para detentos, ex-presidiários e refugiados. Esta decisão foi aprovada pelo Conselho Universitário (e aplaudida por muitos). A reserva de vagas vale tanto para o vestibular tradicional quanto para o sistema SISU. Um engraçadinho logo se animou: “Interessante este prêmio!” A instituição dedica de 75% a 85% de suas vagas para negros, pardos, indígenas, quilombolas, ciganos, pessoas com deficiência, mulheres, transexuais, travestis e transgêneros, além de “comunidades identitárias tradicionais”. Cotas para mulheres? Devo ter lido errado… o fato de uma pessoa ser mulher a torna não habilitada a ingressar numa universidade por vias normais? E o transexual, por exemplo, sua orientação sexual o impede, de qualquer forma, de exercer sua inteligência e saber para ingressar normalmente numa universidade? Não é isto que vemos por aí!

Do jeito que as coisas andam, sociedade cada vez mais dividida para ser dominada, daqui a pouco você cidadão brasileiro, honesto e trabalhador, branco, hetero, cumpridor de leis, pagador de impostos, não terá vez nenhuma neste país das jabuticabas. Há muito tempo a meritocracia foi jogada prás cucuias e, pelo rumo desta prosa, está definitivamente morta e sepultada…

*Educadora e escritora

O Deus do partido comunista chinês

Percival Puggina*

Segundo consegui ver pelo Google, não ganhou devido destaque na mídia militante brasileira a frase mal educada e irreverente de Yang Wanming, Embaixador da China. O embaixador atingindo as crenças da imensa maioria da população brasileira, fez uma afirmação que soa absurda e hipócrita para quem conhece o comunismo chinês e a situação das religiões no país e no Tibet. Assim tuitou o sr. Yang:

Quem é Deus? O Povo é Deus, é o povo que faz a história e determina a história.

Para o jornalismo mais praticado hoje no Brasil, que só tem um alvo e um objetivo, esse é um não assunto. Então, vejamos. A Constituição chinesa afirma:
A República Popular da China é um Estado socialista subordinado à ditadura democrático-popular da classe operária e assente na aliança dos operários e camponeses. O sistema socialista é o sistema básico da República Popular da China. É proibida a sabotagem do sistema socialista por qualquer organização ou indivíduo.

Em sequência, repete, várias vezes, que:
Sob a égide do Partido Comunista da China e a inspiração do marxismo-leninismo e do pensamento Mao Zedong, o povo chinês de todas as nacionalidades continuará a aderir à ditadura democrático-popular e a seguir a via socialista (…).

Desnecessário explicar que ditadura é ditadura, por mais que se acrescente o refrão “democrático-popular” tentando adocicar o que é por natureza amargo. Para que não haja dúvida do caráter não democrático dessa ditadura basta afirmar que só há um partido político na China, não existindo, por consequência, espaço para qualquer forma efetiva de oposição política. Já o caráter efetivamente comunista desse “socialismo” se afirma e reafirma no nome do partido, na confessada inspiração tanto no marxismo-leninismo quanto em Mao Zedong.

Com tais influxos filosóficos e sob uma ditadura com esse perfil, cabe indagar, aparte a grosseria de dar publicidade a tal pensamento na imprensa do país que o hospeda: que espécie de Deus pode ser o povo submetido a uma ditadura? Nas condições em que se descreve a realidade chinesa – inclusive quanto a perseguição religiosa – a única divindade institucionalmente reconhecida na ditadura chinesa é o Partido. O Deus do embaixador é esse supressor de liberdades e do direito à vida, juiz supremo e caricato salvador, que exige para si uma fé não religiosa, não amorosa, não salvífica, cujo nome real é servidão.

*Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.