Marília Alves cunha – Educadora e escritora

Concordo, não podemos viver do passado. O passado é só lembrança, algumas inesquecíveis. O mundo evolui a cada instante e nossa evolução é necessária, muitas vezes imprescindível. A tecnologia não espera ninguém, avança, cria novas conexões, repagina-se a todo momento. Viver neste mundo de admiráveis mudanças e procurar adaptar-se a elas é necessário, tem seus atrativos imensos. O melhor é procurar percorrer modernidades, nem que seja por pura sobrevivência.

Nos dias de carnaval, atoa na vida, estive pensando sobre isto e matutando sobre o que fazer na solidão do ninho. Ver desfiles de escola de samba? Não tenho o mínimo interesse, acho tudo sempre igual, monótono e sem graça. Vi alguns recortes da escola de samba de Niterói, que elogiava o Lula, batia no Bolsonaro, zombava da família e da religião e era tudo de péssimo gosto. Não foi novidade, sempre fazem isto, coisas erradas, quando querem ressaltar para melhor o presidente. Talvez seja difícil mesmo. O personagem não ajuda. Escrever sobre política não estava nos meus planos. Escapulir do Master, dos velhinhos roubados ,dos covardes senadores, de ministros corruptos, de acordão, do joguete em que se transformou o povo brasileiro, da pizza em que tudo, parece, vai se transformar consegui a muito custo! Esquecer por breve tempo o fracasso nacional em vários aspectos era o intento.

O melhor a fazer seria ouvir música, embalar-me em suas delicadezas. Dizem alguns que, em matéria de música, sou saudosista. Sou mesmo, quase que por completo. De alguma maneira também, um pouco crítica da maneira como nos comunicamos hoje em dia. Muito WhatsApp, muita mensagem, muita distância. Faltam encontros, o dar-se as mãos, o sorriso bom que atrai e é carinho. Faltam abraços apertados, aconchegantes, gostosos, daqueles que fazem a gente entregar-se, nunca mais querer soltar-se. Faltam as conversas sem telinhas, olhos nos olhos, gargalhadas explodidas, cheias de luz. Os meios digitais não trazem estas sensações, mas vivemos aqui e agora e é forçoso acostumar-se. E curtir o que puder deste admirável mundo, sem deixar de lado heranças lindas do passado.

Como dizia antes de perder-me, ouvi muita música neste carnaval, tirando proveito do sensacional Spotify à minha disposição, a qualquer hora ou lugar. Gosto de ouvir música, prestando atenção nas letras, no romantismo ou graça que elas contêm, na poesia de seus versos. Grandes poetas as escreveram, com a alma em transe e o coração nas mãos… Vamos relembrar algumas, revisitar este legado lindo que o passado nos deixou?

“Olhos nos olhos, quero ver o que você faz/ ao sentir que sem você eu passo bem demais/e que venho até remoçando/me pego cantando sem mais nem porquê/e tantas águas rolaram/tantos homens me amaram bem mais e melhor/ que você.” OLHOS NOS OLHOS (Chico Buarque)

“A porta do barraco era sem trinco/ e a lua furando o nosso zinco/salpicava de estrelas nosso chão/ tu pisavas nos astros distraída/ sem saber que a beleza desta vida/ é a cabrocha, o luar, o violão.”
CHÃO DE ESTRELAS (Orestes Barbosa e Silvio Caldas)

“Eu falo porque esta dona/ já mora no meu barraco/ à beira de um regato e um bosque em flor/ de dia me lava a roupa/ de noite me beija a boca/ e assim nós vamos vivendo de amor.”
SE ACASO (Lupicínio) Rodrigues)

“Enfim, volto ao jardim/ com a certeza que devo chorar/ pois bem sei que não queres voltar para mim/ queixo-me as rosas/ mas que bobagem/ as rosas não falam/simplesmente as rosas exalam/ o perfume que roubam de ti.”
AS ROSAS NÃO FALAM (Mestre Cartola)

“Tanto riso, Ó, quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão/Arlequim está chorando por amor da Colombina/ no meio da multidão. MÁSCARA NEGRA (Zé Keti)
“É bom passar uma tarde em Itapoã/ ao sol que arde em Itapoã/ouvindo o mar de Itapoã/ falar de amor em Itapoã.
TARDE EM ITAPOÃ (Vinicius de Morais)

“Mas é preciso ter manha/ é preciso ter graça/ é preciso ter sonho sempre/ Quem tem na pele esta marca/ costuma ter a estranha mania de ter fé na vida.
MARIA, MARIA (Milton nascimento)