STF-tudo dominado

Tania Tavares – Professora – SP

Não bastam os ministros do STF Dias Toffoli e Alexandre de Morais envolvidos com sr. Vorcaro e suas falcatruas, agora temos Gilmar Mendes anulando quebra de sigilo do fundo Arleen, sobre o resort de propriedade do ministro Toffoli e que foi aprovada pela CPI do crime organizado. E hoje, mais um ministro Nunes Marques tem o filho Kevin Marques recebendo dinheiro da Consult (JBS e Master).E o Código de Conduta não sai do papel?*
*Impeachment JÁ!

Uma estória de amor

Ana maria Coelho carvalho – Bióloga

Certa vez, escrevi sobre um drama canino envolvendo minhas duas filhotes de yorkshire : a Duda, grandalhona e destrambelhada e a Sissy, minúscula e meiga. No meio de tudo, a minha família revoltada com a Duda porque ela maltratava a Sissy. Um belo dia, a Sissy encontrou o portão aberto e fugiu, decerto para se livrar da Duda. Com lágrimas nos olhos, acabei trocando a Duda pela “Duda Outra”, mais calma e educada, filha de mãe e pai com pedigree e com irmãos comportados.

Ela cresceu saudável e encontrou um namorado, o Nick. Foi amor à primeira vista. Cruzaram inúmeras vezes e como resultado nasceram cinco filhotes: Lolla, Sissy, Tobias, Apollo e Roque. Pretinhos, brilhantes e limpinhos. A mãe os lambia dia e noite, deve ter gasto litros de saliva. E de leite também, não sei como conseguia tanto. Eles ficaram gordinhos e saudáveis e ela, pequenina e acabada, era possível sentir os ossos da costela. As tetas, em número de dez, matematicamente seriam duas para cada filhote, muito simples. Mas a natureza é complexa. Os cinco filhotes empurravam uns aos outros disputando as tetas, todos queriam a mesma. Quando a Duda enfezava, saia andando com os cinco dependurados. Foi uma mãe incrível, impressionante como sabia tudo o que tinha a fazer, cachorro é assim. Defendia os filhotes das pessoas que não conhecia, latia, avançava e não deixava passar a mão. Tentava carregá-los pelo pescoço quando caiam da caminha, mas não tinha forças e nem jeito pra isso. Quando ouvia um ganindo, corria pra acudir, saia derrapando pelo caminho. Pariu sozinha, cortou o cordão umbilical de todos, comeu as placentas sanguinolentas, limpou os filhotinhos, deitou em cima deles para aquecer e já começou a amamentar. Deve ter ficado encantada com tanto cachorrinho saindo do seu corpo. Não sei se ela conseguiu perceber o desenvolvimento deles. Levaram 12 dias para abrir os olhos e no começo só dormiam e mamavam. Depois passaram a se arrastar e, na sequência, a caminhar devagar e a tentar brincar uns com os outros. A Lolla era a maior e bem tranquila, deveria estar roubando o leite dos outros. O Roque era pequenino, espevitado e chorão, deveria estar estressado com a competição pelas tetas. Logo os dentinhos iriam aparecer, machucar as tetas e a Duda iria empurrá-los.

Foi lindo ver e acompanhar essa estória de amor incondicional de uma cadelinha com seus filhotes. Mas logo ela não quis mais saber deles, começou a ignorá-los e seguiu com sua vidinha de cão, decerto sem nem se lembrar que eles existiram. Na mãe humana não, o amor pelo filho é para sempre. Por isso cachorro é cachorro e gente é gente. Sei que existem muitos cães abandonados e maltratados, uma maldade e injustiça com o melhor amigo do homem. Mas existem também muitas crianças que necessitam de um lar, outras que são espancadas pelos pais, outras que passam fome, outras que tem pais que oferecem tudo, menos tempo com os filhos, talvez o que eles mais precisem. E também existem os velhinhos. Penso que muitos gostariam de alguém para segurar suas mãos enrugadas e escutar suas estórias, com paciência e sem pressa. Segundo Rubem Alves, “história” é diferente de “estória”. “História” é aquilo que aconteceu uma vez, pertence ao tempo, é ciência; quem ouve uma “história” fica do mesmo jeito. “Estória” é aquilo que acontece sempre, pertence à eternidade, é magia; quem ouve uma “estória” pode ficar outro.

Quem sabe um dia encontraremos tempo para ouvir as estórias dos velhinhos, que por certo serão mais bonitas que a estória da Duda com seus filhotes.

Como nossa grande mídia pode ser tão indulgente com políticos de direita?

Rafael Moia Filho – Escritor, Membro da Academia Bauruense de Letras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

A chamada grande mídia brasileira detém informações sobre a maior parte dos assuntos que nos envolvem em nosso cotidiano, na política e na história recente do país como um todo. Os dados, estatísticas e um volume sem igual de informações são de conhecimento dos jornais e emissoras de rádio e televisão.
Por qual motivo então se esmeram em divulgar notícias mentirosas ou com caráter dúbio? Qual a razão de se afastarem da sociedade atuando com comportamento ou espírito sectário? O que ganham omitindo a verdade sobre os verdadeiros algozes da população? Aqueles que se imiscuem em escândalos de corrupção amplamente divulgados nas redes sociais.
Se, justamente, os jornalistas que estudaram, e com isso detém conhecimentos não usarem das ferramentas que dispõem para serem os formadores de opinião, quem acaba se aproveitando e deturpando a informação são os disseminadores de Fake News. Isso é parte de um episódio triste que vivemos em nosso país.
Eles sabem quem são os corruptos e com quem eles interagem. Sabem quem os financia e apoia, porém, voltam seus olhos no afã de praticar uma ideologia rasteira, vil, e totalmente alhures a sagrada verdade dos fatos.
Entretanto, os grandes grupos poderosos que são proprietários das empresas de comunicação, não aceitam a democracia e suas nuances de poder entre esquerda, centro e direita. São parciais em seus editoriais, matérias e atuam como um jornalismo retrógado que busca apenas favorecer os segmentos empresariais, grandes grupos financeiros e os partidos e políticos do espectro de direita.
Não importa para essas pessoas os roubos e desvios de corrupção de Maluf, Pitta, Collor e as suspeições sobre Nunes e Tarcísio. Nestes casos a mídia age como cúmplice, evitando se aprofundar e usar de um jornalismo investigativo imparcial para levar aos brasileiros informação com precisão e isenção.
Os exemplos desde 2014 demonstram inequivocamente a participação da grande mídia, seja como cúmplice ou se omitindo de falar a verdade. O golpe do Impeachment contra Dilma teve apoio de Globo, Folha e Estadão, assim como, a farsa da lava jato com toda canalhice orquestrada por Sergio Moro e Deltan.
Nas eleições de 2018 e 2022, mesmo sendo avacalhados por Bolsonaro publicamente, deram seu apoio tácito ao candidato que depois de eleito permitiu com seu negacionismo e ignorância a morte de 700 mil brasileiros na pandemia pelo atraso na compra de vacinas.
O escândalo BolsoMaster está recebendo apoio pleno, e nenhuma linha é escrita sobre depósitos para Tarcísio e Bolsonaro feitos por Vorcaro, nem sobre orgias realizadas em Trancoso ou voos em jatos de políticos como Nicolas Ferreira.
Os crimes cometidos pela direita, como aquele absurdo dos R$ 450 mil encontrados pela PF na casa do Deputado Sóstenes Cavalcante líder do PL, ficam sempre escondidos. Se um boato é lançado mesmo que por Fake News contra o governo ou Lulinha eles colocam páginas em destaque total.

Uma questão de consciência

Marília Alves Cunha – Educadora e escritora

“A inumanidade que se causa a um outro, destrói a humanidade em mim.”
Immanuel Kant

Das provações a que tem sido submetido o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro todos têm conhecimento, graças ao poder das redes sociais que, felizmente, ainda têm força neste país. Isto, apesar das inúmeras tentativas de regulação das mesmas por um sistema que anseia impor um pensamento único e dos insistentes lances de censura que vemos, por muitas vezes, agir contra a nossas liberdades. Rasgos de liberdade de expressão, tão cara aos brasileiros e energicamente defendida na Constituição Federal, tem permitido a tomada de consciência com relação a autoritarismo e abuso de poder com que, muitas vezes, tem se defrontado o povo brasileiro. Muitos sentiram na pele o peso disto, perseguidos, exilados, destituídos do direito de agir e até morto, em consequência.

Pelejaram para condenar Bolsonaro por inúmeros crimes que teria cometido, uns até mesmo bizarros, dignos de fazerem parte de uma comédia. Todos foram arquivados pela promotoria federal por insuficiência de provas. Restou o 08/01 e a celeridade em fazer de uma farsa, o motivo de prisão, exilio, sofrimento e até morte de muitos brasileiros.

Por esta trama, o ex-presidente foi condenado a uma pena dosada exageradamente em 27 anos e três meses, em regime fechado, acusado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do estado democrático de direito. Nunca vimos no país uma pena tão grande para o que, se houve, não passou de cogitação, a primeira e não condenatória fase do “iter criminis”.

O ex-presidente não terminará bem, já devidamente esclarecido pelos médicos, se continuar na situação em que se encontra hoje. Necessita, para sua recuperação, cuidados que não estão assegurados no encarceramento, inclusive pela sua idade e comorbidades, devidas à facada recebida (até hoje sem explicação convincente) quando candidato em 2018. O STF não é obrigado, legalmente, a conceder a ele a prisão domiciliar. Existem regras e normas para esta concessão. Mas, nada impede , por uma questão humanitária, por estarem todos cientes das condições críticas de saúde em que encontra-se o paciente e por já ter 70 anos de idade, que seja beneficiado. Nem ousamos acreditar que isto lhe seja negado, daqui em diante.

Bem, o presidente encontra-se seriamente enfermo, hospitalizado em Brasília. Apesar de estar na UTI uma multidão de soldados, guardas, vigias tem se esmerado em vigiar seus passos, desculpe, sua pessoa. Mas achamos até natural, por estarmos num país que vive situações absurdas. Quem sabe, talvez, tenham receio de que Trump arrebate Bolsonaro do leito do hospital e o leve embora no breu da noite, como num filme que não é ficção e aconteceu na Venezuela.

Cachorro peidão

Paulo Henrique Coimbra de Oliveira – Economista – RJ

Um dia desses curtindo meu ócio em casa verifiquei que a TV estava sintonizada, certamente por descuido, na TV Justiça. Na tela, um desses ministros envolvidos no escândalo do banco Master proferia um voto. Não sei porque parei para olhar. Não para ouvir o seu voto prolixo (com duplo sentido ) mas para ver seu semblante. Falava como se nada estivesse acontecendo de errado com a corte enlameada pelos recentes acontecimentos deploráveis. Que moral têm esses cidadãos para julgar quem e ou que? Talvez tenha ficado uns 5 minutos olhando para concluir o seguinte: são uns caras de pau ou melhor uma máxima que sempre ouvi – cara de cachorro que peidou na igreja. Já passou da hora de destituirmos pelo menos uns 8 ministros. Com a palavra o Senado, onde não existem senadores.

DEMOCRACIA, CAPITAL NATURAL E SUSTENTABILIDADE

João Batista Domingues Filho
Cientista Político – Professor UFU/INCIS

A democracia se mostra pelo grau de desenvolvimento dos fatores de liberalização (contestação pública do governante) e inclusividade (participação do cidadão na riqueza da nação). Não existe vontade política consistente para a construção de uma democracia brasileira estruturada na sustentabilidade e no controle estratégico do capital natural. Existe dinâmica de interesse, correlação de forças e capacidade de realização de políticas ambientais. Entretanto, a conservação da biodiversidade ainda não se consolidou como eixo estruturante do modelo de desenvolvimento brasileiro. Interesse econômico e capacidade de realização permanecem, em grande medida, associados a atividades intensivas em recursos naturais. Nesse contexto, a produção econômica sustentável não constitui o núcleo organizador da estratégia de crescimento nacional.
Critérios baseados em biodiversidade e sustentabilidade para nortear os investimentos públicos precisam ser criados no Brasil, dado o padrão de pressão sobre os ecossistemas. Preservação da biodiversidade e desenvolvimento humano, atrelando os ecossistemas ao debate climático, é caminho necessário para a proteção da natureza. O financiamento da conservação da biodiversidade deve advir dos benefícios econômicos da própria exploração sustentável. Interesse econômico, mediado pelo Estado democrático, produzindo lucros para os capitalistas e conservação da biodiversidade, é possível. O Brasil dispõe de arcabouço normativo ambiental relevante — como o Sistema Nacional de Unidades de Conservação e legislações complementares —, porém enfrenta dificuldades históricas de financiamento, implementação e integração dessas normas a uma estratégia econômica de larga escala. A liberalização política e a inclusividade econômica ainda não se traduziram plenamente em acesso equitativo aos benefícios gerados pelo capital natural brasileiro.
O Brasil não tem uma política ambiental integrada e transversal ao conjunto da estratégia econômica do país, apesar de apresentar compromissos internacionais relevantes. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) desenvolve diagnósticos sobre o potencial econômico das unidades de conservação da biodiversidade brasileira. Dados recentes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) — autarquia federal responsável pela gestão das Unidades de Conservação federais — indicam que, em 2024, essas áreas receberam aproximadamente 25,5 milhões de visitantes, número recorde que revela demanda crescente pelo turismo de natureza. Esse fluxo evidencia que a biodiversidade, quando estruturada para uso público sustentável, constitui ativo econômico significativo, ainda subdimensionado na política nacional de desenvolvimento.
Estados Unidos, para o turismo nessas áreas, investem valores superiores por hectare na gestão de parques e reservas. No Brasil, historicamente, o valor investido é reduzido. Levantamentos comparativos indicam que o orçamento agregado de agências federais norte-americanas responsáveis por parques e áreas protegidas alcança cerca de US$ 12,5 bilhões anuais, enquanto o orçamento do ICMBio situa-se na faixa de aproximadamente US$ 64 milhões anuais. Em termos proporcionais, estima-se investimento próximo a R$ 273 por hectare protegido nos Estados Unidos, contra cerca de R$ 4,42 por hectare no Brasil. O turismo ecológico gera, nos EUA, centenas de milhares de empregos e bilhões de dólares por ano nessas áreas. Conservar a biodiversidade, além dos benefícios econômicos, depende da mobilização do governo e de todos os setores da sociedade. Depende da mudança do modelo econômico: produção e consumo. Isto é mudança estrutural.
As mudanças no Brasil ficam, muitas vezes, restritas a metas formais. Reduzir o desmatamento da Amazônia e do Cerrado é necessário, mas insuficiente. O que vivemos no Brasil paralelamente à pressão sobre a biodiversidade? Crescimento econômico, aumento da população e maior poder de compra das classes baixas. Apesar de oscilações recentes nas taxas de desmatamento e recomposição parcial do orçamento ambiental federal, persistem pressões estruturais associadas à expansão agropecuária, à mineração e à infraestrutura, indicando que o padrão de crescimento permanece intensivo no uso de recursos naturais.
Governança mundial é necessária para enfrentar a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas. Problema global, solução coordenada. Frente às mudanças climáticas provocadas pelo homem, a governança política do planeta deve buscar transição energética progressiva, reduzindo a dependência de petróleo, gás natural e carvão. O carvão é fonte de energia mais barata do que alternativas renováveis em muitos contextos. Política energética de baixo carbono versus interesse econômico poluidor. A transição energética tornou-se imperativo estratégico internacional, mas ainda convive com fortes assimetrias entre compromissos formais e implementação efetiva. EUA, China e Índia, para arrastarem o resto do mundo, devem transitar para economias de baixas emissões de dióxido de carbono. Sem integração entre democracia, inclusão econômica e valorização estratégica do capital natural, a sustentabilidade tende a permanecer periférica no modelo de desenvolvimento brasileiro.