Ana maria Coelho carvalho – Bióloga
Certa vez, escrevi sobre um drama canino envolvendo minhas duas filhotes de yorkshire : a Duda, grandalhona e destrambelhada e a Sissy, minúscula e meiga. No meio de tudo, a minha família revoltada com a Duda porque ela maltratava a Sissy. Um belo dia, a Sissy encontrou o portão aberto e fugiu, decerto para se livrar da Duda. Com lágrimas nos olhos, acabei trocando a Duda pela “Duda Outra”, mais calma e educada, filha de mãe e pai com pedigree e com irmãos comportados.
Ela cresceu saudável e encontrou um namorado, o Nick. Foi amor à primeira vista. Cruzaram inúmeras vezes e como resultado nasceram cinco filhotes: Lolla, Sissy, Tobias, Apollo e Roque. Pretinhos, brilhantes e limpinhos. A mãe os lambia dia e noite, deve ter gasto litros de saliva. E de leite também, não sei como conseguia tanto. Eles ficaram gordinhos e saudáveis e ela, pequenina e acabada, era possível sentir os ossos da costela. As tetas, em número de dez, matematicamente seriam duas para cada filhote, muito simples. Mas a natureza é complexa. Os cinco filhotes empurravam uns aos outros disputando as tetas, todos queriam a mesma. Quando a Duda enfezava, saia andando com os cinco dependurados. Foi uma mãe incrível, impressionante como sabia tudo o que tinha a fazer, cachorro é assim. Defendia os filhotes das pessoas que não conhecia, latia, avançava e não deixava passar a mão. Tentava carregá-los pelo pescoço quando caiam da caminha, mas não tinha forças e nem jeito pra isso. Quando ouvia um ganindo, corria pra acudir, saia derrapando pelo caminho. Pariu sozinha, cortou o cordão umbilical de todos, comeu as placentas sanguinolentas, limpou os filhotinhos, deitou em cima deles para aquecer e já começou a amamentar. Deve ter ficado encantada com tanto cachorrinho saindo do seu corpo. Não sei se ela conseguiu perceber o desenvolvimento deles. Levaram 12 dias para abrir os olhos e no começo só dormiam e mamavam. Depois passaram a se arrastar e, na sequência, a caminhar devagar e a tentar brincar uns com os outros. A Lolla era a maior e bem tranquila, deveria estar roubando o leite dos outros. O Roque era pequenino, espevitado e chorão, deveria estar estressado com a competição pelas tetas. Logo os dentinhos iriam aparecer, machucar as tetas e a Duda iria empurrá-los.
Foi lindo ver e acompanhar essa estória de amor incondicional de uma cadelinha com seus filhotes. Mas logo ela não quis mais saber deles, começou a ignorá-los e seguiu com sua vidinha de cão, decerto sem nem se lembrar que eles existiram. Na mãe humana não, o amor pelo filho é para sempre. Por isso cachorro é cachorro e gente é gente. Sei que existem muitos cães abandonados e maltratados, uma maldade e injustiça com o melhor amigo do homem. Mas existem também muitas crianças que necessitam de um lar, outras que são espancadas pelos pais, outras que passam fome, outras que tem pais que oferecem tudo, menos tempo com os filhos, talvez o que eles mais precisem. E também existem os velhinhos. Penso que muitos gostariam de alguém para segurar suas mãos enrugadas e escutar suas estórias, com paciência e sem pressa. Segundo Rubem Alves, “história” é diferente de “estória”. “História” é aquilo que aconteceu uma vez, pertence ao tempo, é ciência; quem ouve uma “história” fica do mesmo jeito. “Estória” é aquilo que acontece sempre, pertence à eternidade, é magia; quem ouve uma “estória” pode ficar outro.
Quem sabe um dia encontraremos tempo para ouvir as estórias dos velhinhos, que por certo serão mais bonitas que a estória da Duda com seus filhotes.