Voto secreto

Paulo Henrique Coimbra de Oliveira

Diz a nossa lei eleitoral que o voto é secreto. Legal mas ninguém cumpre e me senti hoje no dever fazer considerações sobre como votarei. Sou leitor assíduo de cartas de leitores de diversos jornais, sendo que 2 deles os de maior circulação no país. Tenho notado por parte dos leitores uma abominação unânime relativamente ao candidato Flávio Bolsonaro bem como o endeusamento do candidato Lula. Com relação ao candidato Flávio até concordo com a maioria das críticas mas discordo frontalmente do endeusamento de Lula. Porque restou comprovado em todas as instâncias os crimes que o mesmo cometeu. Assim abomino o candidato Lula e lutarei para que ele não seja reeleito. Flávio ainda não foi julgado nem condenado por qualquer crime e portanto julgo ser merecedor de uma oportunidade. Isto posto, nem preciso declarar meu voto até porque o voto é secreto.

Esvaziando as gavetas

Ana Maria Coelho Carvalho – Bióloga

Li, na revista Veja Rio, em agosto/26, um texto de Kika Gama Lobo. A autora escreve que existe uma nova religião circulando por aí: a longevidade. Todos fascinados pela ideia de chegar aos 90, aos100 anos, encarando o envelhecimento como ele aparece nas redes sociais: cabelos brancos charmosos, corpos sarados, viagens, vinhos, sexo, pilates, empreendedorismo depois dos 60 anos. E aquela frase perigosa:” A idade está apenas na cabeça”.

Mas não. A idade está por toda parte: na conta bancária, no plano de saúde, na solidão da noite, na memória que falha, na filha que mora em outro país, no filho que não tem tempo de cuidar de ninguém, no remédio caro, no cuidador que custa uma fortuna, nas dores no corpo.

A autora argumenta que, para quem quiser viver muito, é preciso começar seu planejamento bem antes dos 70: construir patrimônio, cuidar do corpo e da cabeça, discutir herança, organizar documentos. E, sobretudo, aprender a pedir ajuda, construir uma rede, pois ninguém envelhece sozinho. Caso contrário, o tão sonhado presente da longevidade pode se transformar em uma longa travessia de abandono.

Já a médica e escritora Ana Cláudia Quintana, autora do best-seller A morte é um dia que vale a pena viver, afirma, sem rodeios, que todos deveriam se preparar para a própria morte e falar sobre esse assunto com naturalidade com amigos e familiares. Pode ser no almoço do domingo, na pizza de sábado à noite…Uma conversa difícil, mas necessária, e que pode mudar para melhor o desfecho de uma vida.

Ainda sobre velhice e morte, recentemente assisti a uma palestra cujo tema era o perdão. O palestrante ressaltou o quanto é inútil e prejudicial guardar mágoas e ressentimentos de alguém. Você fica sofrendo, remoendo a raiva, enquanto, muitas vezes, a outra pessoa nem sabe que você está magoado com ela. Disse que a velhice precisa nos ensinar, precisa nos corrigir. E lançou uma pergunta:

-Quantos anos você tem?

Ressaltou que deveríamos responder pensando nos anos que ainda temos pela frente: oito? cinco? um? Então, não podemos desperdiçar este tempo precioso guardando raiva e rancor. Continuando, disse que não adianta deixar de pensar na morte. Ela vai chegar. E perguntou:

-Quando você morrer, quem vai chorar?

Respondeu que provavelmente os filhos e talvez alguns netos, se você tiver. Bisnetos já não se importam tanto. E, daqui a 100 anos, se você não tiver sido uma pessoa famosa, ninguém se lembrará que você existiu.

Concluiu que os velhos não podem perder tempo com coisas inúteis ou ruins, como guardar rancor e mágoa. O melhor caminho é o perdão, para seguir o restante da vida com mansidão, paz e amor no coração.

Assim, prometi a mim mesma começar a fazer algum planejamento para minha velhice e minha morte. Iniciaria pelo item “organizar documentos”, sugerido no texto de Kika Gama.

Era hora de limpar as gavetas entulhadas de papéis e documentos desnecessários. Abri uma delas e logo vi um pequeno pacote de folhas amareladas, preso por um elástico. Peguei duas folhas dobradinhas e as abri.

Deus do céu!

Era uma carta que eu havia escrito para o Zé, meu finado marido, que, naquela época, morava em Uberlândia.

No alto, com letra caprichada, estava escrito: “Campos Altos, 1º de outubro de 1969”.

Quase sessenta anos!

Uma relíquia.

E logo abaixo, na saudação: “Querido noivinho:”

No corpo da carta, eu combinava com ele, detalhadamente, os últimos arranjos para o nosso casamento, que seria no dia 18 daquele mês, em Pará de Minas. Havia até um acróstico que escrevi com o nome dele: José.

Expliquei que provavelmente aquela seria a nossa última carta, pois, depois, “viveremos juntos até que a morte nos separe”, conforme escrevi.

Nossa, como fiz uma previsão dessa e deu certo mesmo?

Só nos separamos 51 anos depois, com a morte dele.

Como eu poderia jogar no lixo uma carta assim?

Ainda mais porque, por acaso, havia lido recentemente um texto intitulado Do fundo do baú, em que se exaltava a maravilhosa forma de comunicação que é uma carta.

Por exemplo, pelo lado afetivo, a emoção de pensar que alguém, em algum cantinho do mundo, escolheu um papel, uma caneta e escreveu uma carta só para você.

Pelo lado histórico, cartas são capazes de registrar acontecimentos extraordinários, como a de Pero Vaz de Caminha e as do padre Manoel da Nóbrega, importantes documentos dos primeiros tempos do Brasil.

Do ponto de vista literário, podem ser verdadeiros tesouros, como as cartas trocadas entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco, que revelam o diálogo entre dois grandes espíritos.

Por tudo isso, nunca que eu jogaria fora uma carta

Ainda mais uma carta de amor de quase 60 anos!

E assim, todos os meus planejamentos de velhice e morte foram por água abaixo.

Guardei a carta cuidadosamente de volta e fechei a gaveta. Afinal, há gavetas que não guardam papéis. Guardam pedaços da nossa vida.

Lembrei-me, então, de um texto atribuído a Mário Quintana:

“Eu moro em mim. Deixo sempre as janelas entreabertas para sentir o sopro de raros afetos. A porta? Só abro para poucos. Todos os dias percorro meus cômodos, corredores e contemplo a vida pela varanda. Mas as gavetas…Ah…As gavetas? Ainda não dá para abri-las. Senão, acabo tendo que morar dentro delas”.

E talvez seja exatamente isso. Há gavetas que não devemos esvaziar.

Porque, às vezes, quando abrimos uma delas, não encontramos papéis velhos.

Encontramos quem fomos.

O diabo veste Toga!

Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

O Supremo Tribunal Federal – STF sempre foi respeitado e sempre foi o guardião da Constituição Federal e dos três poderes constituídos da república brasileira. Como qualquer órgão oficial, nunca foi unanimidade, porém, caminhou pela democracia em momentos turbulentos de ditadura militar, no processo de redemocratização e nos anos que se seguiram.
Porém, bastou um único governo de extrema direita, negacionista, corrupto e as coisas mudaram no âmbito do Supremo. A partir das indicações de Kassio Nunes e André Mendonça por Jair Bolsonaro em 2020 e 2021, as coisas mudaram e para muito pior.
A indicação de dois evangélicos, terrivelmente bolsonaristas, levou aquela corte a viver dias conturbados, decisões estranhas, liberação e arquivamento de processos de pessoas ligadas a família Bolsonaro.
O Ministro André Mendonça foi escolhido para tomar a frente dos processos da roubalheira do INSS que começou e prosperou no governo Bolsonaro, com diversos Ex ministros como participantes da roubalheira. E do escândalo do Banco Master, conhecido como BolsoMaster pelo envolvimento direto de Flávio, Eduardo Bolsonaro, Mário Frias e outros políticos proeminentes do bolsonarismo.
Como esperado, o processo foi sendo direcionado para poder ser arquivado ou esquecido em alguma gaveta do STF. Ao invés de dar celeridade, Mendonça resolveu investigar quem nada tinha a ver com ambos os processos. Prejudicou as ações da Polícia Federal, escondeu o celular de Daniel Vorcaro alegando que continha coisas que não poderiam ser divulgadas, tentou afastar o diretor da PF das investigações.
Porém, simultaneamente foi deixando vazar aquilo que interessava a Flávio Bolsonaro e demais membros da quadrilha bolsonarista. Escondeu que os filhos de Luiz Fux e Kassio Nunes eram beneficiários de Vorcaro. Escondeu ou fez vista grossa a ligação de Dias Toffoli com empreendimento financiado pelo Banco Master em resorts.
Porém, aproveitou para atacar o colega Alexandre de Moraes, ministro odiado pelo bolsonarismo, por ter julgado Jair e caterva no processo de planejamento de golpe de estado e tentativas de assassinatos.
No caso, a esposa de Alexandre, advogada, trabalha num escritório que tinha entre seus clientes o Banco Master. Por este motivo está sendo atacado, julgado e demonizado. Ao mesmo tempo, André Mendonça, Rede Globo, e demais membros da mídia vira lata da extrema direita fingem não saber do envolvimento de André Mendonça com Daniel Vorcaro. O que deveria ter levado ao veto de sua participação nos julgamentos dos processos contra aquele banqueiro criminoso.
No Brasil, atualmente as coisas funcionam da seguinte forma: Se qualquer coisa possa ser utilizada contra Lula nas eleições ela será exaustivamente colocada em pauta. Porém, se crimes forem cometidos por Flávio Bolsonaro e aliados bolsonaristas, incluindo ministros do STF; silencio, cumplicidade e poucas linhas na mídia.
Se os envolvidos em escândalos no Brasil tivessem suas vidas esmiuçadas como foi a do Lulinha, filho do presidente, com certeza não haveria pedra sobre pedra no sistema. O André jamais deveria pedir investigação para um cidadão que sequer possui foro privilegiado, ao mesmo tempo que deveria ter investigado à exaustão todos os reais envolvidos nos escândalos citados.
Ele poupou o Deputado Federal Mário Frias, o Prefeito de São Paulo, Rubens Nunes (MDB/SP), Eduardo Bolsonaro foragido nos EUA, cujas suspeitas são enormes de ter recebido milhões desviados do filme Dark Horse e tantos outros que estavam nas festas, orgias e reuniões com Daniel Vorcaro e foram por ele beneficiados com milhões. Sem esquecermos dos pastores evangélicos da Igreja (Lavanderia) da Lagoinha e do Deputado Fake News Nicolas Ferreira, beneficiário da utilização de aviões de Vorcaro.
O objetivo de André Mendonça é destruir Alexandre de Moraes e interferir no processo eleitoral, onde Lula disputa com o filho do presidiário as eleições para a presidência da república.
Em 14 de março de 2025, Daniel Vorcaro esteve na sede do Instituto Iter, em São Paulo, para uma reunião com André Mendonça. O próprio ministro confirmou que recebeu Vorcaro. A reunião teria sido articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira, segundo as informações obtidas a partir das mensagens apreendidas pela Polícia Federal.
Por fim, uma alfaiataria é mencionada no caso envolvendo Daniel Vorcaro e o ministro André Mendonça por causa de uma suspeita de que o banqueiro teria pago ternos caríssimos para o magistrado. Um advogado ligado a Vorcaro teria afirmado, em áudio, que levou André Mendonça a uma alfaiataria em São Paulo para fazer um terno. Com certeza “O diabo veste Prada…ops, toga!

Os Sessenta+

Tania Tavares – Professora – SP

Estas eleições para Presidente do Brasil estão mais uma vez polarizadas em torno de dois candidatos. Mas a turma do 60+, que já vivenciou alguns governos que não trouxeram saudades, podem fazer a diferença nestas eleições e votar diferente. Há candidatos que já foram testados como governadores em seus estados em dois mandatos e podem ser a alternativa que precisamos nesta eleição. Viva a democracia!

Tani

O Brasil tem jeito?

Marília Alves Cunha – Educadora e escritora

Após o espetáculo que assistimos em reunião plenária do STF, realizada no último dia 15\9, para resolver questão relativa ao Ministro Alexandre de Moraes e suas incursões ao mundo podre de Vorcaro e Banco Master, a gente fica um pouco desanimada. Será possível continuar acreditando que um democrático, poderoso e justo Brasil poderia surgir, a continuarem estes acontecimentos que deturpam qualquer regime, qualquer capacidade de entendimento, qualquer significativo sinal de que as coisas vão dar certo, vão melhorar?

Para falar a verdade, nem parecia uma reunião do STF para deliberar sobre qualquer coisa. Gilmar mendes, Flávio Dino e o próprio Alexandre de Moraes acabaram por destruir restos de reputação da Corte quando, com a máxima imprudência e insensatez uniram-se para defender imperiosamente não a honestidade e honra de uma instituição, mas de um membro da Alta corte ou a si mesmo. Jogaram por terra tudo que se espera de um guardião da nossa Constituição.

O que temos visto no Brasil nos últimos tempos? Uma inundação de corrupção e escândalos inimagináveis varre o Brasil e, o pior, membros da Suprema corte e da PF envolvidos até o pescoço nestes acontecimentos. Momentos de vitória contra esta inundação se revelavam, quando André Mendonça, um Ministro terrivelmente evangélico, punha à mostra fatos que denunciavam a participação de membros da Suprema Corte no maior crime financeiro já visto no país. Mas neste país de peripécias jurídicas imperdoáveis, os investigadores tornam-se também investigados e muitas vezes são sujeitos a processos e situações que nada fizeram para promover.

A situação de Alexandre de Moraes face às investigações feitas, era o assunto principal do dia. A defesa do Ministro constava de 44 páginas, um amontoado de palavras muito criticadas, com um amontoado de erros de português, escrita parecida a mensagens de WhatsApp (deve ter sido feira por um estagiário inexperiente) e acusações a Mendonça de coisas que ele mesmo fez muitas vezes, desrespeitando o devido processo legal.

Tudo desabou quando Flávio Dino, intransigente na defesa do colega, percebendo que não iriam obter vitória, pediu vista do processo, mesmo já tendo declarado seu voto, tendo já encerrado sua participação, num gesto de suprema proteção e autoproteção. Moraes deve estar aliviado, respirando fundo. Se Flávio Dino não tivesse pedido vista, penso que o próprio Moraes teria pedido… Absurdo o que estou dizendo? Não! Alexandre de Moraes, o intocável, expediu voto em processo do qual ele era o julgado… E tudo bem! Você quer uma coisa mais absurda do que isto?

Um ministro, por enquanto, salvou a pele do outro. Já disse e repito: isto é colocar a autoproteção acima dos preceitos e regras constitucionais e acima de qualquer investigação quando se trata de ministros do STF e acima de qualquer tentativa de serem investigados. Que me perdoem os inocentes no caso, enquanto tivermos certos elementos manchando a grandiosidade de uma Suprema Corte, certamente não haverá maneiras de se fazer uma boa política e ver nosso país singrando por águas tranquilas.

As eleições estão aí, batendo à nossa porta. O último recurso do povo é eleger bons candidatos, aqueles que mostraram-se lutadores contra poderes que, indisfarçadamente ou não, mostraram a incompetência e a ânsia de poder pelo poder, aqueles que trabalharam contra o Brasil e não a favor dele. A minha esperança é que façamos escolhas inteligentes e que não morra nas urnas a esperança de um país mais iluminado e gentil para os brasileiros. O Brasil exige mudanças, com urgência.

Quando o dinheiro chega perto demais do poder

Diógenes Pereira da Silva – Oficial da Reserva da PMMG

Há perguntas que precisam ser feitas, principalmente quando envolvem dinheiro, poder e instituições da República.
O caso Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revela uma extensa rede de relações com políticos, empresários e autoridades. Reportagens já vinham mostrando essa aproximação. A jornalista Malu Gaspar, de O Globo, foi uma das profissionais que investigaram o assunto e trouxeram informações importantes ao conhecimento público.
Com o avanço das investigações, novas mensagens e documentos apreendidos pela Polícia Federal ampliaram as dúvidas. Vieram a público informações sobre contatos com autoridades, eventos milionários, viagens internacionais e utilização de aeronaves relacionadas ao grupo empresarial.
Nada disso, isoladamente, comprova crime. Ter amizade, participar de um evento ou viajar em determinada aeronave não significa, por si só, corrupção ou tráfico de influência. Cabe às autoridades investigar e separar fatos comprovados de suspeitas.
Mas uma pergunta é inevitável: por que um banqueiro, cujo negócio busca lucro, gastaria tanto dinheiro para construir relações tão próximas com pessoas que ocupam posições estratégicas na República?
Outro episódio chama atenção: o financiamento do filme Dark Horse, produção realizada nos Estados Unidos sobre Jair Bolsonaro. Segundo informações divulgadas pela imprensa, Vorcaro teria destinado milhões de dólares ao fundo relacionado ao projeto. Novos dados divulgados em 1º de setembro apontam para mais um repasse de US$ 1,6 milhão, elevando o total atribuído a Vorcaro para cerca de US$ 12,3 milhões, aproximadamente R$ 63,7 milhões.
Também foram divulgadas informações sobre negociações envolvendo valores ainda maiores para a produção.
É preciso esclarecer: quem recebeu o dinheiro? Onde ele foi aplicado? Quais serviços foram efetivamente prestados? E por que um banqueiro decidiu investir tamanhos recursos em uma produção ligada à família de um ex-presidente?
São perguntas legítimas, independentemente de ideologia.
O mesmo vale para festas, viagens, aeronaves, contratos e relações com autoridades. Não se trata de condenar ninguém antecipadamente, mas de exigir transparência quando dinheiro privado e poder público passam a conviver tão proximamente.
E a régua precisa ser igual para todos.
Se o banqueiro fosse aliado de Lula, Bolsonaro, de um ministro do STF ou de qualquer outro grupo político, a pergunta deveria ser a mesma: até onde pode chegar a influência do dinheiro privado sobre as instituições públicas?
Que se investigue tudo. Sem proteger amigos e sem perseguir adversários.
Porque a República não pertence a banqueiros, políticos, ministros ou empresários.

Pertence ao cidadão.

E quando o dinheiro chega perto demais do poder, a sociedade tem o direito de perguntar:
Até onde esse dinheiro consegue chegar?