Diógenes Pereira da Silva – Oficial da Reserva da PMMG
Há perguntas que precisam ser feitas, principalmente quando envolvem dinheiro, poder e instituições da República.
O caso Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revela uma extensa rede de relações com políticos, empresários e autoridades. Reportagens já vinham mostrando essa aproximação. A jornalista Malu Gaspar, de O Globo, foi uma das profissionais que investigaram o assunto e trouxeram informações importantes ao conhecimento público.
Com o avanço das investigações, novas mensagens e documentos apreendidos pela Polícia Federal ampliaram as dúvidas. Vieram a público informações sobre contatos com autoridades, eventos milionários, viagens internacionais e utilização de aeronaves relacionadas ao grupo empresarial.
Nada disso, isoladamente, comprova crime. Ter amizade, participar de um evento ou viajar em determinada aeronave não significa, por si só, corrupção ou tráfico de influência. Cabe às autoridades investigar e separar fatos comprovados de suspeitas.
Mas uma pergunta é inevitável: por que um banqueiro, cujo negócio busca lucro, gastaria tanto dinheiro para construir relações tão próximas com pessoas que ocupam posições estratégicas na República?
Outro episódio chama atenção: o financiamento do filme Dark Horse, produção realizada nos Estados Unidos sobre Jair Bolsonaro. Segundo informações divulgadas pela imprensa, Vorcaro teria destinado milhões de dólares ao fundo relacionado ao projeto. Novos dados divulgados em 1º de setembro apontam para mais um repasse de US$ 1,6 milhão, elevando o total atribuído a Vorcaro para cerca de US$ 12,3 milhões, aproximadamente R$ 63,7 milhões.
Também foram divulgadas informações sobre negociações envolvendo valores ainda maiores para a produção.
É preciso esclarecer: quem recebeu o dinheiro? Onde ele foi aplicado? Quais serviços foram efetivamente prestados? E por que um banqueiro decidiu investir tamanhos recursos em uma produção ligada à família de um ex-presidente?
São perguntas legítimas, independentemente de ideologia.
O mesmo vale para festas, viagens, aeronaves, contratos e relações com autoridades. Não se trata de condenar ninguém antecipadamente, mas de exigir transparência quando dinheiro privado e poder público passam a conviver tão proximamente.
E a régua precisa ser igual para todos.
Se o banqueiro fosse aliado de Lula, Bolsonaro, de um ministro do STF ou de qualquer outro grupo político, a pergunta deveria ser a mesma: até onde pode chegar a influência do dinheiro privado sobre as instituições públicas?
Que se investigue tudo. Sem proteger amigos e sem perseguir adversários.
Porque a República não pertence a banqueiros, políticos, ministros ou empresários.
Pertence ao cidadão.
E quando o dinheiro chega perto demais do poder, a sociedade tem o direito de perguntar:
Até onde esse dinheiro consegue chegar?