Fazenda de Minas Gerais comunica fim da Nota Fiscal ‘série D’ e adoção do documento eletrônico

Aplicativo Nota Fiscal Fácil foi liberado para uso de MEI, optante do Simples Nacional, transportador de cargas e produtor rural pessoa física

GOV. MG

A Secretaria de Estado de Fazenda de Minas Gerais (SEF-MG) comunica que, a partir de 1/8/2026, a Nota Fiscal de Venda ao Consumidor – Modelo 2, também chamada de “série D” (talonário de papel), será extinta. Esse modelo ainda é utilizado pelos contribuintes não obrigados ao uso da Nota Fiscal de Consumidor eletrônica (NFC-e), como Microempreendedor Individual (MEI), comerciante varejista optante pelo Simples Nacional (SN), transportador autônomo de cargas (TAC) e produtor rural pessoa física (PRPF).

Para adequação dos contribuintes do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), a Secretaria de Fazenda informa que já está disponível a opção de emissão da Nota Fiscal Fácil (NFF). Basta baixar o aplicativo da NFF nas plataformas Android ou IOS e fazer login utilizando a conta Gov.br, que deverá ser prata ou ouro.

A extinção da nota “série D” segue o contexto de preparação para a Reforma Tributária sobre o Consumo (Emenda Constitucional 132/23 e Leis Complementares 214/25 e 227/26), já que os documentos fiscais eletrônicos (DF-e) serão necessários para a geração da apuração assistida para o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).

Aparato legal

Em Minas Gerais, a medida está formalizada na Resolução SEF nº 5.981/25. Com o objetivo de viabilizar a emissão dos documentos fiscais eletrônicos, a Portaria SAIF 35/2021 foi atualizada pela Portaria SAIF 56/2025 para incluir a opção de emissão da NFF por MEI, optante pelo SN, TAC e PRPF.

Dúvidas dos contribuintes podem ser sanadas, por meios dos manuais, disponível neste link.

Projetos de lei ordinária são aprovados, em primeira discussão e votação

Projetos de lei ordinária são aprovados, em primeira discussão e votação, durante a oitava reunião ordinária plenária de maio

ASCOM~CMU

Primeira discussão e votação

01.Projeto de Lei Ordinária N°. 965/2026 – de autoria do vereador Neemias Miquéias (Podemos), que institui no Calendário Oficial do Município de Uberlândia o Dia Municipal do Projeto “Quebrando o Silêncio”, promovido pela Igreja Adventista do Sétimo Dia e dá outras providências. O projeto, que apresenta emendas, deve ser aprovado por votação simbólica. Maioria simples.

De acordo com o projeto de lei, a data deverá ser comemorada, anualmente, no quarto sábado do mês de agosto.

“O Projeto “Quebrando o Silêncio” é uma iniciativa de reconhecida relevância social, desenvolvida em âmbito nacional e internacional, com foco na prevenção, conscientização e enfrentamento da violência doméstica e familiar, especialmente aquela praticada contra crianças, mulheres, adolescentes e idosos, públicos historicamente mais vulneráveis a esse tipo de violação de direitos”, explica o vereador.

O projeto de lei foi aprovado, emendado, por votação simbólica.

Maioria simples.

02.Projeto de Lei Ordinária N°. 978/2026 – de autoria do vereador Neemias Miquéias (Podemos), que institui no Calendário Oficial do Município de Uberlândia o Dia Municipal da Educação Adventista a ser realizado no dia 3 de outubro. O projeto deve ser aprovado por votação simbólica. Maioria simples.

Para o vereador, o reconhecimento da data no Calendário Oficial de Eventos do Município de Uberlândia representa uma forma legítima de valorizar essa contribuição social e histórica.

“A inclusão do Dia Municipal da Educação Adventista no Calendário Oficial de Eventos do Município de Uberlândia possibilita maior visibilidade das suas ações educacionais, estimula o diálogo entre a sociedade civil e o poder público e reforça o compromisso do município com a valorização da educação como instrumento de transformação social”, acrescenta.

O projeto de lei foi aprovado por votação simbólica.

Maioria simples.

03.Projeto de Lei Ordinária N°. 1000/2026 – de autoria do vereador Neemias Miquéias (Podemos), que institui no Calendário Oficial do Município de Uberlândia o Dia do Pastor Deusiano a ser comemorado, anualmente, no dia 19 de agosto. O projeto, que apresenta emenda, deve ser aprovado por votação simbólica. Maioria simples.

Segundo a proposta, a data tem por finalidade reconhecer a relevância social, espiritual, comunitária e humanitária exercida pelos pastores da Igreja de Deus no Brasil no Município de Uberlândia, especialmente nas ações de acolhimento, orientações, assistência social e fortalecimento das famílias”, justifica.

O projeto de lei foi aprovado, emendado, por votação simbólica.

Maioria simples.

04.Projeto de Lei Ordinária N°. 1142/2026 – de autoria do vereador Sargento Ednaldo (PP), que institui o Dia Municipal do Zootecnista e dá outras providências. O projeto deve ser aprovado por votação simbólica. Maioria simples.

De acordo com o projeto, a data deverá ser comemorada, anualmente, no dia 13 de maio.

O vereador afirma que a aprovação da data representará o apoio e o reconhecimento de todos os zootecnistas que têm apresentado relevantes contribuições para o avanço social e econômico do país, através do fomento da pecuária e do desenvolvimento produtivo dos rebanhos, bem como através de alternativas de produção racional, de diferentes espécies animais, nas mais variadas condições.

O projeto de lei foi aprovado por votação simbólica.

Maioria simples.

05.Projeto de Lei Ordinária N°. 1139/2026 – de autoria do prefeito municipal, que autoriza a abertura de crédito especial no orçamento da Secretaria Municipal de Gestão Ambiental e Sustentabilidade no valor de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) e a transferência de recursos, no mesmo valor, à entidade que menciona. O projeto deve ser aprovado por votação nominal. Maioria absoluta.

De acordo com a proposição, a abertura de crédito especial é imprescindível para viabilizar a transferência desses recursos para a Associação de Catadores e Recicladores de Uberlândia (Acru), os quais visam assegurar a continuidade dos projetos desenvolvidos pela entidade e a expansão de iniciativas como o incentivo da reciclagem, da economia circular inclusiva, assim como o fortalecimento do trabalho da entidade.

“Esses recursos serão utilizados para a aquisição de mobiliário de escritório (mesas, cadeiras, entre outros), que servirá de apoio à realização dos cursos oferecidos pela instituição”, finaliza o autor do projeto de lei.

O projeto de lei foi aprovado por 23 votos favoráveis.

Três ausências.

06.Projeto de Lei Ordinária N°. 1145/2026 – de autoria do prefeito municipal, que autoriza a abertura de crédito suplementar no orçamento da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social no valor de R$ 390.000,00 (trezentos e noventa mil reais) e a transferência de recursos, no mesmo valor, às entidades que menciona. O projeto deve ser aprovado por votação nominal. Maioria absoluta.

Segundo o projeto de lei, esses recursos serão assim divididos: Comunidade CASA – Jardim Ipanema – R$ 140.000,00; Comunidade CASA – Segismundo Pereira – R$ 250.000,00.

O projeto de lei foi aprovado por 22 votos favoráveis.

Quatro ausências.

07.Projeto de Lei Ordinária N°. 1146/2026 – de autoria do prefeito municipal, que autoriza a abertura de crédito suplementar no orçamento da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social no valor de R$ 110.000,00 (cento e dez mil reais) e a transferência de recursos, no mesmo valor, à entidade que menciona. O projeto deve ser aprovado por votação nominal. Maioria absoluta.

Segundo o projeto de lei, esses recursos serão enviados para o Conselho de Entidades Comunitárias de Uberlândia – R$ 110.000,00.

O projeto de lei foi aprovado por 19 votos favoráveis.

Sete ausências.

08.Projeto de Lei Ordinária N°. 1147/2026 – de autoria do prefeito municipal, que autoriza a abertura de crédito especial no orçamento da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social no valor de R$ 750.000,00 (setecentos e cinquenta mil reais) e a transferência de recursos no mesmo valor às entidades que menciona. O projeto deve ser aprovado por votação nominal. Maioria absoluta.

De acordo com a proposta, esses recursos serão assim divididos: Associação Antônio e Marcos Cavanis – R$ 200.000,00; Ceami – Reabilitação para a Vida – R$ 250.000,00; Centro de Excelência em Reabilitação e Trabalho Orientado de Uberlândia – R$ 100.000,00; Comunidade Casa – Jardim Ipanema – R$ 100.000,00; Instituto SOS Família – Unidade Santa Luzia – R$ 100.000,00.

O projeto de lei foi aprovado por 22 votos favoráveis.

Quatro ausências.

Em tempo: a próxima reunião ordinária plenária do ano, somente presencial, a nona (penúltima) reunião plenária do quarto período da segunda sessão ordinária, deverá ser realizada amanhã, quinta-feira, dia 14 de maio, em horário regimental, com início provável às 9 horas, no Plenário Homero Santos da Câmara Municipal de Uberlândia.

” Caras de pau”

Tania Tavares – Professora – SP

Deputados do PT: Boulos e outros estão comemorando a ligação de Flávio com Vorcaro, mas são incapazes ou coniventes em não pedirem o impeachment de ministros do STF que aceitaram defender Vorcaro por milhões e outros que fizeram negócios de spa com ele e defendem o governo Lula. Nos poupem! *

Na verdadeira Democracia, votar não é tudo…

Dr. Flávio de Andrade Goulart*

Pois é amigos, este blog se destina, essencialmente a falar sobre Saúde. Mas se o assunto é Democracia, como o de hoje, é bom lembrar que isso não faz com que se escape do tema principal, sendo certo que uma coisa tenha muito a ver com a outra. Não que um regime democrático, por si só, garanta boa saúde a alguém, mas com certeza isso teria mais condições de se estender e prosperar quando viceja em ambientes de igualdade e respeito a oportunidades e direitos, sensibilidade às diferenças, mecanismos de ausculta popular bem desenvolvidos etc. Além disso, é sem dúvida valiosa a ocorrência de eleições e processos de escolha por votação em geral, embora caibam discussões sobre a ordem de preponderância de tais fatores. Na presente digressão, quero começar com uma breve memória de episódio que presenciei muitos anos atrás, (aliás, mais de uma vez) quando fui secretário municipal de saúde em Uberlândia. Era uma daquelas reuniões comunitárias para decidir alguma coisa sobre transporte urbano, com foco bem técnico e ligado a localização das paradas, vias em mão ou contramão, frequência de horários etc. As discussões corriam acaloradas, com variadas propostas, algumas delas contraditórias entre si emergindo a cada momento da plenária, que se realizava em um ambiente abafado e pouco confortável de um salão paroquial de uma Igreja Católica de periferia. Até aí, tudo bem, fazia parte do jogo. Quando a sessão estava no auge de sua tensão, um colega, também Secretário da Prefeitura, que chamara para si a condução da reunião, decretou, com toda a boa intenção que lhe era peculiar, que chegara a hora de se votar, pois afinal de contas já se acumulavam propostas diversas e divergentes, sendo preciso, assim, dar “objetividade” àquela coisa. Votar? Naquele momento da discussão? Que engano mais “ledo”! Além disso, quem poderia garantir que os termos técnicos ali discutidos de fato seriam melhor esclarecidos através de uma reunião comunitária?
Há muitas outras histórias que conduzem a semelhantes “ledices”. Mas antes de prosseguir achei melhor dar uma olhada no Houaiss a respeito desta palavra pouco usual: ledo. Estava lá como algo que revela ou sente alegria, júbilo, felicidade, contentamento, prazer. Daí deriva ledices: ditos ou atitudes galantes, marcados por trejeitos, facécias, com conotações ligas a chacota, gracejo ou pilhéria. Bem, podemos traduzir por enganos risíveis, para sermos mais generosos. A cena descrita acima se encaixa bem em algo assim, mas sejamos piedosos, tal precipitação votatória não deixaria de ser seria atitude talvez ingênua, embora certamente bem-intencionada.
Só para dar mais um exemplo, este diretamente dentro do setor saúde. Na questão da participação social, nos termos das leis que a regulamentam no Brasil, há a determinação de que ela se dará através da formação de Conselhos de Saúde, com representação paritária entre usuários e autoridades. Mais uma vez, até aí, tudo bem… A questão é a exigência de que tais representações, inclusive de usuários, sejam formalizadas através de entidades burocráticas formalizadas, o que faz, mesmo com as boas intenções de sempre, que o domínio do cenário seja apenas de pessoas filiadas a tais entidades, geralmente gente mais velha, aposentada, com maior escolaridade e disponibilidade de tempo para participar, deixando de fora os portadores de interesses por assim dizer mais diretos, como por exemplo mães de crianças autistas, colostomizados, neurodivergentes, cadeirantes e outros. Ou seja, nem sempre são as boas intenções de alguns que fazem as coisas se revestirem funcionalidade e legitimidade democráticas verdadeiras.
Nisso há mais um fator agravante: a tal da paridade coloca em cena um fator quantitativo no processo de participação, ou seja, a necessidade de que as pendências entre as ideias dos participantes sejam resolvidas pelo voto, e não por exercícios de busca de consenso. Em outras palavras, qual seria a legitimidade de uma determinada ideia ser “aprovada” por diferença de um único voto, em um público votante de duas ou mais dezenas de pessoas, como costuma acontecer nos conselhos de saúde? Mais cedo ou mais tarde a questão ressurgirá como pendência não resolvida. Mais uma prova de que democracia não se realiza apenas pelo voto, mas principalmente pela busca de consenso, pela ação comunicativa, com se verá mais adiante. Votação passa a ter sentido apenas quando tal exercício se revelar esgotado.
Tudo isso sem esquecer que Hitler, Trump, Bolsonaro (e outros mais) são frutos de processos considerados democráticos, ou seja, eleitos por meio do voto sacrossanto, ou que pelo menos cumpriram as regras de tal categoria .
Pois é, discutir Democracia e seus instrumentos não é nada fácil. Não é por acaso que todos os autoritários de plantão se considerem paladinos da mesma, conforme assistimos aqui no Brasil até há bem pouco tempo, com o risco de tal sanha ainda prosseguir em tempos vindouros.
Procurando uma interpretação mais profunda sobre tais dilemas, me dei com um artigo assinado pelo jovem cientista político Miguel do Lago (ver link), onde extraí algumas reflexões e conclusões muito interessantes, resumidas a seguir.
1. Estamos diante de uma crise mundial no campo da Política, revelada pela ascensão em diversos países de uma extrema direita e de outros movimentos que desprezam as conquistas democráticas históricas.
2. O voto é apenas um dos instrumentos do processo democrático, mas com certeza não é o único e em algumas situações não é relevante ou nem mesmo necessário.
3. As ideias liberais e emancipadoras tradicionalmente carregadas pela Esquerda em todo o mundo vêm perdendo sua força, substituídas por uma visão política mais restrita e menos generosa em termos de direitos.
4. Há novas palavras de ordem no cenário global, que os grupos de esquerda ainda não conseguiram processar ou incorporar devidamente, tais como empreendedorismo, conservadorismo, autonomização no trabalho, religiosidade, além de outras.
5. Por outro lado, determinadas pautas incorporadas pela esquerda não fazem parte do ideário coletivo, dominado por tendências de natureza mais conservadora, tais como: identitarismo, noção de gênero e suas implicações na gama de sexualidades, coisas pejorativamente denominadas como práticas woke.
6. A radicalidade na política, que no passado foi sempre associada à Esquerda do espectro agora é francamente exercida pela Direita, que tem feito uso regular e competente disso com fator diferencial a seu favor; veja-se o caso de Trump, Bolsonaro, Bukele e outros, figuras que o autor denomina de demolidores, que se antepõe aos tradicionais soberanistas (também à direita) que ainda procuram sobreviver e se adaptar às franjas do Estado-Nação em decadência, ao contrário daqueles, mais interessados na destruição do status-quo.
7. O momento em que vivemos é mais de fragmentação do que de verdadeira polaridade e talvez a expressão de Marx, tudo que é sólido desmancha no ar, tenha justificativa ainda mais expressiva agora, neste início de século 21.
8. A expressão ser conservador foi por assim dizer canibalizada pela extrema direita e assim vem fazendo com que tal grupo deixe de contribuir positivamente para uma discussão política mais abrangente.
9. Ideologia não é o único fator que pesa nas opções eleitorais, há muito mais do que isso, por exemplo, valores transacionais, que dizem respeito a interesses mais imediatos e mesquinhos que às vezes orientam a mente dos eleitores; além disso pesa certo fator meme nas escolhas eleitorais, derivada da notoriedade dos candidatos em redes sociais e outras modalidades equivalentes de desempenho, mais do que a ideologia ou propostas reais de melhoria de vida para o eleitorado (vide o case Pablo Marçal).
10. O contexto recente é de decadência e desvalorização de dois focos icônicos na política desde o século 19: o Estado-Nação e o próprio Voto, substituídos por um sem-número de sucedâneos, particularmente após os anos de Guerra Fria e, além disso, o próprio declínio e perda de substância de funções antes exercidas pelos partidos políticos.
11. Os governos também já não são os mesmos, em termos de poder e representatividade; como disse Saramago “não sei onde eles estão, sei apenas que não é onde as aparências indicam” (ou algo assim).
12. O voto deixou de ser um modo de se obter progresso e melhores condições de vida para se transformar em uma espécie de fim em si mesmo, que se esgota e se liquefaz assim que colocado na urna, representando o que Bauman já tinha denominado de mais um resultado de uma modernidade líquida.
Esclareço: as citações acima, de Marx, Bauman e Saramago vão por minha conta. Elas não fazem parte do texto original de Miguel Lago, embora eu desconfie que ele concordaria com elas.
Assim, a verdadeira pergunta que não quer se calar é se existiria, de fato, algum tipo de solução para além da grande expressão-chave da democracia vigente a partir do século 20, ou seja, representação formal em parlamentos? O autor aponta algumas possibilidades, entre elas, os orçamentos participativos (hoje praticamente abandonados no Brasil, após um período áureo em governos progressistas); a utilização de referendos e mecanismos de recall; a utilização de meios alternativos de representatividade, por exemplo, os sorteios; o uso intensivo de diversas tecnologias de informação e comunicação.
Mas acho que se pode ir além e sendo assim proponho algumas ideias sobre tal assunto, de alcance mais micro, ou seja, com foco no âmbito dos serviços de saúde ou, no máximo, nas cidades.
Mas a discussão é ampla e prossegue.
1. Inclusão de novos atores, espaços e instrumentos de participação, de modo a compor um quadro compatível com uma “nova gramática social”, ao mesmo tempo com ultrapassagem e superação do formalismo vigente.
2. Ênfase especial conferida às tecnologias da informação, que compõem um cenário de ferramentas participativas diversas, de baixo custo e ampla assimilação contemporânea.
3. Necessidade de valorização cada vez mais ampla do saber profano e da lógica do usuário face ao domínio habitual do conhecimento dos técnicos e dos especialistas.
4. Ampliação do sentido da “deliberação”, ampliando-o e revitalizando-o, em termos do alcance coletivo do processo e das possibilidades de debate e troca de argumentos, com foco na produção de decisões justas e corretas, com participação ativa e refletida dos atores sociais, mediante processos que não produzam apenas a unanimidade, mas sim a revelação da razão pública e seu atrelamento à vontade coletiva.
5. Melhor compreensão do fenômeno da participação dentro de um panorama mutante, de reduzida estabilidade e imprevisibilidade das condições de vida e de trabalho da população, com seu cortejo de precariedade, fragmentação social, volatilidade das relações, segregação urbana, além de confrontos culturais diversos.
6. Da mesma forma, apreensão, compreensão e sistematização dos diversos componentes pedagógicos e conscientizadores, bem como as possibilidades de trocas racionais e intersubjetivas de argumentos nos momentos deliberativos, característicos das boas práticas participativas, dentro de um contexto de ausculta qualificada e participação informada.
7. Enfrentamento dos dilemas da crise da representação política, ou seja, o reconhecido distanciamento entre representantes e representados, com o advento de estratégias que promovam o aprimoramento de tal representatividade, a capilaridade dos efeitos deliberativos, bem como, a maior equalização das oportunidades de participação.
8. Valorização do protagonismo social nas experiências participativas, com incorporação de boas práticas inovadoras acrescidas de ações complementares para garantia de sustentabilidade dos processos participativos.
9. Distinção de escalas micro e macro nos processos participativos, admitindo-se as diferentes lógicas inerentes a elas, com maior ênfase na escala micro territorial, na qual os atores participantes estarão engajados em repertórios diversos de controle de políticas públicas que lhe dizem respeito, embora não necessariamente orientados de forma setorial.
10. Foco no surgimento de novos instrumentos de deliberação, por exemplo: ausculta “informada” aos desejos e demandas dos cidadãos; representação por sorteio; interação construtiva; soluções inovadoras e criativas; técnicas de resolução de conflitos, além de outras.
Em suma, é preciso ampliar o sentido daquele “poder deliberativo” apenas formal que está na lei 8.142, que dita as regras da democratização da saúde no Brasil. Para tanto, cabe extrapolar a moldura normativa vigente, com a criação de novos fóruns de debates, tais como comitês, conselhos de unidades, grupos de cidadãos, estratégias de mobilização massiva, novas formas de democracia direta, utilização intensiva de tecnologia de informação, mecanismos pontuais de consulta, arregimentação de interesses de grupos específicos.
Paridade? Isso é meramente um arranjo para garantir decisões tomadas por voto, em disputas ferrenhas, não por consenso ou argumentação para convencimento amplo e duradouro. Assim, defendo a busca de arranjos participativos diversificados que ponham em destaque a magnitude e a variedade de múltiplos atores e um conjunto de problemas inéditos nos registros originais da participação social, tais como a pauta relativamente restrita das demandas por mais inclusão e autodeterminação.
O caso de Uberlândia, citado no preâmbulo, é bem um indicativo do que não deve ser feito, ou seja: (1) afoiteza e a precipitação em buscar resultados sociais através de voto e não de consensos construídos e negociados; (2) trazer à esfera participativa decisões que são de fundo técnico, requerendo, naturalmente conhecimento específicos e especializado para sua compreensão.
Fiquem tranquilos. Não estou propondo cancelar a participação social que a Constituição assegura na Saúde. Mais do que isso, defendo seu aperfeiçoamento, através de modalidades de participação informada, qualificada e cidadã, ao invés desse “controle social” pretensioso, ilusório e burocrático.
***
Pós-escrito: este assunto me obriga a mencionar o filósofo alemão Jurgen Habermas, falecido há poucos dias, por sinal. Ele postulava que a política na democracia não é apenas a disputa de instrumentos tecnológicos, potencializada por fundos eleitorais, esgrimas parlamentares, emendas financeiras ou coisas assim. Ao contrário, existiria algo mais, um ingrediente que ele denominou de ação comunicativa.
Nas palavras do jornalista Luiz Carlos Azedo, do Correio Braziliense:
<<Ninguém leva os eleitores às urnas puxados pelos narizes. O que decide é a interpretação dos fatos. Nesse aspecto, eles mostram que a esfera pública brasileira está se degenerando. A economia oferece sinais que, em tese, favoreceriam a reeleição de Lula: a taxa de desocupação ficou em 5,4% no trimestre encerrado em janeiro, o menor nível da série comparável iniciada em 2012; o IPCA mensal de fevereiro foi de 0,70%; e o PIB acumulado em quatro trimestres está em 2,3%. Mas, na experiência concreta das famílias, o custo de vida continua a falar mais alto do que as estatísticas. A linguagem técnica do governo não consegue se converter em convicção social. Ou seja, falta ação comunicativa.

Flávio de Andrade Goulart é médico, professor de Medicina na UFU e na UNB, secretário de Saúde em Uberlândia e sobrinho do poeta Carlos Drummond de Andrade

A festa da democracia

Marília Alves Cunha – Educadora e escritora

“Quem não quer ser criticado, quem não quer ser satirizado, fique em casa. Não seja candidato, não se ofereça para exercer cargos políticos, esta é uma regra que existe desde que o mundo é mundo. Querer evitar isto, por meio de uma ilegítima intervenção estatal na liberdade de expressão, é absolutamente inconstitucional.”
(Alexandre de Moraes- ano de 2018)

Estas palavras sábias do Ministro Alexandre de Moraes ficaram na história. Em um tempo que nada parecia indicar a vitória, em 2018, do presidente Bolsonaro, tudo parecia tranquilo, a vitória seria de Lula e de um projeto de poder.

No entanto, a coisa mudou de figura. Jair Messias Bolsonaro foi eleito para presidir o Brasil, apesar de facada, traições, imensas dificuldades durante a campanha eleitoral. O povo escutou alguma novidade, que falava em pátria, família, liberdade, coisas assim que já estavam esquecidas no nosso vocabulário. O povo estava cansado de ver em torno de si, apenas rastros de corrupção e desmandos dos governos petistas, cansado de ver o Brasil afundar-se cada dia mais na improvisação, na falta de planejamento, em pagamento de altos impostos que de nada serviam para beneficiar a população. Bolsonaro era presidente, quatro anos e depois mais quatro, com certeza fazendo um sucessor, pelo sucesso da governança.

Foi então que, por decisão do Presidente do STF, ministro Dias Toffoli, criou-se o inquérito das Fake News. O objetivo nada tinha de claro e conciso, eram bastante difuso. Visava apurar ofensas consideradas criminosas à Corte e seus integrantes. O ministro Alexandre de Moraes foi nomeado relator, de ofício e, através de uma portaria, instaurado o inquérito. Para esta abertura não houve detalhamento de nenhum fato específico e nem tampouco da nomeação do relator, contrariando regimento interno do STF. À época a sra. Raquel Dodge Procuradora Geral da república, manifestou-se contrariamente, pedindo suspensão do inquérito. Entendia que a investigação violava o sistema acusatório e princípios de isenção, pois o próprio Tribunal investigava, acusava e condenava. O STF ignorou o pedido e manteve as investigações ativa até os dias atuais. Um dos primeiros a entrar no inquérito foi Luciano Hang, um empresário que tem dado enorme contribuição ao Brasil por seu empreendedorismo, sua capacidade de trabalho e seu amor pelo país. Antes que ele se tornasse um candidato potencialmente perigoso, sem ser político, trataram de torná-lo inelegível, por coisa nenhuma. Apenas por ser apoiador de Bolsonaro e usar inteligentemente sua liberdade de expressão. Assim como ele, muitos foram incluídos e passaram a fazer parte de um inquérito, cognominado por um ministro aposentado de Inquérito do Fim do Mundo.

Esta anomalia, com a duração de 7 anos, parece importante para o STF e pessoal da esquerda. Não há nenhuma pressa em arquivá-lo. Muito interessante ter à disposição um inquérito facilitador para ser usado a qualquer dia e hora, sem maiores burocracias ou ordenamento legal. Tudo para proteger o estado democrático de direito, tudo para que reine no país a soberana democracia, mesmo que ela ganhe alguns apelidos.

O ministro Gilmar Mendes declarou que o inquérito deve ficar aberto até as eleições de 2026. E já serviu-se dela para pedir a prisão de Romeu Zema, que teve a audácia de criticar, numa sátira bem feita, os ministros da Suprema Corte que, como qualquer mortal comum estão sujeitos a erros e pecados. Na mira também do STF o candidato a presidente Flávio Bolsonaro, por um post nas redes sociais. Você pode ler o post indefinidamente que, com certeza, não encontrará nada de criminoso. Lula não é amigo e defensor de Maduro? Será um crime falar a verdade? Muito visado, também, o senador Alessandro Vieira que pediu, como relator da CPI do Crime Organizado, o indiciamento de três ministros do STF. E, pior ainda, estão retirando os disfarces. O STF abriu licitação par contratar empresa especializada em monitorar e analisar, em tempo real, quaisquer menções à Corte e seus ministros nas redes sociais, com alertas imediatos sobre temas de potencial repercussão. Santo Deus!

A democracia é uma coisa maravilhosa, apesar de ser muito difícil de ser administrada. Mas nela é necessário que prevaleçam as noções corretas de autoridade, liberdade, justiça, ordem. A democracia tem que ser de verdade, caso contrário fica extremamente difícil pisar num terreno que, apesar da aparência plana e sem sombras, está cheio de armadilhas e pedregulhos. Vamos fazer em 2026 a festa da democracia. Nós merecemos!

Marília Alves Cunha