por uberlandiahoje | maio 15, 2026 | Ponto de Vista |
Ana Maria Coelho CarvalhO – Bióloga
Minha mãezinha querida, que Deus a tenha, tinha o hábito de, já velhinha, sentar-se em sua cadeira de balanço e ficar pensando na vida. Em tudo o que já havia vivenciado ao longo de tantos anos. Em suas dores e em seus amores. Depois, começava a dar beliscões nos braços para sentir se ainda estava viva e se era ela mesma quem tinha passado por tudo aquilo…
Lembrando desse episódio, resolvi folhear os diários amarelados pelo tempo, que escrevi durante 23 anos, de 1982 a 2005. Comecei escrevendo diariamente. Depois, um resumo a cada mês e nos anos finais, um registro dos acontecimentos mais marcantes. Há fatos interessantíssimos.
O título dessa crônica poderia ser “Diários de uma esposa”, enfocando o relacionamento com o Zé, meu finado marido. Existem anotações assim: “É impossível conversar com o Zé, ele só quer saber de futebol. Neste final de semana, foi a cinco jogos e assistiu mais três na TV”(11/04/1982).
Poderia também se chamar “Memórias de uma professora de Biologia”: “ Hoje tive que ministrar três aulas teóricas porque não consegui as sanguessugas para as aulas práticas (23/04/1982)”. Jesus, lembrei-me de que colocava iscas em tanques de peixe para coletar esses anelídeos…
Ou poderia ser: “As confusões de uma família”, como no dia 26/03/1982, quando anotei : “Fui assistir ao show do Ivan Lins com a Karine e o Vinícius. A Karine “puxou o ronco” na hora do show. O Luiz Cláudio ficou sozinho tomando conta da casa, trancou tudo e dormiu. O Zé chegou, tocou a campainha, gritou, esmurrou a porta e ele não acordou. Teve que arrombar a janela do nosso quarto”.
Optei por abordar os causos dos filhos, acontecia de tudo. Por exemplo, nesse mesmo diário de 1982, eu com 33 anos; o Vinícius com 11; o Luiz Cláudio com 10; a Karine com 9; a Thaís com 7; e o Paulo Márcio com 5.
Logo no início do ano, o drama da Karine. Ela estudava na escola Pollyana e eu a transferi para a E.E. Enéas Guimarães. Já acordava chorando para não ir à aula; daí a Thaís dizia que também não iria. Eu empurrava as duas para o carro; chegavam na escola e não desciam; eu voltava e as colocava de castigo. No dia 25/02/82, escrevi, entre outros assuntos: “Fui com a Karine para a escola e fiquei duas horas sentada na escada para ver se ela se acostumava na sala; não queria me deixar ir embora”.
Em março, várias anotações sobre o Paulo Márcio, que também não queria ir para a escola porque tinha medo de que eu o esquecesse por lá (um dia esqueci mesmo). No dia 10/03: “À noite, a luta para os cinco fazerem os deveres de casa, o Vinícius chorando porque perdeu o estojo e a Thaís emburrada”.
Nesse mesmo mês, eu na UFU dando aulas, telefonam da escola dizendo que a Thaís estava com catapora. Escrevi, no dia 16: “Já acordei cansada. Deitei tarde e não dormi direito; a Thaís chorou. Ela dormiu na minha cama e eu, no colchão no chão” .
Depois, no dia 17, anotei: “A Thaís está tristinha e apaixonada com a catapora. Disse que está achando bom só porque o Paulo Márcio não está batendo nela, pois ele tem medo de pegar catapora. Mas daí ele disse que vai dar um soco bem rápido nela”.
Acabou que ele pegou catapora mesmo e também a Janaína, a amiguinha da Thaís. E, no dia 18/04, o Paulo Márcio armou uma armadilha para derrubar a Thaís quando ela fosse apertar a campainha.
Lendo apenas quatro meses desse ano, é possível entender minha correria em dar e preparar aulas, levar as crianças para todo lado, socorrer nas doenças, nas brigas e nos deveres, ser dona de casa, participar de vários projetos universitários. Algumas frases anotadas: “Hoje o Luiz Cláudio perguntou por que não fico sendo apenas dona de casa’; “Fiquei em casa de manhã, o Paulo Márcio fica todo feliz, aproveita e não sai de perto de mim. E daí vem aquela dor de consciência de ficar tanto tempo longe dos filhos, mas fazer o quê…”
Bem, li apenas um pouco do primeiro diário- cansei só de ler. “Pulei” vários anos e fui folhear o começo de 1999, quando o meu sexto filho, João Lucas, estava com quase cinco anos.
Encontrei a descrição deste fato: “Aconteceu uma reunião na escolinha onde o João Lucas estuda, e as mães reclamaram que os filhos estavam aprendendo palavrões na escola. Concordei com isso, pois lá em casa ninguém falava palavrões e o João Lucas começou a falar. Por exemplo, o Zé outro dia estava assistindo ao programa da Tiazinha na TV, ela com um chicotinho e um collant preto com ligas. O João Lucas entrou na sala, olhou e disse: – Pai, olha a perereca dela! E o Zé, bravo: -Olha o quê? E o João Lucas: -Ah, não, olha o cu dela! Piorou…”
E muitas outras anotações interessantes e engraçadas sobre ele, como quando estava concentrado ouvindo, na TV, uma moça informando as condições meteorológicas- chove aqui, faz sol ali etc- e ele, indignado: -Por que esta moça sabe tudo e eu não sei?
Ou então as perguntas difíceis que ele fazia, nessa idade:- O Deus sonha? Índio escova dente? Porque ladrão não trabalha? Mãe, o que é canela? E depois que expliquei direitinho sobre a canela (casca de árvore), ele perguntou: – Então, o que é “bati a canela”?
Enfim, nos diários dos últimos anos, há anotações sobre os filhos adolescentes, depois universitários, casados… Os primeiros namoros, as festas, as alegrias e dificuldades na universidade, as viagens, os casamentos… Daria uma enciclopédia, com muitos volumes.
Concluindo, fiquei impressionada com tantas coisas que já vivenciei e de que nem lembrava mais. Agora, vou sentar na cadeira de balanço que herdei da minha mãezinha querida e também vou me beliscar e perguntar –Santo Deus, será que fui eu mesma quem passou por tudo isso?
por uberlandiahoje | maio 15, 2026 | Ponto de Vista |
Tania Tavares – Professsora – SP
Quando a Beca desconhece um espaço público, portanto mantido com os impostos do povo paulista, e passa a quebrar este mesmo espaço num vandalismo barato e inconsequente, em vez de dialogar até com o governo estadual e chegar a uma solução. Não, dão um prejuízo a todos nós paulistas além de não desocupar o local invadido quando solicitado prejudicando quem lá estuda.
por uberlandiahoje | maio 15, 2026 | Ponto de Vista |
Paulo Henrique Coimbra de Oliveira – Economista – RJ
Digo sem medo de errar que o instituto da reeleição é a raiz de todos os males do Brasil. Mal eleitos todos, sem exceção , só pensam em se eternizar. Trabalham no primeiro mandato pensando no segundo. Aí dirão. Mas tem gente boa. Ser bom é obrigação, não é opção. Aposto que no dia que acabarem este instituto, todos trabalharão do primeiro ao último dia para terem seus nomes gravados. Fora isto, acabar com todos seus privilégios. Desta forma só aparecerão pessoas pensando no bem do país.
por uberlandiahoje | maio 14, 2026 | Ponto de Vista |
Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.
Existem brasileiros que são apaixonados pelos EUA, em especial os moradores da cidade de Governador Valadares – MG. Que fascínio é esse por um país onde seu povo despreza o restante do mundo? Onde seus habitantes não possuem saúde pública e a habitação custa tanto que poucos a conseguem obter?
Um país com dois partidos – Democratas e Republicanos. O primeiro de direita e o segundo de extrema direita. Ao longo de décadas venderam a falsa imagem de que o país seria a terra das oportunidades, liberdade, onde as diferenças seriam respeitadas. Mera propaganda que o atual governo Trump fez questão de desmentir ao expulsar das terras Ianques os latino americanos com uso da força extrema e violenta.
Ao longo dos tempos, desde há segunda guerra mundial (1941-1945) os americanos já bombardearam diversos países, em sua maioria para roubar o petróleo existente ou para tirar do poder quem não interessava a eles comercialmente ou politicamente.
Em 1945 foram os únicos até os dias atuais a jogarem duas bombas atômicas num país, destruindo Hiroshima e Nagasaki no Japão. Depois desse ato insano e sem precedentes, os americanos tomaram gosto invadir e usar de seus armamentos bélicos trinta e sete vezes contra diversos países. Em sua grande maioria com o único objetivo de se tornar dono das reservas de petróleo existentes.
É por demais conhecida as ingerências da CIA – Agencia de Inteligência Americana em diversos países, usando e apoiando em algumas situações grupos terroristas para poder derrubar governos que não interessam aos EUA.
Foi assim no Irã, Iraque, Líbia, Síria e tantos outros. É pratica nociva fomentar grupos oposicionistas, dando-lhes armas e recursos, para depois, estes se voltarem contra os americanos, como aconteceu com Bin Laden, para ficar num exemplo recente.
Essa ingerência constante e absurda dos americanos os fazem ser odiados em boa parte do planeta. Colocam países sob embargo comercial, como nos casos de Cuba (60 anos) e do próprio Irã, que agora resolveram atacar sem que houvesse um único motivo justificável.
Com a presença do mentiroso, egocêntrico e bufão Donald Trump no poder, as coisas tomaram um rumo perigoso para os EUA e o mundo, visto que, seu governo é baseado em fake news, em ataques ao petróleo e as riquezas dos países escolhidos a dedo pelo obtuso presidente americano. Essa atual gestão não tem legado, não tem economia em desenvolvimento, geração de empregos ou soluções para problemas de infraestrutura americana, em paralelo Trump invade a Venezuela, faz guerra com Irã, quer tomar terras da Groenlândia e flerta com terras raras da América do Sul.
por uberlandiahoje | maio 13, 2026 | Ponto de Vista |
Dr. Flávio de Andrade Goulart*
Pois é amigos, este blog se destina, essencialmente a falar sobre Saúde. Mas se o assunto é Democracia, como o de hoje, é bom lembrar que isso não faz com que se escape do tema principal, sendo certo que uma coisa tenha muito a ver com a outra. Não que um regime democrático, por si só, garanta boa saúde a alguém, mas com certeza isso teria mais condições de se estender e prosperar quando viceja em ambientes de igualdade e respeito a oportunidades e direitos, sensibilidade às diferenças, mecanismos de ausculta popular bem desenvolvidos etc. Além disso, é sem dúvida valiosa a ocorrência de eleições e processos de escolha por votação em geral, embora caibam discussões sobre a ordem de preponderância de tais fatores. Na presente digressão, quero começar com uma breve memória de episódio que presenciei muitos anos atrás, (aliás, mais de uma vez) quando fui secretário municipal de saúde em Uberlândia. Era uma daquelas reuniões comunitárias para decidir alguma coisa sobre transporte urbano, com foco bem técnico e ligado a localização das paradas, vias em mão ou contramão, frequência de horários etc. As discussões corriam acaloradas, com variadas propostas, algumas delas contraditórias entre si emergindo a cada momento da plenária, que se realizava em um ambiente abafado e pouco confortável de um salão paroquial de uma Igreja Católica de periferia. Até aí, tudo bem, fazia parte do jogo. Quando a sessão estava no auge de sua tensão, um colega, também Secretário da Prefeitura, que chamara para si a condução da reunião, decretou, com toda a boa intenção que lhe era peculiar, que chegara a hora de se votar, pois afinal de contas já se acumulavam propostas diversas e divergentes, sendo preciso, assim, dar “objetividade” àquela coisa. Votar? Naquele momento da discussão? Que engano mais “ledo”! Além disso, quem poderia garantir que os termos técnicos ali discutidos de fato seriam melhor esclarecidos através de uma reunião comunitária?
Há muitas outras histórias que conduzem a semelhantes “ledices”. Mas antes de prosseguir achei melhor dar uma olhada no Houaiss a respeito desta palavra pouco usual: ledo. Estava lá como algo que revela ou sente alegria, júbilo, felicidade, contentamento, prazer. Daí deriva ledices: ditos ou atitudes galantes, marcados por trejeitos, facécias, com conotações ligas a chacota, gracejo ou pilhéria. Bem, podemos traduzir por enganos risíveis, para sermos mais generosos. A cena descrita acima se encaixa bem em algo assim, mas sejamos piedosos, tal precipitação votatória não deixaria de ser seria atitude talvez ingênua, embora certamente bem-intencionada.
Só para dar mais um exemplo, este diretamente dentro do setor saúde. Na questão da participação social, nos termos das leis que a regulamentam no Brasil, há a determinação de que ela se dará através da formação de Conselhos de Saúde, com representação paritária entre usuários e autoridades. Mais uma vez, até aí, tudo bem… A questão é a exigência de que tais representações, inclusive de usuários, sejam formalizadas através de entidades burocráticas formalizadas, o que faz, mesmo com as boas intenções de sempre, que o domínio do cenário seja apenas de pessoas filiadas a tais entidades, geralmente gente mais velha, aposentada, com maior escolaridade e disponibilidade de tempo para participar, deixando de fora os portadores de interesses por assim dizer mais diretos, como por exemplo mães de crianças autistas, colostomizados, neurodivergentes, cadeirantes e outros. Ou seja, nem sempre são as boas intenções de alguns que fazem as coisas se revestirem funcionalidade e legitimidade democráticas verdadeiras.
Nisso há mais um fator agravante: a tal da paridade coloca em cena um fator quantitativo no processo de participação, ou seja, a necessidade de que as pendências entre as ideias dos participantes sejam resolvidas pelo voto, e não por exercícios de busca de consenso. Em outras palavras, qual seria a legitimidade de uma determinada ideia ser “aprovada” por diferença de um único voto, em um público votante de duas ou mais dezenas de pessoas, como costuma acontecer nos conselhos de saúde? Mais cedo ou mais tarde a questão ressurgirá como pendência não resolvida. Mais uma prova de que democracia não se realiza apenas pelo voto, mas principalmente pela busca de consenso, pela ação comunicativa, com se verá mais adiante. Votação passa a ter sentido apenas quando tal exercício se revelar esgotado.
Tudo isso sem esquecer que Hitler, Trump, Bolsonaro (e outros mais) são frutos de processos considerados democráticos, ou seja, eleitos por meio do voto sacrossanto, ou que pelo menos cumpriram as regras de tal categoria .
Pois é, discutir Democracia e seus instrumentos não é nada fácil. Não é por acaso que todos os autoritários de plantão se considerem paladinos da mesma, conforme assistimos aqui no Brasil até há bem pouco tempo, com o risco de tal sanha ainda prosseguir em tempos vindouros.
Procurando uma interpretação mais profunda sobre tais dilemas, me dei com um artigo assinado pelo jovem cientista político Miguel do Lago (ver link), onde extraí algumas reflexões e conclusões muito interessantes, resumidas a seguir.
1. Estamos diante de uma crise mundial no campo da Política, revelada pela ascensão em diversos países de uma extrema direita e de outros movimentos que desprezam as conquistas democráticas históricas.
2. O voto é apenas um dos instrumentos do processo democrático, mas com certeza não é o único e em algumas situações não é relevante ou nem mesmo necessário.
3. As ideias liberais e emancipadoras tradicionalmente carregadas pela Esquerda em todo o mundo vêm perdendo sua força, substituídas por uma visão política mais restrita e menos generosa em termos de direitos.
4. Há novas palavras de ordem no cenário global, que os grupos de esquerda ainda não conseguiram processar ou incorporar devidamente, tais como empreendedorismo, conservadorismo, autonomização no trabalho, religiosidade, além de outras.
5. Por outro lado, determinadas pautas incorporadas pela esquerda não fazem parte do ideário coletivo, dominado por tendências de natureza mais conservadora, tais como: identitarismo, noção de gênero e suas implicações na gama de sexualidades, coisas pejorativamente denominadas como práticas woke.
6. A radicalidade na política, que no passado foi sempre associada à Esquerda do espectro agora é francamente exercida pela Direita, que tem feito uso regular e competente disso com fator diferencial a seu favor; veja-se o caso de Trump, Bolsonaro, Bukele e outros, figuras que o autor denomina de demolidores, que se antepõe aos tradicionais soberanistas (também à direita) que ainda procuram sobreviver e se adaptar às franjas do Estado-Nação em decadência, ao contrário daqueles, mais interessados na destruição do status-quo.
7. O momento em que vivemos é mais de fragmentação do que de verdadeira polaridade e talvez a expressão de Marx, tudo que é sólido desmancha no ar, tenha justificativa ainda mais expressiva agora, neste início de século 21.
8. A expressão ser conservador foi por assim dizer canibalizada pela extrema direita e assim vem fazendo com que tal grupo deixe de contribuir positivamente para uma discussão política mais abrangente.
9. Ideologia não é o único fator que pesa nas opções eleitorais, há muito mais do que isso, por exemplo, valores transacionais, que dizem respeito a interesses mais imediatos e mesquinhos que às vezes orientam a mente dos eleitores; além disso pesa certo fator meme nas escolhas eleitorais, derivada da notoriedade dos candidatos em redes sociais e outras modalidades equivalentes de desempenho, mais do que a ideologia ou propostas reais de melhoria de vida para o eleitorado (vide o case Pablo Marçal).
10. O contexto recente é de decadência e desvalorização de dois focos icônicos na política desde o século 19: o Estado-Nação e o próprio Voto, substituídos por um sem-número de sucedâneos, particularmente após os anos de Guerra Fria e, além disso, o próprio declínio e perda de substância de funções antes exercidas pelos partidos políticos.
11. Os governos também já não são os mesmos, em termos de poder e representatividade; como disse Saramago “não sei onde eles estão, sei apenas que não é onde as aparências indicam” (ou algo assim).
12. O voto deixou de ser um modo de se obter progresso e melhores condições de vida para se transformar em uma espécie de fim em si mesmo, que se esgota e se liquefaz assim que colocado na urna, representando o que Bauman já tinha denominado de mais um resultado de uma modernidade líquida.
Esclareço: as citações acima, de Marx, Bauman e Saramago vão por minha conta. Elas não fazem parte do texto original de Miguel Lago, embora eu desconfie que ele concordaria com elas.
Assim, a verdadeira pergunta que não quer se calar é se existiria, de fato, algum tipo de solução para além da grande expressão-chave da democracia vigente a partir do século 20, ou seja, representação formal em parlamentos? O autor aponta algumas possibilidades, entre elas, os orçamentos participativos (hoje praticamente abandonados no Brasil, após um período áureo em governos progressistas); a utilização de referendos e mecanismos de recall; a utilização de meios alternativos de representatividade, por exemplo, os sorteios; o uso intensivo de diversas tecnologias de informação e comunicação.
Mas acho que se pode ir além e sendo assim proponho algumas ideias sobre tal assunto, de alcance mais micro, ou seja, com foco no âmbito dos serviços de saúde ou, no máximo, nas cidades.
Mas a discussão é ampla e prossegue.
1. Inclusão de novos atores, espaços e instrumentos de participação, de modo a compor um quadro compatível com uma “nova gramática social”, ao mesmo tempo com ultrapassagem e superação do formalismo vigente.
2. Ênfase especial conferida às tecnologias da informação, que compõem um cenário de ferramentas participativas diversas, de baixo custo e ampla assimilação contemporânea.
3. Necessidade de valorização cada vez mais ampla do saber profano e da lógica do usuário face ao domínio habitual do conhecimento dos técnicos e dos especialistas.
4. Ampliação do sentido da “deliberação”, ampliando-o e revitalizando-o, em termos do alcance coletivo do processo e das possibilidades de debate e troca de argumentos, com foco na produção de decisões justas e corretas, com participação ativa e refletida dos atores sociais, mediante processos que não produzam apenas a unanimidade, mas sim a revelação da razão pública e seu atrelamento à vontade coletiva.
5. Melhor compreensão do fenômeno da participação dentro de um panorama mutante, de reduzida estabilidade e imprevisibilidade das condições de vida e de trabalho da população, com seu cortejo de precariedade, fragmentação social, volatilidade das relações, segregação urbana, além de confrontos culturais diversos.
6. Da mesma forma, apreensão, compreensão e sistematização dos diversos componentes pedagógicos e conscientizadores, bem como as possibilidades de trocas racionais e intersubjetivas de argumentos nos momentos deliberativos, característicos das boas práticas participativas, dentro de um contexto de ausculta qualificada e participação informada.
7. Enfrentamento dos dilemas da crise da representação política, ou seja, o reconhecido distanciamento entre representantes e representados, com o advento de estratégias que promovam o aprimoramento de tal representatividade, a capilaridade dos efeitos deliberativos, bem como, a maior equalização das oportunidades de participação.
8. Valorização do protagonismo social nas experiências participativas, com incorporação de boas práticas inovadoras acrescidas de ações complementares para garantia de sustentabilidade dos processos participativos.
9. Distinção de escalas micro e macro nos processos participativos, admitindo-se as diferentes lógicas inerentes a elas, com maior ênfase na escala micro territorial, na qual os atores participantes estarão engajados em repertórios diversos de controle de políticas públicas que lhe dizem respeito, embora não necessariamente orientados de forma setorial.
10. Foco no surgimento de novos instrumentos de deliberação, por exemplo: ausculta “informada” aos desejos e demandas dos cidadãos; representação por sorteio; interação construtiva; soluções inovadoras e criativas; técnicas de resolução de conflitos, além de outras.
Em suma, é preciso ampliar o sentido daquele “poder deliberativo” apenas formal que está na lei 8.142, que dita as regras da democratização da saúde no Brasil. Para tanto, cabe extrapolar a moldura normativa vigente, com a criação de novos fóruns de debates, tais como comitês, conselhos de unidades, grupos de cidadãos, estratégias de mobilização massiva, novas formas de democracia direta, utilização intensiva de tecnologia de informação, mecanismos pontuais de consulta, arregimentação de interesses de grupos específicos.
Paridade? Isso é meramente um arranjo para garantir decisões tomadas por voto, em disputas ferrenhas, não por consenso ou argumentação para convencimento amplo e duradouro. Assim, defendo a busca de arranjos participativos diversificados que ponham em destaque a magnitude e a variedade de múltiplos atores e um conjunto de problemas inéditos nos registros originais da participação social, tais como a pauta relativamente restrita das demandas por mais inclusão e autodeterminação.
O caso de Uberlândia, citado no preâmbulo, é bem um indicativo do que não deve ser feito, ou seja: (1) afoiteza e a precipitação em buscar resultados sociais através de voto e não de consensos construídos e negociados; (2) trazer à esfera participativa decisões que são de fundo técnico, requerendo, naturalmente conhecimento específicos e especializado para sua compreensão.
Fiquem tranquilos. Não estou propondo cancelar a participação social que a Constituição assegura na Saúde. Mais do que isso, defendo seu aperfeiçoamento, através de modalidades de participação informada, qualificada e cidadã, ao invés desse “controle social” pretensioso, ilusório e burocrático.
***
Pós-escrito: este assunto me obriga a mencionar o filósofo alemão Jurgen Habermas, falecido há poucos dias, por sinal. Ele postulava que a política na democracia não é apenas a disputa de instrumentos tecnológicos, potencializada por fundos eleitorais, esgrimas parlamentares, emendas financeiras ou coisas assim. Ao contrário, existiria algo mais, um ingrediente que ele denominou de ação comunicativa.
Nas palavras do jornalista Luiz Carlos Azedo, do Correio Braziliense:
<<Ninguém leva os eleitores às urnas puxados pelos narizes. O que decide é a interpretação dos fatos. Nesse aspecto, eles mostram que a esfera pública brasileira está se degenerando. A economia oferece sinais que, em tese, favoreceriam a reeleição de Lula: a taxa de desocupação ficou em 5,4% no trimestre encerrado em janeiro, o menor nível da série comparável iniciada em 2012; o IPCA mensal de fevereiro foi de 0,70%; e o PIB acumulado em quatro trimestres está em 2,3%. Mas, na experiência concreta das famílias, o custo de vida continua a falar mais alto do que as estatísticas. A linguagem técnica do governo não consegue se converter em convicção social. Ou seja, falta ação comunicativa.
Flávio de Andrade Goulart é médico, professor de Medicina na UFU e na UNB, secretário de Saúde em Uberlândia e sobrinho do poeta Carlos Drummond de Andrade
por uberlandiahoje | maio 12, 2026 | Ponto de Vista |
Marília Alves Cunha – Educadora e escritora
“Quem não quer ser criticado, quem não quer ser satirizado, fique em casa. Não seja candidato, não se ofereça para exercer cargos políticos, esta é uma regra que existe desde que o mundo é mundo. Querer evitar isto, por meio de uma ilegítima intervenção estatal na liberdade de expressão, é absolutamente inconstitucional.”
(Alexandre de Moraes- ano de 2018)
Estas palavras sábias do Ministro Alexandre de Moraes ficaram na história. Em um tempo que nada parecia indicar a vitória, em 2018, do presidente Bolsonaro, tudo parecia tranquilo, a vitória seria de Lula e de um projeto de poder.
No entanto, a coisa mudou de figura. Jair Messias Bolsonaro foi eleito para presidir o Brasil, apesar de facada, traições, imensas dificuldades durante a campanha eleitoral. O povo escutou alguma novidade, que falava em pátria, família, liberdade, coisas assim que já estavam esquecidas no nosso vocabulário. O povo estava cansado de ver em torno de si, apenas rastros de corrupção e desmandos dos governos petistas, cansado de ver o Brasil afundar-se cada dia mais na improvisação, na falta de planejamento, em pagamento de altos impostos que de nada serviam para beneficiar a população. Bolsonaro era presidente, quatro anos e depois mais quatro, com certeza fazendo um sucessor, pelo sucesso da governança.
Foi então que, por decisão do Presidente do STF, ministro Dias Toffoli, criou-se o inquérito das Fake News. O objetivo nada tinha de claro e conciso, eram bastante difuso. Visava apurar ofensas consideradas criminosas à Corte e seus integrantes. O ministro Alexandre de Moraes foi nomeado relator, de ofício e, através de uma portaria, instaurado o inquérito. Para esta abertura não houve detalhamento de nenhum fato específico e nem tampouco da nomeação do relator, contrariando regimento interno do STF. À época a sra. Raquel Dodge Procuradora Geral da república, manifestou-se contrariamente, pedindo suspensão do inquérito. Entendia que a investigação violava o sistema acusatório e princípios de isenção, pois o próprio Tribunal investigava, acusava e condenava. O STF ignorou o pedido e manteve as investigações ativa até os dias atuais. Um dos primeiros a entrar no inquérito foi Luciano Hang, um empresário que tem dado enorme contribuição ao Brasil por seu empreendedorismo, sua capacidade de trabalho e seu amor pelo país. Antes que ele se tornasse um candidato potencialmente perigoso, sem ser político, trataram de torná-lo inelegível, por coisa nenhuma. Apenas por ser apoiador de Bolsonaro e usar inteligentemente sua liberdade de expressão. Assim como ele, muitos foram incluídos e passaram a fazer parte de um inquérito, cognominado por um ministro aposentado de Inquérito do Fim do Mundo.
Esta anomalia, com a duração de 7 anos, parece importante para o STF e pessoal da esquerda. Não há nenhuma pressa em arquivá-lo. Muito interessante ter à disposição um inquérito facilitador para ser usado a qualquer dia e hora, sem maiores burocracias ou ordenamento legal. Tudo para proteger o estado democrático de direito, tudo para que reine no país a soberana democracia, mesmo que ela ganhe alguns apelidos.
O ministro Gilmar Mendes declarou que o inquérito deve ficar aberto até as eleições de 2026. E já serviu-se dela para pedir a prisão de Romeu Zema, que teve a audácia de criticar, numa sátira bem feita, os ministros da Suprema Corte que, como qualquer mortal comum estão sujeitos a erros e pecados. Na mira também do STF o candidato a presidente Flávio Bolsonaro, por um post nas redes sociais. Você pode ler o post indefinidamente que, com certeza, não encontrará nada de criminoso. Lula não é amigo e defensor de Maduro? Será um crime falar a verdade? Muito visado, também, o senador Alessandro Vieira que pediu, como relator da CPI do Crime Organizado, o indiciamento de três ministros do STF. E, pior ainda, estão retirando os disfarces. O STF abriu licitação par contratar empresa especializada em monitorar e analisar, em tempo real, quaisquer menções à Corte e seus ministros nas redes sociais, com alertas imediatos sobre temas de potencial repercussão. Santo Deus!
A democracia é uma coisa maravilhosa, apesar de ser muito difícil de ser administrada. Mas nela é necessário que prevaleçam as noções corretas de autoridade, liberdade, justiça, ordem. A democracia tem que ser de verdade, caso contrário fica extremamente difícil pisar num terreno que, apesar da aparência plana e sem sombras, está cheio de armadilhas e pedregulhos. Vamos fazer em 2026 a festa da democracia. Nós merecemos!
Marília Alves Cunha