O Senado Brasileiro sepultou Goebbels

Percival Puggina*

Neste momento, em algum gabinete parlamentar, redação de jornal ou repartição partidária, alguém está produzindo uma narrativa para explicar o inexplicável. Não sei quem é o tipo, nem sobre o que escreve. Mas o sujeito está lá, dedilhando seu computador, a construir histórias sobre fatos que, interpretados como devem, prejudicam seu partido, seu parlamentar, sua visão de mundo, sua engenharia social. A seu modo, é um discípulo de Goebbels. A atividade é bem remunerada e antiga, mas ele talvez ainda não saiba: é um homem fora de seu tempo.
Uma das nove musas gregas, de nome Clio, filha de Zeus e Mnemósine, era a fonte de inspiração da História e da criatividade. A parte que cabe aos operosos construtores de narrativas no Brasil contemporâneo é a da criatividade, somente ela. Dane-se a História! Sua tarefa é orientada para induzir ao erro, ocultar o que for inconveniente, exibir como acontecido o que não passa de suposição. Aliás, convencer sobre suposições é parte do trabalho, profundamente desonesto, portanto. Era o trabalho de Goebbels.
Também assim, em muitas salas de aula, a história do Brasil e os acontecimentos cotidianos são objetos de “narrativas” em dissimulados cursos de formação de militantes, que engrossam o caldo de cultura necessário a tal objetivo. Também assim, a imagem de Lula, a cada condenação, vai para o restauro e ganha grotesco remendos retóricos. Também assim, em vez de examinarem a indecente pretensão de eleger Renan Calheiros, criticaram a desobediência dos senadores ao “sagrado” sigilo de voto imposto pelo companheiro Toffoli. Também ele, está fora de seu tempo.
Nos últimos cinco anos, conservadores e liberais foram sendo acordados de sua letargia e passaram a clamar por mudanças, pelo desmonte desses artefatos de guerra cultural que custeiam. Descobriram que podiam recuperar seu país. E graças às redes sociais, aos modernos meios de comunicação, ninguém mais é dono da notícia e, menos ainda, de seu significado. O construtor de narrativas pode colocar na boca de um congressista a frase de que Lula foi condenado novamente para prejudicar sua indicação ao Nobel da Paz. Ele pode mandar dizer que não foram as organizações criminosas que motivaram a Lava Jato, mas a Lava Jato que criminalizou a política. Pode, mas viralizará em memes, piadas e causará gargalhadas. Goebbels vai ao suicídio.
Qualquer dúvida sobre o significado dessa nova, democrática e irreprimível interação restou esclarecida nas duas sessões preparatórias para a instalação do ano legislativo e eleição da presidência do Senado. Bem vistas as cenas, lançado esse olhar sobre o fervilhante comportamento do plenário, ficou evidente a intensa atividade on-line. Senadores filmavam e filmavam-se, falavam e ouviam. Iam às suas páginas e escreviam. E liam. E contavam likes e dislikes. Às urtigas a ordem do Toffoli! Exibiram seus votos porque a sineta da soberania popular soava sobre as mesas e nos bolsos dos casacos.
Durante décadas, os construtores de narrativas foram muito bem sucedidos. Especialmente no tempo das velhas “cartilhas”. Ou do “cartilhismo”, como dizíamos aqui no Rio Grande do Sul, onde escrevo. Com estes instrumentos, os ativistas de esquerda eram nacional e uniformemente abastecidos de construções retóricas, esfarrapadas desculpas e grotescas acusações que, reiteradas além dos limites da náusea, tinham, pela repetição, aquele indigesto e conhecido poder de convencimento estudado por Goebbels. Pois esse tempo acabou, rápido e a muito baixo custo. No Senado brasileiro, Goebbels foi sepultado de vez, com audiência nacional. Raras preces, muitas vaias.

* Percival Puggina (74), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

Peppe Júnior fala do Cine Avenida

Antônio Pereira da Silva*

“Meu pai tinha aquela vocação das pessoas ligadas à cinematografia. Selecionava com capricho os filmes, que vinham de Ribeirão Preto que fazia a distribuição dos filmes na região. Ele ia todo mês lá fazer a programação. Algumas vezes acompanhei-o. Ele cuidava muito, também, da sala de exibição. Era tempo do cinema mudo e ele mantinha uma orquestra que tocava antes do inicio da sessão, na sala de espera. Existia uma espécie de marquise em cima da sala de espera, era onde ficava a orquestra. Quando ia iniciar a sessão, a orquestra descia e ia ficar lá na boca do palco. A música foi ao vivo até 1930, quando começaram a chegar os filmes falados.”
“Lembro-me de alguns músicos, do senhor Braulino Vieira, violinista, casado com a dona Sara, pianista. Eles eram avós da atriz Suzana Vieira. Existia um flautista muito bom com nome de mulher, Nair. O grupo que tocava lá era composto, mais ou menos, por seis músicos, mas só me lembro desses três.”
“Quando chegou o cinema falado, meu pai instalou a aparelhagem necessária. Alemã. Tempos depois veio outro equipamento, melhor ainda. Americano. Os filmes sonoros tinham o som gravado em discos e não na fita. Uns discões de 78 rpm. O equipamento de som estava acoplado ao projetor com as indicações. O disco tocava do centro para a periferia. Vinham em caixas com forte proteção. Os filmes vinham em latas, pela Mogiana. Não raro aconteciam situações interessantes porque, ao projetar os filmes, às vezes, certos trechos eram danificados por várias causas. A fita era emendada e embora o pedaço perdido fosse muito pequeno, dessincronizava a imagem da fita com o som do disco. Nessas condições, ocorria, às vezes, de um homem falar e pedaço de sua fala sair com o som de voz feminina, da atriz que respondia à sua fala. Mais hilariante ainda era quando um ator de faroeste dizia qualquer e saia o relinchar do seu cavalo. Por mais tenso ou sério que fosse o filme, o público caia na gargalhada. A saída era completar o pedaço perdido com uma tira de filme sem nada. Geralmente preto. Completado o espaço perdido voltava a sincronia. Curioso é que o som vinha do disco, mas como era em inglês, a fita vinha com letreiros para o público entender a fala. Com a evolução tecnológica, as gravações passaram a ser feitas diretamente nas fitas e o problema acabou.”
“Naquele tempo era obrigatório a exibição de noticiosos que o público chamava de jornal. Os impressos de propaganda dos filmes eram feitos pela Livraria Kosmos, Tipografia Pavan e por uma tipografia do próprio cinema. Como não havia jornais diretos, o cinema imprimida um folheto com oito páginas onde inseriam também propagandas de firmas locais.”
“Uma curiosidade final, que mostra o pioneirismo da nossa gente. Um jornal americano noticiou que um cinema, Roxi, nos Estados Unidos, tinha o costume de perfumar o luxuoso salão de exibições. Era uma aspersão mecânica. Pois o Pepe já fazia isso no Cine Avenida. O salão tinha uma parte superior, que o povo chamava de “segundo andar” – ou galeria. O Peppe, antes da abertura das portas da sala, subia à galeria com uma bomba tipo “flit”, de que os antigos devem lembrar bem, e bombava, bombava até o ambiente ficar com um perfume aconchegante.”

*Jornalista e escritor

Deseje a vida e seja feliz

Gustavo Hoffay*

Foi-se o tempo em que era muito comum usar-se a palavra “fazendinha”, para designar comunidades rurais especializadas na divina tarefa de reabilitação de dependentes químicos. Principalmente depois do advento da Secretaria Nacional Antidrogas,criada pela Medida Provisória 1.669 de 1.998 e posteriormente transferida para a estrutura do Ministério da Justiça no ano de 2.011, as ditas “fazendinhas” passaram a ser reconhecidas na qualidade de “comunidades terapêuticas”, denominação esta que até aos dias de hoje continua caracterizando aqueles sítios de reparação humana e desde que oficialmente reconhecidos por órgãos governamentais, especialmente aqueles relacionados à Saúde, Desenvolvimento Social e regulados, também, pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária. E para dizer-se recuperado para uma nova vida longe das drogas, não basta à pessoa dependente de substâncias alteradoras do humor abster-se do uso das mesmas. Fortificar a personalidade e o caráter, além de imbuir-se de espiritualidade cristã são princípios decisivos para que um recuperando passe a ter atitudes de coragem, esperança e otimismo frente as tentações e tarefas presentes na vida de qualquer cidadão. Em uma comunidade terapêutica fala-se vivamente em Deus ou em um Poder Superior e cuja presença parece ainda mais sentida no silêncio daqueles lugares. Ouso até dizer que ali descobre-se melhor a Deus, pois não há ali o rebuliço das grandes cidades e que tanto interfere numa necessária concentração para um dialogo com Ele.E faz muito bem a qualquer dependente químico e sério candidato a uma nova vida, usufruir seu tempo de reabilitação em contato com a zona rural e enquanto na companhia de colegas de “caminhada”, coordenadores e voluntários diversos. E tudo o que é oferecido por um reconhecido programa de reabilitação de dependentes químicos, pode vir a ser de vital importância na vida futura de um recuperando e isso dependerá apenas dele mesmo. Ali ensina-se a viver o espírito da humildade, enquanto despertando no interno a consciência de que ele, enfermo, está envolvido pelo poder criador e misericordioso de Deus. Impressionante, também, o valor do auxilio fraterno naquelas comunidades, quanto mais se considerarmos que o melhor amparo que os internos/pacientes podem ter, depois de Deus, é o afeto, a solidariedade e a benevolência de seus amigos e parentes. Em um ambiente daquele uma palavra amiga, um sorriso sincero e a mão estendida são verdadeiras riquezas para quem caminha com seriedade e objetividade ao encontro de novos e amplos horizontes para a sua vida. Lá se vão mais de vinte anos, desde que tive a minha consciência avivada em relação a quanto há de maus instintos e fraqueza no interior daqueles que deixam-se dominar pelas drogas. E é numa Comunidade Terapêutica que o ex-usuário compulsivo descobre o quanto a sua vida era monótona e desprovida de qualquer senso de ridículo, de responsabilidade, fastidiosa, mesquinha…Ali religiosos o exortam a ter paciência e prudência e a praticá-las,enquanto guardando ânimo forte e confiante em Deus. Enfim, realmente não há motivos para que um dependente químico desejoso de reabilitar-se oponha obstáculos, para que finalmente dê início a uma caminhada pela sua recuperação. Necessário se faz, pois, que ele encha-se do desejo de realmente transformar a sua vida em uma missão de paz e amor para consigo e com os seus colegas de caminhada rumo à eterna sobriedade. Paralisar a dependência química e tornar a viver é um desafio glorioso, quanto mais quando é notório o estrago ocasionado por aquela doença e a qual difunde-se com espantosa velocidade também em nosso país, justamente por não encontrar uma devida resistência de jovens antes tão cheios de vida e quanto mais se considerarmos o surgimento novos e danosos costumes, perigosamente permissivos….., perniciosos.

Agente Social – Uberlândia-MG

Os velhos crucifixos e os novos vampiros

Percival Puggina*

Aparentemente é bem simplória a questão agora suscitada por um vereador de Porto Alegre: se o Estado é laico, os espaços públicos ou, de responsabilidade do Estado, não deveriam ser isentos de qualquer religiosidade? Pagãos como banheiros de estação? Desde essa perspectiva, crucifixo em parede de plenário, ou repartição, seria atropelo à equidade e agravo à Constituição e à Justiça. “Remova-se, então!”, reiteradamente propõem alguns. Tenha-se a coragem, porém, de assumir perante a história o registro da façanha: preserve-se o prego! Preserve-se-o para que todos conheçam o notável serviço público prestado. Preserve-se-o para registrar a anterior existência ali de um crucifixo removido por abusivo, ofensivo, intolerável às almas sensíveis que, em nome da justiça e da equidade, se mobilizaram contra ele.
Por que a retirada de crucifixos é tema polêmico? Por que vira notícia sempre que ressurge para tiquetaquear minuto de fama a alguém? Afinal, estarão enganados os cíclicos autores dessas iniciativas? O dedo acusador da Constituição não aponta para o crucifixo mandando arrancá-lo dali? No entanto, se o admitirmos, teremos que reconhecer como cegos de bengalinha ou iletradas toupeiras, os juristas, parlamentares, professores, constituintes, magistrados, ministros do STF que trabalham em locais públicos onde há crucifixos. Há que declará-los incapazes de entender o que esteve escrito em todas as nossas constituições republicanas sobre separação entre Igreja e Estado.
Os padroeiros da modernidade que esgrimam contra símbolos religiosos esquecem que desde a Constituição de 1891 os preceitos constitucionais sobre essa separação foram deliberados pelos redatores de nossas sete Cartas, majoritariamente cristãos! Ela é concepção da maioria e não é conquista de alguém. Podem sossegar o facho. O país nada deve ao iluminismo temporão.
Pergunto: de cada cem pessoas que ingressam no plenário da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, quantas ficam dispneicas, tarquicárdicas ou entram em sudorese se veem um crucifixo? Nenhuma? Pois é. E quantas – na real, sem exageros – se sentirão pessoalmente injuriadas por aquele símbolo? Pois é, de novo. Perante símbolos religiosos – quaisquer símbolos, de qualquer religião! – pessoas normais reagem com respeito ou com indiferença. Indignação, revolta, alergia escapam à normalidade. Portanto, os que investem contra crucifixos e enrolam seus argumentos na Constituição Federal são portadores de uma idiossincrasia, de uma fobia pessoal. Tal abominação é um problema que está nelas. Juro, o crucifixo é inocente! A ideia de sua retirada toma a situação pelo avesso. Considera discriminatória a presença do símbolo, quando discriminador e preconceituoso é quem posa de ofendido por ele. Ou não?
O Estado brasileiro não é ateu, é laico, mas a laicidade, no sentido em que é definida pela Constituição, recusa as pretensões do ateísmo militante. O Estado brasileiro não é inimigo da fé; ao contrário, com vistas ao interesse público, colabora com as confissões religiosas (CF, art.19,I). Prevê assistência religiosa aos que estão presos (CF Art. 5º VII). Também por essa compatibilidade de fins há capelães nas Forças Armadas. Retirar os crucifixos para acolher como saudáveis reações que afrontam a consciência civilizada não é defender o laicismo, mas curvar-se ao ateísmo militante, de pouco futuro e péssimo passado.
Os adversários dos crucifixos referem-no, mas focam, lá na frente, os princípios, os valores e as tradições que lhe são implícitos. Muitos, como os relacionados à defesa da vida, à dignidade e aos direitos humanos, às liberdades, à família, compõem convicções constitucionalizadas no Brasil e se refletem nas deliberações legislativas. É contra esse alvo que o ateísmo militante está declarando guerra e rufando tambores. Não agem por amor à Constituição, mas por repulsa ao perfume cristão que ela legitimamente ainda exala e volta a ser percebido neste novo momento da política nacional.
Curiosa ideia, essa. Em nome do laicismo estatal, num país onde mais de 90% dos cidadãos professam alguma religião cristã, ela desconhece o próprio povo, sua cultura e sua história e pretende retirar um símbolo que para esse mesmo povo representa o amor de Deus, o amor ao próximo, a Redenção e os mais elevados valores que deveriam iluminar as decisões e a justiça dos homens. E eu pensava que só vampiros tinham horror de crucifixos.

* Percival Puggina (74), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

Política de Investimento

João Batista Domingues Filho*

Precisamos de governos para corrigir as falhas de mercado e alocação de recursos públicos de maneira equânime, através das políticas públicas. Recursos são econômicos, mas as decisões são políticas: é o domínio das variáveis políticas sobre as variáveis econômicas. Variáveis relevantes da decisão pública: a ideologia do Executivo e do Legislativo, a divisão do poder no Executivo, no Legislativo e a construção do processo orçamentário e da política fiscal. No Brasil, excesso de regulação e centralização estatal faz com que as instituições políticas não estejam sob o controle da sociedade civil, facilitando a corrupção. Estado corrupto não tem recursos para investimento em políticas públicas e para induzir crescimento econômico, corrigindo falhas do mercado. Escolhas públicas não são técnicas ou gerenciais, não há neutralidade das decisões públicas, frente aos grupos de pressão dentro e fora do Estado.
Sem recursos públicos não há investimento para induzir desenvolvimento socioeconômico. A eficiência gerencial do setor público, em suas políticas orçamentárias de investimento e alocação de recursos para induzir crescimento econômico, depende dos resultados de quem fica com o quê, quando, onde e por quê. O déficit público excessivo, com política fiscal insustentável, dadas restrições orçamentárias, impõe a reforma da Previdência, sem a qual não haverá recursos para investimento. O Estado brasileiro é uma máquina pública eficiente para alimentar os insaciáveis parasitas: agentes públicos, burocratas ou políticos. É a configuração do Estado patrimonialista brasileiro.
Segundo levantamento feito pelo Instituto brasileiro de Economia da fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), que calcula o Índice de Confiança Empresarial (ICE), o indicador cresceu 7,2 pontos de novembro a janeiro em relação a outubro de 2018. Otimismo empresarial decorre da esperança de crescimento do PIB deste ano de 2,5%, como consenso do mercado. Superintendente de Estatísticas Públicas do Ibre-FGV, Aloiso Campelo pondera que “quando o vencedor fala que vai governar para o país todo e anuncia medidas que vão beneficiar à população, influenciam positivamente consumidores e empresas. Parte do otimismo tem a ver com a perspectiva de que a política econômica vai mudar bastante e que, com o novo congresso, o presidente voltaria a ter chance de passar medidas para sanar dificuldades na economia.” (Valor, 4/2/2019,A2). Otimismo sem sustentação na realidade econômica: a atividade produtiva não deu sinais de retomada mais forte no início do ano. Essa confiança dos empresários pode se frustrar, brevemente. Comportamento otimista dos ativos brasileiros na bolsa de valores e no mercado de juros, contrastando com a fraqueza da atividade econômica. A recuperação é cíclica, mas ritmo é desanimador, dados os crescimentos do mercado de trabalho e da produção industrial. Consultoria do ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore: “com o crescimento mundial em desaceleração, não como contarmos com o impulso vindo de um aumento sensível de exportações e, soma-se a isso, o efeito contracionista vindo do esforço de consolidação fiscal.” (Valor, 5/2/2019,A2). É um quadro real de recuperação lenta da atividade econômica. Mantendo-se esse crescimento econômico raquítico e anêmico, iniciar-se-á a perda de popularidade do presidente Bolsonaro.
Pantomima populista, conservadora e nacionalista da Presidência Bolsonaro, ventríloquo dessa onda que varre Europa e os EUA, é desastrosa para o Brasil em todos os sentidos, dado o tema do encontro deste ano no Fórum Econômico Mundial de Davos foi: “Globalização 4.0. Adaptando a Arquitetura Global na Era da 4* Revolução Industrial”. Mundo desenvolvido numa direção e o Brasil no sentido contrário. Isso se comprova com Índice Global de Competitividade: Brasil saiu da posição 48 em 2013 para 80 em 2018. O fluxo de Investimento estrangeiro Direto (IED) para o Brasil diminuiu em 12% (US$ 59 bilhões em 2018), globalmente em 19%. Destino do IED em seqüência: EUA, China, Reino Unido, Hong Kong, Cingapura, Espanha, Holanda, Austrália, Brasil e Índia.
E como fica elite brasileira dos 15% a 20% da mais alta renda e escolaridade? Boliva Lamounier constata: “nossa elite, além de indiferente ao destino coletivo de nosso pais, e profundamente ignorante a respeito dos retrocessos e tragédias vividos por nosso país, aninhou-se gostosamente nas dobras do Estado, deleitando-se com suas volumosas tetas.”(O Estado de S. Paulo, 27/01/2019,A2).

*Cientista político

Fraternidade e inconformismo

Cesar Vanucci *

“Morreu um pedaço de mim.”
(Derenir Aquino Rocha, 68 anos de idade, desempregada,
ribeirinha do rio Paraopeba tomado pela lama)

A dor e comoção suscitadas por impactante tragédia irmanam as pessoas. Abrem chance, às vezes, para que se desfaçam idiossincrasias e desavenças pessoais que pareciam incontornáveis. Contribuem para reduzir, ou até eliminar, tensões de origem banal acumuladas na convivência rotineira. E, também, desencadeiam ondas impetuosas de solidariedade, heroicas ações e contagiantes gestos de generosidade.

Brumadinho repetiu Mariana no sofrimento inenarrável e na afetividade trazida aos borbotões. Desde o instante fatídico em que as comportas se abriram para o dilúvio de lama, não pararam de jorrar demonstrações de fraternidade brotadas do mais genuíno sentimento popular. O espírito de cidadania marcou também altiva e edificante posição na agenda dos debates em curso sobre as desnorteantes causas e as imprevisíveis consequências da catastrófica ocorrência.

As eletrizantes imagens dos bombeiros, coadjuvados por outros agentes públicos, sobrevoando, esquadrinhando a pé, com inaudito esforço, as extensas áreas devastadas e mergulhando, com fervorosa obstinação, na movediça caudal barrenta; as cenas retratando a atuação de voluntários ardorosamente empenhados nas buscas e na prestação de serviços de apoio; o trabalho prestimoso das equipes de atendimento nos diversificados cenários armados para acudir necessidades e emergências de toda ordem; as redes de orações e de doações organizadas espontaneamente pela gente do povo; tudo isso faz ecoar, retumbantemente, um brado misericordioso que enaltece o espírito humano. Não é brado, visto está, que se aliene ao dever de propagar, alto e bom som, o justo inconformismo que se apossou da sociedade diante dos fatores causais dessa calamidade, com toque genocida, que poderia ter sido evitada, mas não foi à conta da ganância, insensibilidade social e incompetência técnica e gerencial.

O inconformismo é alimentado ininterruptamente por estarrecedoras revelações. Como as que se alinham na sequência. Relatório alerta que os metais do lamaçal procedentes da barragem vinda abaixo tornam a água do rio Paraopeba, que abastece numerosas cidades, nociva à saúde. Além daquelas que já conseguiram, em circunstâncias extremamente dramáticas, sepultar seus mortos, outras quase três centenas de famílias carregam pesado luto por entes queridos desaparecidos. A Agência Nacional de Mineração (ANA) dispõe de apenas três fiscais para inspecionar a segurança de 435 represas em Minas, 50 delas implantadas a montante, talqualmente as duas que derramaram lama, sofrimento e dor em Mariana e Brumadinho. Localizada a menos de dez minutos do centro de Rio Acima, existe uma barreira inativa há sete anos, pertencente a grupo australiano falido. O empreendimento não dá emprego a ninguém, não recolhe imposto e deixou antigos empregados sem receber salários. O dique citado figura na lista dos que constituem ameaça à segurança pública.

Documento liberado pelo Ministério Público Federal mostra que, desde 2014, as mineradoras Vale e Samarco vinham sendo advertidas sobre a gradativa perda de estabilidade dos rejeitos no Fundão, Mariana. Duzentas e cinco barragens de mineração no país são consideradas de alto risco. Delas, 140 acham-se implantadas em Minas. A Vale fica com 32 por cento do total. Parece (mas não é piada): a Agência Nacional de Mineração elevou de R$ 3.200 para R$ 3.400 o valor máximo das multas a serem aplicadas a mineradoras. A “atualização” das multas acaba de sair do forno. O ato foi publicado no “Diário Oficial da União” no dia 31 de janeiro de… 2019. Omissão (ou que outro nome tenha) do Congresso impediu que o valor das multas às mineradoras pudesse ser estabelecido em bases sérias. Medida Provisória encaminhada no governo Temer chegou a prever penalidade de até 30 milhões. Mas a MP, sabe-se lá por quais insondáveis desígnios, perdeu prazo de votação. Adveio daí que os efeitos práticos preconizados não puderam ser colocados em vigência, tá bem?

Porta-voz da Vale ofereceu explicação de macabro surrealismo a respeito de a sirene de alerta, estrategicamente plantada, não haver soado, no caso do desabamento da Barragem de Brumadinho. Não soou pela “simples razão” de que a barragem desabou. Tá danado… De outra parte, ninguém ainda se sentiu encorajado a esclarecer se foi por falta de sensibilidade social, ou por mesquinhez econômica, ou irresponsabilidade gerencial, ou todas essas coisas juntas, que as instalações de serviços administrativos, refeitório inserido, ficavam implantadas no sopé do gigantesco e ameaçador arrimo de contenção dos resíduos. A apreensão em Congonhas acerca dos riscos potenciais da barragem da “Casa de Pedra” levou o Ministério Público a ordenar que esse complexo seja alvo de imediata vistoria.

Durma-se com um estrondo desses!

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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