O fundamentalismo saudita

Cesar Vanucci*

“Na Arábia Saudita, basta ser homossexual
para ter o pescoço cortado.”
(Gilles Lapouge, jornalista)

História recente. Um jornalista saudita, asilado nos Estados Unidos, de passagem pela Turquia, resolve procurar o Consulado de seu país natal para regularização de documentos. Nunca mais foi visto. O governo turco faz uma denúncia terrível: o jornalista foi detido, torturado, esquartejado. Seus despojos repousam em local incerto e não sabido. A bárbara ocorrência foi ordenada por alguém muito poderoso da realeza da Arábia Saudita.

A grita de protesto durou pouco tempo. O governo de Riad, uma ditadura cruel de configuração feudal, continuou a ser tratado a “pão de ló”, como se costuma dizer. Tudo por conta do petróleo e interesses negociais subjacentes. As conveniências geopolíticas fazem com que dirigentes de países poderosos não se enrubesçam, tiquinho que seja, em apontar a Arábia Saudita como nação moderna, baluarte da democracia na conturbada região em que se acha localizada, fechando os olhos ao cortejo de horrores ali praticados contra os direitos fundamentais. Tem-se por certo que no país, entre outras absurdidades, subsista ainda a escravatura. O tratamento dispensado à mulher atinge inimaginável paroxismo machista.

Na verdade, a Arábia Saudita é tão ou mais fundamentalista, na extensão mais retrógrada do termo, que o Afeganistão do tenebroso ciclo talebã. Mas, como frisado, é inexplicavelmente poupada nas críticas internacionais feitas às fanatices atribuídas a grupos religiosos coléricos. Quando abre espaço para denunciar despropósitos praticados por intérpretes alucinadamente confusos do Alcorão, um livro sagrado digno de respeito, a mídia se omite escandalosamente face a qualquer lance em que a Arábia Saudita figure como protagonista. Ou, pelo menos, trata com indulgente discrição os desatinos que proliferam naquele país.

São objeto de proibição, nos ermos sauditas, entre outras coisas, o álcool, a dança, a astrologia, o emprego das perigosas expressões “papai” e “mamãe” no convívio familiar, a pecaminosa participação mista em cinemas e educandários. Uma mulher, mesmo ocidental, que ouse sair na rua com trajes despojados, considerados afrontosos à moral e costumes, é açoitada publicamente pelos “guardiães da fé”.

O obscurantismo das leis chega a extremos inconcebíveis. A Arábia é o único país a punir com pena de decapitação os chamados desvios sexuais. Pessoas condenadas sumariamente pelo “crime da homossexualidade” são decapitadas em praça pública, a golpes de sabre. Houve ano em que esse processo bárbaro de avaliação da conduta social produziu 80 vítimas. Os registros dessas atrocidades passam à deriva da divulgação midiática. A ONU, as grandes potências, as próprias organizações consagradas à defesa dos direitos humanos fecham-se, estranhavelmente, em copas diante dos clamorosos acontecimentos.

Gilles Lapouge, jornalista, critica acerbamente o comportamento da sociedade internacional em relação ao que rola. O assassinato dos homossexuais mostra a dinastia saudita, por trás de sua vitrina suntuosa de magnatas do petróleo, amiga e sócia de personalidades mundiais influentes, numa versão de inaudita ferocidade. O jornalista afirma ainda que naquele canto do mundo ocorrem coisas piores que noutros lugares dominados por regimes absolutistas. A dinastia Saud, família real encastelada no poder, desfruta de total imunidade quanto aos malfeitos incessantes. A realeza saudita, afirma ainda o bem informado jornalista, anda a reboque da seita religiosa mais extremada e incendiária do fundamentalismo muçulmano. Os sunitas ou xiitas, mesmo os mais radicais, não passam de meros cordeiros perto do wahhabitas. Alá proteja quem, desventuradamente, venha a cruzar os caminhos desses tresloucados religiosos!

Michael Moore, cineasta e jornalista estadunidense, é outro autor renomado que já denunciou, em livro e filme, os delitos contra a humanidade registrados nas áreas sauditas. Ele assegura que a trama relativa à derrubada das torres gêmeas em Nova Iorque foi urdida por fundamentalistas religiosos de presença marcante no governo saudita em conluio com Bin Laden. Um dos indícios de que se vale ao sustentar tal assertiva é este aqui: os pilotos dos aviões arremessados pertenciam aos quadros da Força Aérea da Arábia Saudita.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

O primeiro carnaval de Uberlândia

Antônio Pereira da Silva*

Nos princípios, havia o Entrudo, uma brincadeira porca, de molhar e sujar as pessoas, que os portugueses nos trouxeram nos primeiros momentos da colonização. Acontecia na comemoração católica do Carnaval. O Carnaval verdadeiro, com músicas e fantasias, danças e alegria, começou no Rio de Janeiro nos meados do século XIX. Até o último ano desse século, não havia uma música específica carnavalesca. Usava-se o que pudesse ser cantado, tocado e dançado na rua ou nos salões.
Procurei descobrir a época em que o Carnaval chegou a Uberabinha e localizei esse encontro em 1907, na primeira página do jornal “O Progresso”, do dia 28 de fevereiro. Notinha pequena, despretensiosa, dizia que o Carnaval em Uberabinha não fora totalmente desapercebido e que “à última hora, um grupo de pândegos chefiados pelo capitão Henrique de Castro percorreu as ruas da cidade em animado “Zé Pereira”. O Carnaval ia passando sem que alguém lhe desse atenção. À última hora, na terça-feira gorda, Uberabinha deu sinal de que estava aí. O introdutor desses festejos na cidade foi o capitão Henrique de Castro – o que pode ser tema para Escolas de Samba. A nota diz que estavam todos mascarados e que faziam “críticas de acontecimentos locais” provocando risos. Será que cantaram? É possível, mas não músicas apropriadas, porque o próprio Rio de Janeiro ainda não fixara a sua canção carnavalesca, apesar de já existir a marchinha “Abre Alas” da Chiquinha Gonzaga. Não existia o rádio, principal divulgador de música e a produção de fonógrafos e fonogramas estava engatinhando no país. Os primeiros anúncios desses produtos apareceram aqui lá por 1911, assim mesmo feitos por Casas estabelecidas em Uberaba.
O entusiasmo da amostra despertou o interesse do público em geral e do comércio em especial que pareceu disposto a estimular os próximos eventos. Não sei se nos anos seguintes houve novas festas. Em 1911 é seguro que sim porque de novo “O Progresso” contou o que aconteceu. Parece que foi festança boa. Durou três dias. Houve “assaltos de confetes” – que devem ter sido os precursores das “batalhas de confetes”. Houve também “ataques” previamente combinados a residências de pessoas de “boa sociedade”. O que entusiasmou os uberabinhenses, entretanto, foi o baile que encerrou o Reinado de Momo que um grupo de rapazes ofereceu “às distintas famílias uberabinhenses”. Foi na casa de Francisco Custódio. A sala “achava-se repleta e por demais pequena para acolher as gentis senhoritas que pressurosas acudiram ao nosso apelo.” Dançou-se das 21 às 3 da madrugada. O que? Sambas e marchas? Não. Valsas, polcas, mazurcas, isso sim. O articulista, que foi um dos organizadores do baile, é detalhista: diz que havia vinte pares que ostentavam ora aqui, ora ali, os vultos sempre risonhos… Ao final do artigo, assinou apenas com um “V”.
O Carnaval da velha Uberabinha foi assim, um ano com notícias, dois e três sem, fazendo supor que, nesses intervalos nada aconteceu. Em 1914, ocorreu de novo, com um monumental “Cordão do Inocente”. Os animadores foram o Zacharias Alves de Mello (da Livraria Kosmos), o Arlando Carneiro, o professor Bandeira e o sempre carnavalesco Henrique de Castro. Nos fins da década, fundou-se um Clube Carnavalesco que ajudou a por fogo na festança. A partir de 1920, o Carnaval tomou conta da cidade, realizando uma bela festa de rua que acontecia na avenida Afonso Pena, recentemente calçada pelo Joanico (o prefeito João Severiano Rodrigues da Cunha), onde se praticava um footing animado com danças, muitos blocos fantasiados, cantorias, instrumentos, corso, confetes, serpentinas, lanças. Uma festa inesquecível.
(No meu livro HISTÓRIA DO CARNAVAL DE UBERLÂNDIA – 100 ANOS DE FOLIA, encontra-se toda a memória dessa festa. Nas livrarias) (fontes: jornais da época).

*Jornalista e escritor

Ideias de Jerico

João Batista Domingues Filho*

Avaliação de 100 dias da Presidência é uma tradição americana. Capitão-presidente do Brasil criou uma armadilha política para si com essa efeméride. Casa Civil ao criar agenda positiva, em janeiro, contra a divulgação das movimentações financeiras suspeitas do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), apresentou 35 metas prioritárias para os primeiros 100 dias de governo, cujo capitão-presidente participava do Fórum Econômico Mundial, em Davos, excluindo a reforma da Previdência social como prioridade prometida ao mercado. Armadilha política: Presidência criou referência para vigilância crítica às realizações de sua governança, facilitando o trabalho da oposição e pressão do mercado pelas reformas estruturais necessárias ao crescimento econômico.
Presidência fez da festança dos 100 dias plataforma de anúncios, tornando-se o epicentro de uma série de crises políticas inúteis, cuja agenda causa mal-estar geral: orientação ideológica do nazismo, o comportamento do folião no Carnaval, a narrativa do golpe militar, utilidade do horário de verão, substituição das urnas eletrônicas, abandono das regras do acordo ortográfico e o fim da tomada de três pinos. Brilhante comemoração dos 100 dias com queima do capital político diante do Congresso nacional, mas tão eficiente para se manter em campanha para reeleição desse capitão-presidente, com pautas para animação da militância bolsonarista fiel e sempre raivosa, mostrando os dentes para quem pensa diferente do chefe do Executivo.
E o Brasil brasileiro? Que se exploda!!! Presidência cria despesas, abrindo mão de receitas a seu bel prazer, em campanha eleitoral com recursos públicos escassos. Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2020: reajuste salarial apenas para militares, dada reposição de soldos em janeiro em quatro anos de 25,4%. Para animar seus cabos eleitorais por todo o Brasil: capitão-presidente cancelou o reajuste de 5,7% no preço do óleo diesel determinado pela Petrobras. Cria agenda só para caminhoneiros como pagamento de promessas de campanha vitoriosa.
Perda de tempo e recursos públicos a campanha de reeleição desse capitão-presidente do Brasil com suas “ideias de jerico” berradas aos quatro ventos, sem medo de ser feliz. Dá “beijinhos no ombro” para rejeição fundamentada à sua pauta governamental de demolição da ideologia marxista no Brasil. Os inimigos da pátria e da civilização cristã são fantasias custeadas com recursos públicos escassos para o capitão-presidente conquistar a reeleição, encobrindo sua incompetência em todos os sentidos para governar o Brasil, sem fazer as reformas estruturais socioeconômicas para alavancar o país ao patamar de pais rico de classe média para a maioria dos brasileiros.
Tudo indica que o Brasil arcaico será o vencedor mais uma vez, com choro e ranger de dentes para a maioria dos brasileiros à mercê de todas as crises inimagináveis para os países ricos do mundo. Brasil governado por essa direita conservadora sem imaginação, alienada e intolerante com quem ousa pensar diferentes desses indigentes políticos, implacáveis com os progressistas e democráticos. Padrão da governança da Presidência são os ministérios da Educação, Relações Exteriores e da Família, garantidores dos votos necessários à reeleição do presidente Bolsonaro. Loucura presidencial tem método e conteúdo expostos por Olavo-Eduardo-Carlos-Flávio, cuja Presidência do Brasil é reduzida à ventriloquia desses “bobos da Corte”, produtores das “ideias de jerico” que saem da boca da Presidência em êxtase governativa.
Oito generais no primeiro escalão com pretensão fracassada de tutelar o capitão-presidente, conquistar prerrogativas perdidas e novo status para os projetos militares para si próprios, envoltos de interesse públicos. Presidência irradia radicalismo obscurantista, com reação do general Heleno Ribeiro, protetor-mor, com “cara de paisagem”. O vice-presidente general é escrachado por Olavo de Carvalho, como também o general ministro da Secretaria de Governo Carlos Alberto dos Santos Cruz, com aprovação do capitão-presidente que não os defende e muito menos zanga com Olavo de Carvalho. Fatos absurdos não mudam em nada o comportamento presidencial: queda acentuada da popularidade, com perda de capital político para aprovar as reformas no Congresso Nacional, suspeição crescente dos empresários, investidores e parlamentares com as políticas públicas com referência à sua agenda para o mercado. Presidência existe para reeleição desse capitão-presidente do Brasil.

*Cientista político

Conversas alopradas

Ana Maria Coelho Carvalho*

Cada fase da vida tem suas características e umas são melhores, outras piores. Uma das fases difíceis é quando começamos a “caducar”. E não há como fugir disso, pois a vida é um ciclo, que vai de babando a caducando.

Tenho um conhecido que está nessa fase e as conversas dele são uma loucura. Sempre que nos encontramos, batemos longos papos e damos boas risadas. Ele gosta de contar que tem treze formaturas e que fala fluentemente quatro línguas: inglês, francês, china e bagdá. E que agora está aprendendo os pauzinhos do Iraque. Conta que trabalha para a NASA e que tem livre acesso à base militar montada em Anápolis. Acrescenta que sabe dirigir qualquer tipo de caminhão e que pilota avião a jato. Disse que está comprando um trailer de três andares para viajar pelo mundo com minha filha, pois sabe que ela gosta muito de viajar e vai levá-la para conhecer Cancun. Eu comecei a rir, argumentando que é muito longe para ir de trailer. Ele disse que então vai de avião a jato e chega lá em cinco minutos. E que também vai levá-la na Avenida Paulista para ela comprar centenas de camisas lindas e baratas e revendê-las a cinco reais cada. Conta que é dono de vários prédios na Avenida Paulista, que ganhou de herança do avô. Completa a conversa dizendo que conhece muita gente importante e que arranjou emprego no Palácio da Justiça para uma moça de Morrinhos. Rindo, conta que ela é muito burra, mas que conseguiu um salário de dezoito mil reais para ela.E por aí vai.

Fico imaginando que qualquer um de nós pode passar por isso, é só uma questão de tempo. Eu mesma já ando misturando tudo. Chamo a minha cachorrinha pelo nome do filho e o filho pelo nome da cachorrinha. Esqueço as panelas no fogo, as torradas no forno, o ferro ligado e queimo tudo. Estou ficando perigosa. Falta pouco para pensar que também trabalho na NASA.

Em outra fase, estão as crianças. Num mesmo dia, encarnam o Batman, o Super Homem, o Homem Aranha. Colocam uma capinha e pulam de lugares altos, pensando que podem voar (muitos se estatelam no chão). Entre uma coisa e outra, têm conversas muito lúcidas. Como o meu neto, quando estávamos conversando sobre vacas e porcos. De repente, ele soltou a seguinte generalização: “-Todas as vacas são fêmeas”. E o outro, muito briguento, quando comentei que eu estava feliz porque ele tinha melhorado o comportamento, olhou-me bem nos olhos e disse com seriedade: “-É, as coisas mudam!”

No meio da fase dos idosos e das crianças, estão adultos bem loucos, gritando conversas escandalosas ao celular, nos locais menos apropriados. Como a mulher que ouvi na sala de espera do aeroporto, bem alto: -“O que? Mas já, na lua de mel?” Pausa. Todos por perto olhando para o alto, fingindo não escutarem. “E agora, você ainda vai ficar com esse canalha? ” Pausa. Mistério.

Tem também a conversa que ouvi na padaria, de outra mulher (será que as mulheres são fofoqueiras?). Ela repetiu bem alto, várias vezes, pois parece que a pessoa do outro lado era um pouco surda: “-A Ritinha entrou hoje na justiça, quer a metade da casa. Descobriu que foi “chifrada” durante estes anos todos”. Puxa, será que todo mundo precisa saber que a Ritinha foi chifrada?

Bem que diz o ditado: “de médico e de louco, todo mundo tem um pouco”

*Bióloga

Modernidade cada dia mais distante!

Autor: Rafael Moia Filho*

A dificuldade não está nas novas ideias,
mas sim em escapar as antigas.
John Maynard Keynes

Quando olhamos para a América do Sul podemos por instantes, mesmo que fugazes, achar que nossa realidade de atraso em relação ao mundo moderno não é tão severa como imaginamos.
Porém, quando nosso olhar é direcionado para além do oceano atlântico, as lágrimas começam a escorrer por nossas faces lívidas e sem nenhuma comiseração.
Enquanto aqui no Brasil não temos saneamento básico em 70% dos municípios, 60% da população é analfabeta ou alfabetizado funcional, mal conseguindo interpretar um texto, percebemos que no chamado primeiro mundo, seja na América do Norte (EUA e Canadá) Europa e alguns países da Ásia a evolução tecnológica, cientifica e humana é anos luz a nossa frente.
Na maior parte das cidades brasileiras, seus moradores jogam lixo orgânico, reciclável e de construção civil em terrenos públicos ou privados, contribuindo para o surgimento de doenças graves no país.
Se a população não contribui, o Estado também não faz a sua parte, não investe em educação ambiental, não coloca lixeiras modernas por toda cidade, não dá o exemplo, mantendo terrenos públicos imundos.
O país que tem os impostos mais altos do mundo, sem dar necessariamente nada em troca, não investe em energia alternativa. Sua frota antiga de carros, caminhões e ônibus não são elétricos, consumindo diesel, gasolina e etanol. Com isso a poluição é cada dia maior em todo território nacional.
Quando olhamos para a Espanha nos deparamos com serviço automático de recolhimento de lixo via subterrânea, redes de fiação elétrica por debaixo das ruas e avenidas e a utilização da energia solar em várias cidades.
Na Noruega, a sua capital Oslo, está para se tornar à primeira cidade do mundo a instalar sistemas de recarga sem fio para táxis elétricos, na esperança de tornar a recarga rápida e eficiente o suficiente para acelerar a chegada de táxis não poluentes. O projeto usará tecnologia de indução, com placas de carregamento instaladas em pontos de táxi ligados a receptores instalados no veículo, informou a empresa finlandesa Fortum.
A energia eólica e a solar são realidades em várias cidades europeias, abastecendo milhões de pessoas ao invés de utilizar energia poluente como a Termoelétrica que queima carvão ou a hidroelétrica que apesar de limpa causa destruição ao meio ambiente com a inundação de milhares de hectares de terras.
Nosso atraso na maior parte se deve aos políticos corruptos que destinam a maior parte dos nossos recursos financeiros na manutenção de uma máquina administrativa pesada, inútil e ultrapassada. Se boa parte destes recursos não caísse na vala da corrupção e pudesse ser destinada a pesquisa, desenvolvimento de tecnologias de ponta e educação, muitas coisas poderiam ser diferentes e melhores no país.

*Escritor, Blogger e Gestor Público.

Pisou na bola

Gustavo Hoffay*

Anos sessenta, Fazenda do Facão, município de Itaguara (MG). Poucos minutos depois de ouvir a Hora do Angelus pela radio Aparecida (SP) e antes do início do jornalístico A Hora do Brasil, vovó Zizi prepara a janta enquanto, da bacia onde tia Doca banhava-me, ouço minha outra tia, Cleusa, alertando que o querosene para as lamparinas está acabando e que era preciso comprar mais um galão daquele produto numa próxima ida à “rua” ou seja, na cidade sede daquele município. Sobre a grande mesa da espaçosa cozinha e próximo ao moedor manual de café, lá estava ele: o bajulado, imponente e fiel companheiro rádio Phillips modelo L3, à pilha e com a sua antena voltada para o telhado preto pela fumaça oriunda da lenha do velho fogão. Lá fora, próximo ao curral e depois de apartar aos berros as vacas dos seus bezerros, meu tio Silvério prepara um “pito de paia” enquanto também ouve em seu radinho portátil, Semp, o mais antigo e tradicional programa sertanejo e também apreciado naquele mesmo momento pela vó Zi e outros milhares de ouvintes de Minas e do Brasil: A Hora do Fazendeiro, transmitido pela Rádio Inconfidência “ O Gigante do Ar”, ZYL 880 Kwz…. Aquela estação de rádio, desde então, já era o principal meio de ligação da zona rural com o “mundo lá fora”: música, informação, esporte e prestação de serviços! Quanta saudade…Na minha adolescência, na capital mineira, gostoso era acompanhar as narrações e os programas de esporte apresentados por Sérgio Ferrara (ainda não havia entrado para a política e sequer pensava que um dia se tornar prefeito de Belo Horizonte) Tony José, Lucélio Gomes, Alair e Alberto Rodrigues e Jairo Anatólio Lima davam um show em suas transmissões desde o estádio Mineirão. A Rádio Inconfidência, onde aos sábados eu acompanhava e auxiliava o meu irmão Fernando França nas gravações do programa “Fetaemg no Campo” e levado ao “ar” nos dias de domingo, agora está prestes a ter o seu fim decretado e a ficar apenas na memória do povo mineiro, devido a uma nefasta ação do atual “administrador” do glorioso estado de Minas Gerais, Romeu Zema. Entendo que esse vitorioso empresário queira dar a Minas uma administração moderna, enxuta e pé-no-chão, mas torna-me incompreensível que para isso ele elimine da vida dos mineiros o que já é uma tradição cultural e imaterial do nosso povo e responsável, durante pouco mais de oitenta anos, por levar informações, alegria e entretenimento para milhares e milhares dos seus cativos ouvintes. Não dá para acreditar que tantas, fantásticas e evidentes coberturas daquela (quase) centenária emissora, principalmente de manifestações culturais mineiras e em seus múltiplos aspectos, sentidos e significados, sejam agora exterminadas ao contrário de serem valorizadas e cada vez mais honradas pelos nossos governantes. A produção e geração de bons e didáticos programas, num processo contínuo de criação cultural e aliadas ao entretenimento, numa só canetada poderão ser eliminadas da vida dos mineiros, prejudicando em muito o surgimento de novos conhecimentos num processo de criação cultural que era contínuo a partir daquela emissora de rádio. Sim, Minas pode poderá ser radical e culturalmente amputada em suas tradições. Como empresário de sucesso que é, Zema deveria – antes – propor meios de salvar aquele nosso patrimônio e ali injetar ainda mais condições para que o “Gigante do Ar” continue cada vez mais presente na vida dos mineiros. Lamento e choro a ameaça daquele araxaense, essa quase morte dentro do universo cultural de Minas. Caro governador….Por favor não atreva-se a mexer em nossas antigas tradições e sequer dê continuidade ao processo de extirpar da vida de milhares de crianças, a vitoriosa “Educação Integral” das escolas mineiras. Minas não é uma das suas empresas, Minas é dos mineiros e quero ter de volta o meu orgulho de ter votado na sua pessoa para ocupar o trono da “Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves”.

*Agente Social – Uberlândia-MG

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