Líder supremo do povo

João Batista Domingues Filho*

Povo brasileiro eleitor do Jair Messias Bolsonaro está orgulhoso de ser conservador e ter encontrado, por graça divina, seu líder supremo, conquistador da Presidência da Republica Federativa do Brasil. Sacralização desse capitão-presidente como salvador da pátria: elites socioeconômicas corruptas que nunca entregaram suas promessas, desde a Constituição Federal de 1988: liberdade, prosperidade e segurança à maioria dos brasileiros. Brasileiros receberam: desemprego crescente, dívidas e 60 mil homicídios por ano. Francisco Razzo ensina: “Na eleição do ano passado, o cidadão votou no primeiro que conseguiu oferecer uma resposta sobre a crise dos fundamentos da ordem social.” (FSP, Ilustríssima, 02/06/2019,p.06). Desintegração dos valores que sustentam a relação entre a ordem social e a política elegeu como lider supremo Bolsonaro presidente do Brasil.
Ser conservador advém da crença cega em valores como: Deus ou tradição cultural. Daí o brasileiro orgulhoso de ser conservador em público e em ação no sistema político. Inimigos juramentados: progressistas democráticos com valores contrários: seres humanos são indivíduos solitários que existem por si próprios para conquistarem suas sobrevivências. Cada um a sua capacidade e expertise para escolher como será e é sua vida humana, finalizada pela morte, cujo mundo humano não possui nenhum sentido universal ordenador de sua existência. Conservadores brasileiros não têm fé no Estado democrático e na divisão de Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, para lhes entregarem uma vida digna e justa, dado que o sistema político e essas instituições funcionam padrão Lava-Jato. Ineficientes para solucionar a pobreza; distribuição de renda; saúde; Previdência social sustentável; segurança e educação de qualidade do primário ao universitário, necessária para que o Brasil atracasse à quarta revolução indústria, há tempos em funcionamento pleno no mundo rico e desenvolvido. Deus e a cultura do povo, cuja onda conservadora brasileira pode conseguir gerar do ventre desse povo do bem, uma revolução populista autoritária para a salvação do Brasil, em crises múltipas.
Governação presidencial bolsonarista depende da sua capacidade de equilibrar os conflitos endógenos de suas tropas de brancaleones divididas e em confrontos permanentes: os piedosos papagaios de Deus, os movidos por sentimentos transcendentes e religiosos em pendengas sem fim com os histriônicos, ridículos, esquizofrênicos berrando absurdos à frente do Ministério da Educação e das Relações Exteriores, com seus delírios expostos em termos de suas teorias históricas e culturais do que seja o Brasil brasileiro. Segurança total de que são portadores dessas verdades, que só existem em suas cabeças, dado que não precisam separar o que é fake do que é cientificamente verdadeiro. Só precisam do que sai das revelações messiânicas do capitão-presidente Bolsonaro, mimetizador do Trump. É trágico, mas poderia ser hilário se a democracia brasileira e suas instituições tivessem sucesso, desde a CF/88.
Liberais e progressistas democráticos do Brasil vivem sofrendo descapetamentos sistemáticos dos bolsonaristas. Esse conservadorismo à brasileira é uma jaboticaba amarga ofertada ao mundo rico e democrático, com aliança poderosa com Trump, presidente dos EUA, líder supremo mundial do humilde seguidor família-bolsonaro-olavista. Presidência Bolsonaro, em território brasileiro, introduz nos corações e mentes sua promessa, como líder supremo, de que vai realizar o milagre da consubstanciação no Brasil da nova ordem metafísica, moral e política para a felicidade dos seus crentes em prantos de alegria. Estratégia vencedora dos bolsonaristas explícita: guerra permanente aos impuros, aos não convertidos aos seus mandamentos por graça divina, dado que sobreviveu a facada, sinal divino de sua missão para o Brasil. Aos inimigos da nação, o líder supremo Bolsonaro declara guerra permanente sem misericórdia ou perdão. Inimigo bom é inimigo extinto do sistema político democrático brasileiro. Com tutoria dada por Trump, Bolsonaro se torna pau mandado competente do Presidente dos EUA, expandindo seus podres poderes para a América Latina, cujo filho já é considerado uma liderança mundial, por essas bandas, do movimento conservador mundial.
Presidência Bolsonaro tem a missão divina: criar o novo ser brasileiro, cuja coesão da comunidade moral do Brasil está em construção: “Brasil acima de todos”, parido das entranhas da governação Bolsonaro.

*Cientista político

Presentes

Ana Maria Coelho Carvalho*

No dia 12 de junho se comemora o Dia dos Namorados, um dia dos casais enamorados trocarem presentes, uma forma de demonstrar carinho, interesse, expressar sentimentos, consolidar relações. Faz bem para quem dá e para quem recebe, sendo uma parte complexa e importante da interação humana. O ato de presentear é um dos mais antigos da humanidade.
Mas, nessa interação, surgem presentes de todo tipo e situações engraçadas. Como no caso do meu sobrinho, professor e pesquisador da UFMG, culto e distraído. Ele ganhou, no dia do seu aniversário, um lindo e enorme vaso de porcelana dos amigos que trabalhavam com ele. Quando chegou em casa, tarde da noite, viu que tinha esquecido o vaso na sala de reunião dos professores. Avisou à esposa que ia buscá-lo, pois ficaria constrangido, perante os amigos, se o vaso sumisse. Pegou um táxi e lá se foi para a Pampulha, bem longe de sua casa. Quando retornou, entrou em casa com cara de cansado e mãos abanando. A esposa, curiosa, perguntou: “E aí, onde está o vaso?”. E ele, batendo a mão na testa: -” Nossa, esqueci dentro do táxi…”
Existem os presentes tradicionais, como flores, vinhos, cestas de café da manhã, chocolates. Outros mais criativos, como pacotes de aulas de dança, de massagens. Outros mais sublimes, como levar o velhinho de um asilo ao cinema ou as crianças de uma creche ao circo. Outros cheios de amor, como pacotes de carinho, abraços e beijos. Mas também existem aqueles que matam a pessoa de espanto ao abrir o presente e outros que matam de raiva. Sem falar nos presentes de grego (no paraíso, a serpente ofereceu uma maçã à Eva e deu no que deu). Outros que você não tem a menor idéia do que fazer com eles, então vai passando pra frente. Faz um embrulho bem bonito, presenteia alguém e se sente feliz por ter encontrado uma utilidade pra ele. Até o dia em que, por um lapso, você acaba dando o presente para a mesma pessoa que lhe presenteou (aí, não tem perdão). Ou, então, até o dia em que a pessoa descobre que você passou o presente dela pra frente. Acho que a minha norinha não me perdoa por isso. Ela trouxe do sul um vinho delicioso, pra mim e meu marido. No dia do aniversário de um filho, embrulhei o vinho e dei para ele. A norinha estava na festa e reconheceu o vinho (por essas e outras é que existem tantas piadas sobre sogras).
Existem, também, os presentes que nos deixam sem fala, boquiabertos. Certa vez, uma aluna de Biologia, natural de Angola e participante de convênio, trouxe da África um presente para mim. Abri o lindo embrulho e meus olhos se esbugalharam de espanto, segurei um grito de terror na garganta. Era um colar de marfim, com bolas grandes esculpidas. Trêmula, toquei o colar com as mãos e senti o sangue dos elefantes mortos. Quase desmaiei (a aluna pensou que era de emoção). Até hoje, não sei o que fazer com ele (colocar no pescoço, só se for para me atirar no Ganges). Lembro-me de minha mãe. Ela ganhou de uma madrinha um broche de ouro trabalhado, precioso, cravejado de diamantes. A madrinha disse: “esse você não dá, não vende, não empresta”. Ela ficou anos sem saber o que fazer, pois nem tinha coragem de usá-lo. Até que teve uma idéia brilhante: fez um sorteio do broche entre seus cinco filhos.
E assim, nesse circuito de dar e receber, muitas pessoas descobrem que dar é melhor que receber. Como na oração de São Francisco de Assis: “Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado; compreender que ser compreendido, amar que ser amado. Pois é dando que se recebe e é consolando que se é consolado”

*Bióloga – Uberlândia – MG

Os gols de placa das meninas de Araguari

Cesar Vanucci*

“Pioneiras do futebol feminino, elas enfrentaram com
galhardia e coragem os preconceitos talibanistas de sua época”.
(Antônio Luiz da Costa, educador, sobre a luta pelos direitos
femininos sustentada nos anos 50 por mulheres de Araguari)

Refestelado em confortável poltrona, balde de pipoca ao alcance das mãos, atenção fixada na telinha repleta de imagens e sons, este desajeitado escriba deleita-se com as evoluções coreográficas das atletas da seleção brasileira que disputa na França a Copa Mundial de Futebol Feminino. Da memória velha de guerra emergem, de súbito, impetuosamente, imagens marcantes de acontecências registradas no século passado, anos 50.

Revejo, nostálgico, as “ousadas” ações vanguardeiras das meninas de Araguari no campo de futebol do principal clube da cidade. Essas “garotas” foram, saibam todos, senhores e senhoras, as introdutoras da prática futebolística feminina no Brasil. Chefe de redação do diário de maior circulação na região do Triângulo Mineiro, o desassombrado, já extinto, “Correio Católico” (12 mil assinantes na época), fui convidado em determinada ocasião, por amigo dileto, de saudosa memória, o brilhante jornalista Mário Nunes, a assistir, em Araguari, uma partida de futebol de características inéditas, com fitos beneficentes. Os times em campo eram constituídos de moças na “flor da idade”, de diferentes segmentos sociais. Envergavam calções, calçavam chuteiras, naquela época também chamadas de “bicancas”. Algumas protegiam a cabeça, mode que ajeitar cacheados cabelos, com gorros. Seja lembrado que não poucos atletas do futebol masculino costumavam fazer o mesmo.

Minha primeira reação diante dos lances inusitados capturados pelo olhar foi, obviamente, de baita surpresa. A surpresa acabou cedendo lugar a forte sentimento de admiração e solidariedade. Senti-me comovido com as cenas das “minas” fervorosamente convictas da legitimidade do papel que lhes tocava desempenhar, naquele preciso instante, no enredo da vida comunitária. Percebi que iriam precisar de palavras de encorajamento e aplauso naquele seu afã de quebrar tabus e desafiar inclementes regras machistas. “Botando pra jambrar” (como se costumava dizer em tempos de antanho), elas também puserem à mostra, de quebra, insuspeitáveis habilidades no “trato com a pelota”. Cuidei de acompanhar de perto, por razoável lapso de tempo, até que o bom-senso conseguisse finalmente se impor, a tormentosa polemica surgida, então, a respeito da legitimidade de as mulheres virem a jogar futebol. Fomentada por flamejante preconceito, a controvérsia acabou desembocando em raivosas vociferações por parte do falso moralismo entocaiado. O exagero na condenação da prática conduziu aguerridos “adeptos” do indissolúvel “Transanteontem Futebol Clube”, sempre a postos na contestação dos avanços civilizatórios, à redescoberta, em carcomida legislação dos tempos autoritários do Estado Novo, de um dispositivo contendo taxativa proibição ao futebol feminino, com previsão de severa penalidade aos infratores, ora, veja, pois!… O ânimo das araguarinas não arrefeceu. O valoroso time das jovens manteve-se inabalável na determinação de enfrentar a intolerância talibanista que se valia de mil artifícios para cercear-lhes a atuação. Ao fim e ao cabo, as pioneiras sagraram-se vitoriosas em seus propósitos. Conseguiram implantar uma barricada a mais na defesa dos direitos da mulher e da cidadania.

As “garotas de Araguari” são, na atualidade, quase todas elas, vovós setentonas. Orgulham-se muitíssimo, pelo que se sabe, dos gols de placa marcados. Dentro e fora do campo.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Um resumo da História do Brfasil!

Rafael Moia Filho*

Para afastarmos de vez as alienações.

Tem sido constante nos últimos tempos ouvirmos ou lermos na mídia declarações de pessoas dentro do atual governo brasileiro tentando reescrever uma parte da história do país com fatos distorcidos e que não condizem com a verdade.
Não é de se estranhar que pessoas obtusas, mal intencionadas, digam que o nazismo alemão é um movimento ligado à esquerda. Sendo que foi justamento a URSS que derrotou os alemães do exército de Hitler, colocando fim a II Guerra Mundial.
Estas pessoas inescrupulosas dizem que não houve Ditadura militar no país entre 1964 e 1985, na tentativa sem qualquer laivo de inteligência, de preservar algo que foi registrado em livros, filmes e principalmente na memória da sociedade brasileira e mundial.
Para tentar esclarecer e levar um pouco de informação utilizo a seguir dados reais que estão sendo veiculados na internet, redes sociais e whats app, no afã de evitar a desinformação e o fake news sobre fatos históricos que não podem ser alterados pela simples vontade ideológica que alguns debiloides com finalidade político partidária.

SEIS CONSTITUIÇÕES FEDERAIS:
1891 – 1934 – 1937 – 1946 – 1967 – 1988

NOVE MOEDAS:
Réis: até 1941 – Cruzeiro: 1942 – Cruzeiro Novo: 1967 – Cruzeiro: 1970 – Cruzado: 1986 -Cruzado Novo: 1989 – Cruzeiro: 1990 – Cruzeiro Real: 1993 – Real: julho de 1994.

SEIS VEZES O CONGRESSO FOI FECHADO:
1891 – 1930/34 – 1937/46 – 1966 – 1968/69 e 1977

SEIS GOLPES DE ESTADO:
1889 – 1930/34 – 1937/45 – 1945 – 1955 – 1964/85

UM PLEBISCITO IGNORADO:
Venda de armas: 2005

13 PRESIDENTES QUE NÃO CONCLUÍRAM O MANDATO:
Deodoro da Fonseca: 1891 – Afonso Pena: 1909 – Rodrigues Alves: 1918 – Washington Luís: 1930 – Júlio Prestes: 1930
Getúlio Vargas: 1945/1954 – Carlos Luz: 1955 – Jânio Quadros: 1961 – João Goulart: 1964 – Costa e Silva: 1969 – Tancredo Neves: 1985
Fernando Collor: 1992 – Dilma Rousseff: 2016

31 PRESIDENTES NÃO ELEITOS DIRETAMENTE (também considerando posse de interinos):
Deodoro da Fonseca: 1889* – Floriano Peixoto: 1891*
Prudente de Morais: 1894* – Campos Sales: 1898*
Rodrigues Alves: 1902* – Afonso Pena: 1906* – Nilo Peçanha: 1909* – Hermes da Fonseca: 1910* – Venceslau Brás: 1914* – Rodrigues Alves: 1918* – Delfim Moreira: 1918* – Epitácio Pessoa: 1919*
Arthur Bernardes: 1922* – Washington Luis: 1926*
Júlio Prestes: 1930* – Getúlio Vargas: 1930 – José Linhares: 1945 – Café Filho: 1954 – Carlos Luz: 1955 – Nereu Ramos: 1955
Ranieri Mazilli: 1961 – João Goulart: 1961
Castelo Branco: 1964 – Costa e Silva: 1967
Médici: 1969 – Geisel: 1974 – Figueiredo: 1979
Tancredo Neves: 1985 – José Sarney: 1985
Itamar Franco: 1992 – Michel Temer: 2016
* Presidentes do Período da República Velha, marcado pelas fraudes eleitorais e pelo coronelismo.

31 REVOLTAS E GUERRILHAS
Golpe Republicano: 1889
Primeira Revolta de Boa Vista: 1892-1894
Revolta da Armada: 1892-1894
Revolução Federalista: 1893-1895
Revolta de Canudos: 1893-1897
República de Curani: 1895-1900
Revolução Acreana: 1898-1903
Revolta da Vacina: 1904
Segunda Revolta de Boa Vista: 1907-1909
Revolta da Chibata: 1910
Guerra do Contestado: 1912-1916
Sedição de Juazeiro: 1914
Greves Operárias: 1917-1919
Levante Sertanejo: 1919-1930
Revolta dos Dezoito do Forte: 1922
Revolução Libertadora: 1923
Coluna Prestes: 1923-1925
Revolta Paulista: 1924
Revolta de Princesa: 1930
Revolução de 1930: 1930
Revolução Constitucionalista: 1932
Revolta Mineira: 1935-1936
Intentona Comunista: 1935
Caldeirão de Santa Cruz do Deserto: 1937
Revolta das Barcas: 1959
Regime Militar: 1964-1985
Luta Armada: 1965-1972
Guerrilha de Três Passos: 1965
Guerrilha do Caparaó: 1967
Guerrilha do Araguaia: 1967-1974
Revolta dos Perdidos: 1976
Como pode tanta gente realmente acreditar que o país sempre foi tranquilo e só recentemente teve distúrbios? Vivemos em um país que sempre foi manipulado pelos “doutores da lei”. Temos uma elite política doutrinada a deixar de lado o povo. A vontade que emana deles é a dos interesses próprios, e não a do povo! *O que nos falta é mais conhecimento.

* Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

Cinema brasileiro brilhou em Cannes

Cesar Vanucci *

“Só por ignorância ou má fé alguém poderá
desconhecer os feitos do cinema brasileiro no Festival”.
(Domingos Justino Pinto, educador)

O setor governamental incumbido institucionalmente de promover nossas políticas culturais acaba de dar mais uma constrangedora demonstração de desapreço ao que é feito, com talento e reconhecido sucesso, por criativos empreendedores patrícios nesse ramo da atividade artística. Manteve-se mudo e quedo que nem penedo diante das retumbantes conquistas do cinema nacional no recente Festival de Cannes, mais importante mostra da arte cinematográfica universal. Não se conhece, em momento algum da crônica pública brasileira, precedente de postura tão insólita. A circunstância de que o nosso cinema arrebatou alguns dos principais prêmios do Festival não poderia, jeito maneira algum, passar desapercebida aos olhares de quem esteja investido de conduzir oficialmente a missão de propagar as manifestações da arte e da cultura do país.

Como ignorar a ovação recebida pelo filme “Bacurau”, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, com co-direção de Juliano Dornelles, agraciado com o “Prêmio do Juri” e aplaudido de pé durante vários minutos por uma plateia em delírio? Como mostrar indiferença ao fato de que outra película nacional, “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, dirigida pelo cearense Karim Ainouz, alvo igualmente de aplausos entusiásticos, conquistou o prêmio de melhor filme da mostra no segmento “Um Certo Olhar” (Um Certain Regard)? Tem mais: o “Prêmio da Crítica” foi atribuído, no monumental certame, à obra “The Lighthouse”, produzida pelo brasileiro Rodrigo Teixeira. Será que isso faz ou não faz jus, também, a louvores?

Imperioso mencionar ainda, como alvissareiro registro, a escolha de outras produções brasileiras para comporem a estilosa programação da famosa mostra que, nessa sua opulenta versão de 2019, reuniu outra vez mais a elite artística do fascinante mundo do cinema. “Sem seu sangue”, da cineasta Alice Furtado, competiu na “Quinzena dos Realizadores”. As fitas “Indianara”, de Marcelo Barbosa e Aude Chevalier-Beaumel, e “Breve história do planeta verde”, co-produção brasileira, argentina, espanhola e alemã, foram distinguidas em rigorosa seleção,para exibições, pela “Associação para a Distribuição do Cinema Independente” (ACID). De outra parte, o longa em animação “Bob Cuspe – Nós não gostamos de gente”, da “Coala Filmes”, participou do “Animation Day”, evento paralelo ao Festival de Cannes.

Os sinais da presença robusta da arte cinematográfica brasileira no Festival vão ainda além. Cuidemos de anotar: O filme “Il traditore” (O traidor), do celebrado Marco Bellochio, que narra a história de Tommaso Buscetta, chefe da máfia que viveu e acabou sendo preso no Brasil, extraditado para a Itália, foi considerado excepcional pela crítica. As filmagens foram feitas, em boa parte, na região brasileira em que Buscetta residiu por algum tempo. Película co-produzida por italianos, brasileiros, alemães e franceses, “O traidor” traz no papel de Cristina, esposa do mafioso, a bela atriz brasileira Maria Fernanda Cândido, cuja interpretação arrancou elogios copiosos. A respeito do filme, assim se pronunciou Bellochio: “Minha preocupação era fazer algo não convencional, mas simples, popular. Era necessário representar os tantos delitos da máfia, de uma forma própria que eu busquei na dimensão teatral”.

O cintilante desempenho do cinema brasileiro em Cannes engrandece, sem a menor sombra de dúvida, a cultura e as artes de nosso país. Quem se recuse a admitir isso coloca-se frontal e contundentemente no lado oposto ao sentimento nacional e à verdade histórica.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

O ocaso de Moro

Hugo Amaral*

Sérgio Moro atingiu certo estrelato no meio jurídico nos últimos anos.

Sendo o magistrado federal competente para o processamento e julgamento de condutas dos envolvidos em esquemas organizados de corrupção praticados no âmbito da Petrobrás e insertos no bojo da Operação Lava Jato teve, dentre os réus das ações penais que julgou, figuras proeminentes na política e no empresariado nacionais, com destaque absoluto para o ex-presidente Lula, que hoje cumpre pena aplicada pelo juiz Moro, e majorada em segunda instância.

A atuação de Moro sempre foi cercada de polêmicas, sendo por alguns considerado o líder de uma grande intifada brasileira contra a corrupção e alcunhado por outros de juiz ativista-punitivista. Certo é que algumas condutas do magistrado, como atuar em processo judicial mesmo estando em férias, vazar deliberadamente um áudio entre a então presidenta Dilma e Lula e a aceitação, enquanto ainda era ministro, do cargo de Ministro da Justiça do governo Bolsonaro são passíveis de justificada censura, a nosso sentir.

Com carta branca da mídia e da opinião pública majoritária Moro passou imune por estes e outros deslizes morais ou processuais, porém o vazamento de conversas entre o Sr. Moro e o famoso procurador do MPF Deltan Dallagnol pode dar ensejo a desdobramentos jurídicos gravíssimos para as ações penais desencadeadas no âmbito da Lava Jato, com risco real de nulidades em condenações.

Os vazamentos de conversas de celular até agora perpetrados pelo site The Intercept Brasil deixaram a comunidade jurídica estarrecida com o despudor do magistrado que se imiscuiu, com opiniões e sugestões, nas ações do MPF. A conduta do Sr. Moro atesta a sua falta de isenção e independência posto que ao repassar orientações à acusação não deixou de expressar a sua pré-concebida convicção de que os réus necessariamente deveriam ser condenados. Em tempo, temos que seria igualmente reprovável a conduta do magistrado se as conversas houvessem sido travadas com a defesa, posto que o juiz cônscio de sua responsabilidade se mantém equidistante das partes e de seus procuradores, mantendo com estas os contatos estritamente necessários.

Moro figurava até a pouco tempo como possível futuro ministro do STF ou então até como forte candidato ao Planalto. Embora não acreditasse este escriba estar o Sr. Moro à altura destes cargos mesmo quando ainda era um magistrado colocado sobre um pedestal em Curitiba temos que os fatos recentemente expostos maculam cabalmente a moralidade do ex-juiz, afastando-o tanto da Corte Suprema, como da presidência da República. Aliás, como bem se posicionou o Conselho Federal da OAB Nacional, Moro e Deltan deveriam ser imediatamente afastados de seus cargos, especialmente face á ausência de negativa quanto à veracidade das conversas divulgadas.

Aguardemos o desenrolar desta crise jurídica, bem como possíveis novos vazamentos. O combate à corrupção há de ser travado de forma incessante e diuturna neste país, mas isto com irrestrito respeito à normas processuais, à moralidade e à Constituição. Somente um juiz espiritualmente isento poderá proferir uma decisão justa.

O magistrado deve ter espírito isento e portar-se de modo equidistante das partes. Não deve enamorar-se de um dos lados do litígio. O juiz exerce uma das mais relevantes funções estatais e deve, em todos os seus atos, estar ciente da imensa responsabilidade que recai sobre seus ombros.

*Advogado – Uberlândia

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