Natal nas vozes dos trovadores

Cesar Vanucci*

“Não tendo Cristo por centro,/torna-se festa banal:/
Quem não renasce por dentro/não comemora o Natal!
(Lacy José Raymundi)

A celebração natalina deste ano na Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais correu por conta dos poetas. Em concorrida assembleia, de envolvente conteúdo humanístico, entremeada de belas interpretações musicais, os acadêmicos se revezaram na tribuna narrando sugestivos casos, declamando poemas e trovas, comentando candentes temas da atualidade tomando como mote a mensagem de fraternidade que a data máxima da cristandade inspira.

A programação cumprida, sob a competente coordenação das acadêmicas Maria Armanda Capelão, Maria Inês Chaves de Andrade e Tânia Mara Costa Leite, contou com participação ativa, entre outros, dos acadêmicos Elizabeth Rennó, Luiz Carlos Abritta, Auxiliadora de Carvalho e Lago, João Quintino, Maria Inês Marreco, Marilene Guzzela, José Alberto Barreto, Ângela Togeiro, Andrea Donadon Leal, Benedito Donadon Leal, Francisco Vieira Chagas, Gabriel Bicalho, Lucilia Cândida Sobrinho, Ismaília de Moura Nunes, Almira Guaracy Rebelo, Marzo Sette Torres, Altair Pinho, Sidnéia Nunes Guimarães e Maria de Lourdes Rabelo Villares. Exemplares de publicações contendo poemas e crônicas alusivos ao tema da comemoração, de autoria de associados da Amulmig, foram oferecidos aos presentes no andamento da calorosa confraternização transcorrida na Casa de São Francisco de Assis, também conhecida por Casa de JK.

As trovas natalinas vindas na sequência foram selecionadas por Luiz Carlos Abritta, presidente emérito da instituição, para leitura durante os trabalhos. Reproduzo-as aqui como um brinde aos leitores, ao desejar-lhes um Feliz Natal, cheio de amor e de paz.

– Foi na tal estrebaria,/simples, mas cheia de luz,/que nossa doce Maria/teve seu filho Jesus. (Luiz Carlos Abritta)

– Uma estrela, cintilando,/pára, junto à estrebaria./Maria reza chorando,/enquanto Jesus sorria. (Maria Natalina Jardim)

– No presépio natalino,/Mãe Maria e São José/contemplam Jesus Menino,/orando plenos de fé. (Conceição Piló)

– Vista o manto que lhe cobre/neste Natal, meu Jesus,/em toda criança pobre/e encha seu mundo de Luz! (Ivone Taglialegna Prado)

– De barro, um presépio lindo:/Maria de Nazaré/e um meigo Jesus dormindo/no colo de São José. (Conceição Almeida)

– Foge de mim a esperança/da estrela que apaga a luz,/ao lembrar que uma criança/tem, no destino, uma cruz! (Maria Dolores Paixão Lopes)

– Ao doce planger do sino,/na alegria triunfal,/recebamos Deus-Menino/nestas festas de Natal. (Felisbino Cassimiro Ribeiro)

– Vendo o mundo se prender/nas teias da insegurança,/o Natal nos vem trazer/o milagre da esperança! (Almira Guaracy Rebêlo)

– Com seu infinito amor,/o grande Deus me proteja./E que o Natal do Senhor/faça, de mim, Templo e Igreja. (Célia Maria Barbosa Rodrigues)

– Aproxima-se o Natal./Tocam sinos. Quanta luz!/Em cada lar há sinal/da presença de Jesus! (Edmilson Ferreira Macedo)

– A maior festa do mundo,/de âmbito universal,/tem um sentido profundo/nos festejos de Natal. (Geraldo Tavares Simões)

– Meu Natal não tem presente,/ceia farta, cores, luz…/Meu Natal é diferente:/meu Natal só tem Jesus. (João Quintino da Silva)

– As coisas simples, modestas,/encerram saber profundo./Nasceu sem plumas e festas/o maior Homem do mundo. (Lucy Sother Rocha)

– Belo Natal se aproxima,/vem trazendo ao mundo a Luz./Sigo, olhando para cima,/o Evangelho de Jesus. (Auxiliadora de Carvalho e Lago)

– Surge, ao longo dos meus dias,/Natal em cada segundo,/quando misturo alegrias/na esperança do meu mundo. (Rosa de Souza Soares)

– Que esta data abençoada/- é um desejo verdadeiro -/fique em nossa alma gravada,/seja Natal o ano inteiro! (Thereza Costa Val)

– Se todo o povo, irmanado,/em Cristianismo real,/amasse o irmão desprezado…/Seria sempre Natal! (Conceição Parreiras Abritta)

– Natal! Tantos já partiram,/deixando em silêncio a sala…/Quietos velhinhos suspiram,/só a saudade é quem fala. (Eva Reis)

– Estamos, Maria e eu,/comunicando a vocês:/nosso Menino nasceu./Nós, agora… somos três. (Lucy Sother Rocha)

– Papai Noel, vê se faz/do Natal um baluarte:/erga a “Bandeira da Paz”,/gravando “AMOR” no estandarte! (Ivone Taglialegna Prado)

– Natal trouxe vida nova/aos homens… novo destino,/a esperança se renova/junto ao berço de um Menino. (Zeni de Barros Lana)

– Diante o presépio, encantado,/vendo Jesus que dormia,/um menino, esfarrapado,/embevecido, sorria. (Conceição Parreiras Abritta)

– Um desejo verdadeiro/haja, entre nós, afinal:/ter no peito, o ano inteiro,/sentimento de Natal! (Thereza Costa Val).

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Libere-se das drogas

Gustavo Hoffay*

Ao contrário da maioria das pessoas, já não preocupo-me com a possível liberação de algumas drogas entorpecentes/estupefacientes e que podem originar, entre outras mazelas, a terrível dependência química. Evidentemente não preconizo a liberdade de produzir-se aquele tipo de substâncias e mesmo, claro, de facilitar a sua comercialização e uso. Acredito no amar generosamente a causa de reabilitar-se dependentes químicos, um amor que possa contagiar todo um local onde estão pessoas desejosas de abandonar definitivamente o vício pelas drogas licitas e ilícitas. E a caminhada rumo à libertação das algemas que prendem um jovem ou um adulto ao submundo de tentadoras porém muitas vezes fatídicas ilusões, não é uma exigência tão difícil e desde que o sujeito encare o seu tratamento não como a uma passagem, mas como a algo que eficazmente irá marcá-lo e mostrar-lhe um outro porém digno, feliz e salutar modo de vida. O cotidiano em uma comunidade terapêutica, reunida pela fé, a oração e o trabalho coeso em fraternidade, atesta o amor e o amor sobrenatural, amor de Deus derramado sobre os homens, independentemente de simpatias ou antipatias naturais a isso ou aquilo. Cultivar o espírito de fraternidade , habitando e trabalhando ora sob o mesmo teto e ora no campo é cultivar relações entre todos os recuperandos e de forma a prepará-los para uma nova e produtiva vida, em harmonia consigo mesmos e todos os que lhes são próximos. Esse embasamento de espírito somado a positivas experiências fraternas enquanto vivendo em uma comunidade terapêutica, oferece a um adicto em recuperação a real possibilidade para que ele aceite, generosamente, as tribulações que a vida comum irá impor-lhe tão logo retorne ao convívio em família e sociedade. Assim, exercitar e desenvolver em dependentes químicos que caminham em busca da sobriedade o senso de justiça, veracidade, doação de si, autenticidade e sinceridade é, antes do mais, despertar em todos o senso de Deus já latente na alma de cada um deles. E a cada dia, enquanto convivendo com ex-drogados em reabilitação, mais eu creio que a Providencia Divina sabe tirar dos males morais ainda maiores bens e desde que aqueles aceitem ser tocados pela Sua misericórdia. Por isso afirmo e repito: um dependente químico reabilitado é de suma importância para desfazer equívocos e preconceitos que ainda se formam a respeito do (belíssimo e glorioso) trabalho de reabilitação de quem deixou-se levar pelas drogas licitas e/ou ilícitas; ele(a) torna-se um ativo agente que transmite esperança e confiança a quem ainda não decidiu abandonar o vicio por algumas daquelas substâncias químicas alteradoras de humor. Libere-se as drogas, caso seja esse o desejo dos nossos governantes; temos hoje uma população de jovens cada vez mais informada e ciente dos males provocados por aquelas naturais ou sintéticas composições químicas e, por isso, a grande maioria deles já sabe interpretar e escapar de tentadoras porém perigosas ofertas de fazer-se uso daquelas substâncias. O perigo ronda nossos filhos, sim, mas a informação, a familia e o amor na medida certa (e exigente) nunca pode faltar-lhes.

*Presidente do Conselho Curador da Fundação Frei Antonino Puglisi
Ex-diretor do Conselho Municipal Antidrogas
Uberlândia-MG

Onde o bom cliente paga pelo mau

Percival Puggina*

O sistema bancário brasileiro é sólido e líquido. Sólido porque tem muito dinheiro e aufere bons resultados. Líquido porque tem liquidez, ou seja, está folgado nos indicadores que aferem as relações entre a capacidade de pagamento do sistema e os compromissos por ele assumidos. Tal situação é boa para a economia. Mas, quando apenas cinco bancos controlam mais de 80% do mercado de crédito do país, parece evidente ser muito restrito o número dessas instituições para uma economia do tamanho da brasileira. Maior concorrência atenderia mais satisfatoriamente os clientes, tenderia a reduzir as taxas de juros cobradas nos empréstimos, faria baixar o preço dos serviços bancários e reduziria a inadimplência.
Então, se o sistema vai bem, obrigado; se os acionistas estão ganhando bem por suas ações e se só reclama a turma do balcão – os bancários de um lado e os clientes de outro, por que o Conselho Monetário Nacional e o Banco Central deram sinal verde para os bancos cobrarem taxa de até 0,25% sobre o valor do crédito disponibilizado aos correntistas no cheque especial?
“Ah, mas a mesma autorização estabelece um teto de 8% ao mês nos juros mensais cobrados sobre o uso do cheque especial! Ele vai ficar mais barato”, dirá alguém. Sim, vai, se você achar razoável um juro que corresponde a 151% ao ano… Com a Selic a 4,5% ao ano, parece evidente que não há como banco algum queixar-se de “perdas”, mesmo perante a elevada inadimplência.
Aliás, não fossem a passividade e a tolerância dos brasileiros, não fosse sua inesgotável disponibilidade para pagar contas que lhes chegam, não aceitaríamos pagar juros astronômicos para reembolsar o prejuízo dos bancos com clientes que não pagam suas contas. Afinal, não cabe a tais instituições cuidar do próprio dinheiro? Saber a quem o emprestam? O que cada um de nós outros tem a ver com isso?
Pois bem, Ainda assim, está autorizada a cobrança. Santander já informou que vai aderir a essa nova criatura da engenhosidade financeira. Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banrisul decidiram não o fazer.
Jornal O Estado de Minas informa na edição de hoje, 7 de janeiro, que o Sistema disponibiliza cheques especiais no montante de R$ 350 bilhões. Destes, apenas R$ 26 bilhões correspondem a financiamento de fato concedido.
É óbvio que os bancos não deixam parado na conta do cliente o limite concedido. O banco libera parcelas do valor total à medida da demanda que receba. Tenho observado que os bancos, inclusive, elevam por conta própria o limite de crédito dos clientes ou de alguns clientes a título de “cortesia da casa”.
Agora, isso será cortesia com chapéu alheio. E essa mordida sobre um valor que a maior parte dos clientes não usa será empregada para cobrir prejuízos do sistema em operações com cheque especial. É comercialmente muito cordial emprestar a quem não paga, cobrando o prejuízo dos que pagam e até dos que não o utilizam. Arre, Brasil!

* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

Chegamos em 2020! Exaustos, mas vivos!

*Marília Alves Cunha*

Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato.”
Mark Twain
Janeiro chegou e com ele o prenúncio de uma nova vida, onde nada será como antes. Mês recheado de promessas, projetos, adeus àquela viver errado e sem método, no qual todo o fazer hoje é deixado para amanhã e até para o ano vindouro.
O despertador toca, trazendo à lembrança que o “ano que vem” chegou. Levanto-me ainda aturdida de sono, abandonando a cama quente e as cobertas que me abraçaram com carinho. A promessa de caminhadas, exercício matinal de efeitos miraculosos para a saúde precisa ser cumprida, ainda que sob protestos do corpo sonolento. Abro a porta da varanda do quarto: Putz! A chuva cai fininha, mansa, fazendo aquele barulhinho gostoso que induz à preguiça… Infelizmente a mudança de vida vai ter que esperar um pouco. Volto correndo para a cama, onde um calorzinho ainda permanece e me aconchego no emaranhado que sobrou da noite.
Ligo a TV, hábito que cultivo desde que me aposentei e costuma ser a primeira ação do dia. Dou de cara com a Ludmilla (se não me engano antes era Ludmila, depois enfiaram mais um L no nome. Coisas da numerologia…). A moça cheia de entusiasmo, com seus rebolados e trejeitos peculiares canta: “Eu fiz um pé, lá no meu quintal/tô vendendo a grama da verdinha a um real/minha mãe já perguntou/ o meu pai já perguntou/ minha avó já perguntou/ que plantinha é esta meu amor…e vai por aí afora. Além do ritmo horrível que chamam de funk e o cometimento de atentado à “última flor do Lácio, inculta e bela”, soma-se o escárnio à lei, em horário nobre de TV. Que pena, já ouvi esta cantora em músicas de fino gosto. Sua voz bonita e seu talento são indiscutíveis. Tudo bem, fazer o que? Há quem goste e apoie este tipo de coisa…
Por falar em lei, janeiro é também um mês muito benéfico para as nossas pobres cabeças. O Congresso está em recesso, o STF também e até o presidente resolveu dar uma descansada. Deus seja louvado! O 2019 nos presenteou com uma “Lei contra abuso de autoridade”, em resposta ao Pacote Anticrime tão aguardado. Fomos também atropelados com a deformação do Pacote Anticrime, recortada a prisão em 2ª. instância e assistimos às modificações impostas na Reforma da Previdência, com objetivo precípuo de tornar mais privilegiadas, classes já privilegiadas e tornar mais profundas certas desigualdades. Assistimos perplexos o prende e solta dos criminosos de colarinho branco, que prejudicaram imensamente a nação brasileira e a criação de outros mecanismos que visam dificultar o combate á corrupção. Para coroar tudo isto, criaram um “jabuti” na legislação brasileira – o juiz de garantias. Este “jabuti” veio na contramão de tudo que precisávamos. Ideia absurda de uma elite política anacrônica que, infelizmente, dita ao seu bel prazer os rumos deste país e assim, como em outros tantos momentos, reage e faz frente à Lava Jato e seu legado.
Copiando “O Antagonista”: “A grande ironia da chegada do juiz de garantias no nosso sistema jurídico foi a forma como foi contemplada. A ideia foi embuchada no Pacote Anticrime do Ministro Moro, como um verdadeiro cavalo de Troia. Certamente foi soprada no ouvido do deputado Marcelo Freixo, que só fez psicografar seu texto. Resta agora saber, por uma curiosidade masoquista, de qual “entidade” partiu de fato esta ideia”.
O plano de reduzir o custo Brasil e tornar mais céleres os processos no judiciário podem cair por terra, com a criação deste tipo de “jabutis” que servirão, de fato, aos que não têm interesse em prover o combate à corrupção.
Enfim, vamos procurar viver bem o 2020, apesar das asperezas do caminho. Dizem que desejar com força e insistência transforma sonhos em realidade. Vamos, então, desejar com força e insistência que o 2020 seja bom para todos os brasileiros. Que haja paz, liberdade e respeito mútuo. Que possamos, como uma verdadeira nação, compreender o alcance dos nossos atos em busca de compreensão e conciliação, para conseguirmos chegar a um destino mais promissor e seguro.

*Educadora e escritora – Uberlândia – MG

Pequena Historia Cubana

Flávio de Andrade Goulart*

Era 1982 e um brasileiro ir a Cuba representava uma aventura arriscada. Mas mesmo assim fomos, eu e Eliane, minha companheira, numa viagem sinuosa, passando primeiro pelo México. O visto, então, era um procedimento totalmente clandestino para nós brasileiros. Nada de carimbos! As próprias marcas do grampeador usado para prender em nossos passaportes um papelucho eram vistas com suspeita pelos agentes da ditadura. Ouvi mesmo falar de gente que teve que se explicar à Polícia Federal, já no desembarque, por conta daqueles dois furinhos…
A experiência exótica já começava no avião da Cubana de Aviación, um Yliushin russo de velha cepa, com rodas que incluíam, além dos três trens de pouso habituais, mais um extra, traseiro, que só tocava o chão quando o avião já estava quase parando na decolagem. Na poltrona da frente um escritor uruguaio famoso, creio que Mario Benedetti, comunista, perseguido em seu país e certamente bem acolhido em Cuba. Boa parte dos passageiros era formada por cubanos de Miami, beneficiários de uma medida de boa vontade do regime, visitando parentes que ficaram para trás. O almoço era carne de porco em arroz, com muita banha, bem no estilo do interior do Brasil. As aeromoças não depilavam as axilas, sem deixar de ser bastante simpáticas.
Mas tudo isso é folclore, e não tem nada a ver com tal pequena história prometia no título desta crônica…
Um dos passeios obrigatórios em Havana, pelo menos na visão dos agentes de turismo, era uma visita ao Parque Lênin, nos arredores da capital. Um belo espaço, sem dúvida, com mata tropical e lagos, além de prédios para eventos culturais. Bustos diversos por toda parte, de Marx, de Lenin, de Martí, de Ho Chi Minh e outros nomes da esquerda mundial. Mas um tanto abandonado, sem uma barraquinha, por exemplo, onde se pudesse tomar uma água mineral ou uma cerveja. Isso foi em 1982; as coisas devem ter melhorado desde então, no esforço de tornar Cuba em lugar mais atrativo para turistas.

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Chegar ao Parque Lênin foi fácil, pois uma van da agência de turismo nos deixou lá. Voltar foi um pouco complicado, pois o pacote só oferecia transporte de ida, coisas de Cuba na ocasião.
Assim, nos conformamos em caminhar um pouco, em pleno sol de meio dia de Havana, até um ponto coberto onde a guagua (ônibus) passaria, sabe-se lá quando. Tudo deserto em volta, não só na pista da grande avenida como na calçada onde estávamos. Mas eis que surge, do nada, um homenzinho mulato, com uma sacolinha a tiracolo, bem no estilo daquela que os trabalhadores brasileiros usam para levar suas marmitas. Ele nos olha de alto a baixo e, à maneira habitual dos cubanos, sempre muito amistosos e “dados”, logo puxa conversa, querendo saber em que língua estávamos conversando.
Sem deixar de acolhê-lo, também, continuamos a falar em português, desafiando-o a descobrir qual seria nosso idioma, afinal tão próximo do dele. Com mais um pouco seu rosto se iluminou e ele: portugués, lo he visto! Aí, já estávamos amigos.
Contou-nos que era pedreiro, prestes a se aposentar, e que já havia trabalhado em misiones internacionales na África, em Moçambique e Angola, onde aprendera um pouco do português. Mas gostaria de ter aprendido mais, para melhor conversar com estes dois brasileiros, que honravam o país com sua visita.
Tinha algumas informações sobre o Brasil, não sobre futebol, que não era a sua praia – e nem da maioria dos cubanos, diga-se de passagem. Mas em matéria de música, tinha boas informações: seus ídolos, confessados com entusiasmo, eram Roberto Carlos e Nelson Ned… Lembrava-se também daquela guapa muchacha, que usa saias “aqui” (mostrando o meio das coxas) e tinha um longo cabelo rojo e encaracolado. Elba Ramalho! acudimos – e seus olhos brilharam mais uma vez. E nos brindou, num português até aceitável, cantarolando o refrão: oi tum tum tum, bate corazao…

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Falamos de tudo um pouco, menos de política, o que poderia não ser de bom tom. Falou dos filhos, da mulher e nós contamos das nossas crianças, cujo nome ele até quis saber. Falamos do tempo, do calor que fazia – antigamente não era assim – ele comentou. O capítulo das comidas, quase se transforma num tratado de gastronomia comparativa intercultural. Muito agradável o tal sujeito.
Lá pelas tantas, o pudor foi vencido e resolvemos arriscar: o que você acha de Fidel? Gosta dele?
Ele nos olhou sério, muito sério. Pensei: pronto, desandou a conversa… Antes que me arrependesse de vez de tal indagação, talvez capciosa, ele completou, ainda sério e já meio emocionado, em palavras que tentarei reproduzir em espanhol, por terem se fixado em minha memória, estando ainda presentes trinta e tantos anos depois.
– Amigo, Yo vendia mi fuerza de trabajo em los cañaverales. Ahora, tengo empleo, comida, casa. Mis hijos van a la universidad. Y usted pregunta se me gusta Fidel?
Pano rápido. A guagua já chegava e ele iria tomar outra direção.

*Médico Sanitarista – Brasilia – DF

RAULINO COTTA PACHECO (2ª)

Antônio Pereira da Silva*

(continuação):

A papelaria do Raulino Cotta Pacheco, do Pedro Salazar Pessoa Filho e do Sidney Machado da Silveira, era ponto de encontro dos intelectuais. Como estourasse a primeira Grande Guerra e se vivesse no país num clima de intenso ufanismo e patriotismo, Raulino, Salazar e o professor Honório Guimarães resolveram fundar um Tiro de Guerra. Reconhecido pelo Ministério da Guerra, o Tiro recebeu o número 263 e foi enviado para cá o tenente Francisco de Arruda Câmara para comandá-lo.
Honório era o Presidente, Salazar o Tesoureiro e Secretário o Raulino que, depois, foi comandante de Pelotão. O Tiro recrutou muitos jovens que nele aprendiam a arte militar. O Ministério enviou 50 fuzis mauser, modelo 1908, sem munição, só para treinamento e conhecimento da montagem e desmontagem. Diretoria e atiradores desfilavam garbosos pela pequena cidade nas ocasiões festivas.
Os três diretores do Tiro editaram um pequeno jornal chamado carinhosamente de “Diarinho”, cujo verdadeiro nome era “Diário de Uberabinha”. Foi o primeiro jornal diário da cidade. Mantinham um serviço telegráfico ligado a uma agência paulista de notícias que lhes passava informes sobre as grandes batalhas nas diversas frentes de combate da Guerra Mundial. Era colaborador o jornalista Agenor Paes, depois diretor de “A Tribuna”.
Num intervalo entre suas diversas atividades, Raulino foi boiadeiro juntamente com seu tio Chico Cotta. Chico foi um dos pioneiros nessa atividade que já prenunciava as ações a longa distância que caracterizariam o comércio da cidade com os caminhoneiros num passado próximo e com os atacadistas no presente. Dizem que o preço do gado no estado de Goiás só se estabelecia com a chegada do Chico Cotta. Raulino enfrentou a dura epopeia das viagens pelos sertões: falta de estradas, distância, febres, travessias de grandes rios, desconfiança de estranhos etc. Eram quarenta dias de marcha tangendo gado para as feiras de Barretos e Passos.
Foi comerciante atacadista estabelecido na velha praça Clarimundo Carneiro que era a “boca do cerrado”. Depois de sua casa, mais nada até a estação da Mogiana.
Foi um dos fundadores da Associação Comercial, Industrial e Agro Pecuária de Uberlândia, em 1933, e fez parte da terceira Diretoria, de 1936 a 37, sob a presidência de Aristides Bernardes de Rezende.
No dia 29 de agosto de 1938, como parte dos festejos comemorativos do Cinquentenário de Uberlândia, foi inaugurada a sede da Associação Comercial, à avenida João Pinheiro, onde está o prédio Armante Carneiro, com uma exposição no salão térreo. O expositor que abria a relação do programa era Raulino Cotta Pacheco, agora industrial, com farinha de milho, fubá e canjica.
Sua última atividade empresarial foi a casa “Prolar”, que ficava na avenida Afonso Pena, onde é o Banco do Brasil.
Por fim, depois de intensas e variadas atividades, Raulino foi nomeado Avaliador Judicial, função em que se aquietou até a aposentadoria.
No dia 3 de junho de 1966, em sua residência, os diretores das cincos escolas superiores da cidade, Direito, Economia, Engenharia, Filosofia e Música fizeram a entrega de seus patrimônios a Rondon Pacheco como passo importante para a criação da Universidade.
Raulino casou-se com d. Nicolina em 1918 e tiveram os seguintes filhos: Haydê, Ubaldo (Badu), Rondon, João, Mauro, Maria de Lourdes, Mário, Márcio, Terezinha, Eleuza, Célio e Fausto.
É possível que tenha omitido alguma atividade comunitária de Raulino Cotta Pacheco, mas acredito que, apenas pelo relatado acima já se justifica a proposta de seu velho amigo e sócio Pedro Salazar Pessoa Filho. A avenida para o Raulino foi uma lembrança justa.

*Jornalista e escritor

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