Ana Maria Coelho Carvalho – Bióloga
O Zé, meu finado marido, era uma pessoa muito simples, a começar pelo nome. Os amigos brincavam que, de bobo, ele só tinha a cara e o jeito de andar. Durante muitos anos, só andou de botina, de preferência bem surrada. Para todo lado e em qualquer ocasião. Também adorava camisa quadriculada, com quadrados bem grandes. Com o tempo, foi ficando mais discreto. Quando viajamos para Europa pela primeira vez, ele queria levar as botinas velhas de qualquer maneira. Achei um ultraje levar as botinas, sabia que ele andaria com elas o tempo todo. Elas ficaram. Uma tarde, sentados num barzinho em Amsterdam, olhávamos as pessoas que passavam pela rua: cabelos azuis, piercings na testa e no queixo, roupas estranhas e mirabolantes. Passou um homem alto, bem negro, forte, vestido com um macacão apertado vermelho berrante, calçando galochas vermelhas e luzidias. Pedalava feliz e devagar uma bicicleta com bandeiras coloridas. O Zé não se conteve e falou em tom magoado: “-Tá vendo, e você não me deixou trazer as minhas botinas…”
Certa vez, querendo embelezá-lo, entrei em uma loja sofisticada e cara. Escolhi uma camisa de manga comprida, estampada de marrom claro e escuro, bem “fashion” – na época ele era reitor na UFU e precisava andar arrumadinho. Levou-a para participar de um encontro de reitores em Manaus e desfilou com ela por lá. Depois, num belo dia, estava ele andando no Campus Santa Mônica com a camisa. Encontrou uma velha amiga nossa, que disse espantada: “-Zé, você está muito pra frente, andando de camisa estampada com mulher pelada!” Ele ficou horrorizado, contou que era um presente meu, a amiga ficou mais escandalizada ainda. Chegou bravo em casa e jogou a camisa fora. Olhei-a com atenção, de diversos ângulos, e, surpresa! Tinha mesmo uma mulher nua estampada em toda a frente, com três flores em locais estratégicos, eu não tinha visto e nem ele! Pior, tinha uma nas costas também. Desisti de embelezá-lo.
De outra feita, fomos a um baile no Praia Clube. O cantor era filho do Altemar Dutra, aquele cantor famoso que possuia um vozeirão. O Zé comentou, após ouvir as primeiras músicas: -“Coitado, não chega nem aos pés do pai dele”. Música vai, música vem, no meio da festa, já no clima, o Zé falou: -“Sabe, esse cantor não é tão ruim assim”. No final da festa, depois de um bom vinho e muitas músicas, arrematou: -“Esse cantor é muito melhor que o pai dele”. É isso aí, na vida a gente se acostuma com tudo. É só uma questão de tempo.
E a gente vai envelhecendo junto. Esperando as rugas e as dentaduras. Como em uma propaganda de chocolate que assisti, onde dois velhinhos demonstravam grande amor um pelo outro. O velhinho comia com satisfação a barra de chocolate e a velhinha olhava, com vontade de comer o chocolate também. O velhinho passou metade da barra para ela, que fez uma cara de tristeza. Ele entendeu, tirou sua dentadura e a emprestou para a velhinha, que escancarou um maravilhoso sorriso desdentado.
Assim, por cinquenta e um anos, o Zé e eu caminhamos pela vida de mãos dadas. A estrada foi longa, cheia de percalços, mas conseguimos permanecer com os pés na mesma estrada, até o dia em que ele se foi. Que descanse em paz, junto ao Criador.