Ana Maria Coelho Carvalho – Educadora e escritora
Como escreveu Cora Coralina, nós somos feitos de retalhos, de pedaços coloridos de cada vida que passa pela nossa e que vamos costurando na alma. Nem sempre são felizes, nem sempre são bonitos, mas sempre acrescentam algo e fazem de nós o que somos. Em cada retalho, uma lição, um carinho, uma saudade, uma lembrança que nos torna mais pessoas, mais humanos, mais completos. E de retalho em retalho, tornamo-nos um imenso bordado de nós mesmos.
Na minha colcha de retalhos, os que mais gosto são os acrescentados pelas crianças da minha vida. São retalhos bem coloridos, divertidos e originais. Por exemplo, há um retalho acrescentado pela Lia, minha netinha que mora nos States. Ela é uma artista: faz desenhos e artes incríveis, combina as roupas como uma estilista, confecciona cartões lindos todo dia para o pai, enfeita a casa com bilhetes coloridos, faz toucas e cachecóis de crochê. Uma graça. Mas, quando ela perdeu seu primeiro dentinho de leite, foi uma confusão. No começo, com o dente bem mole, estava entusiasmada esperando a chegada da fadinha do dente que iria pegar o dentinho debaixo do travesseiro e trocá-lo por uma nota de cinco dólares. No entanto, quando a fadinha chegou na calada da noite e fez exatamente isso, Lia caiu em prantos na manhã seguinte. Queria o dentinho de volta para guardá-lo para sempre. Então, tentou cativar a fadinha. Fez uma espécie de altar para ela, com flores, guloseimas, bugigangas e escreveu uma cartinha (com alguns errinhos de inglês) pedindo o dentinho de volta. A fadinha aceitou.
Depois veio a confusão do terrário. Tudo começou quando estive lá e construímos nós três – ela, o irmão Enzo e eu- um terrário fechado para observar aranhas, minhocas, insetos, a formação da chuva e o crescimento das plantinhas. Eles adoravam coletar os animais e colocar dentro do terrário, mas Lia ficou com pena das minhocas, remexeu a terra e soltou todas. Antes, porém, fez uma casinha de folhas e barro para elas. Enzo ficou indignado.
O problema piorou no dia em que foram ao parque e encontraram um besouro bonito, grande e preto, de asas luzidias. O pai teve que carregar o inseto na mão por vários quarteirões. Lia não quis colocá-lo dentro do terrário; preferiu montar um local especial para ele, decorado com pedrinhas, flores e grama. O Enzo ficou bravo novamente.
A mãe foi apaziguar a briga e dar uma olhada no besouro, todo confortável no seu recanto florido. E, surpresa: na verdade era uma barata- e das grandes! Foi a vez de ela ficar brava e indignada com o marido, que nem conhecia uma barata e ainda levara uma para dentro de casa. Ele, por sua vez, ficou com nojo de ter carregado a barata na mão.
Lia caiu em prantos novamente porque não queria que matassem a barata. Depois que os ânimos se acalmaram, optaram por soltá-la no parque onde a haviam encontrado.
Minha outra netinha, Maíra, também é uma graça e sempre acrescenta retalhos coloridos à minha colcha. No almoço do Dia das Mães, estávamos quatro mães reunidas para tirar a foto clássica quando ela chegou rapidamente e se posicionou bem à frente do grupo para aparecer na fotografia. A turma, indignada, pediu que ela saísse, pois não era mãe . Ela respondeu que era uma futura mãe e não arredou pé. Foi, inclusive, a mais sorridente do grupo.
Enfim, parafraseando a poetisa, é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também. E nunca estaremos prontos e acabados, pois sempre haverá um retalho novo a ser acrescentado à alma.
Oxalá nossas colchas de retalhos fiquem bem bonitas e coloridas, com muitos retalhos acrescentados pelas crianças de nossa vidas.