Diógenes Pereira da Silva – Tenente do Quadeo de Oficiais da Reserva Remunerada da PMMG.
Nem tudo precisa virar discussão
Quando o diálogo vira imposição
As redes sociais, especialmente quando o assunto é política, se transformaram em um verdadeiro campo de batalha. Não de ideias, mas de egos. O que deveria ser debate virou disputa. O que deveria ser argumento virou ataque. E o mais preocupante: muita gente já não percebe mais a diferença.
Hoje, praticamente toda conversa acaba no mesmo lugar: política. Não importa o assunto inicial, cedo ou tarde ele descamba para direita contra esquerda, como se o mundo se resumisse a isso. Discordar deixou de ser algo natural e passou a ser tratado como afronta. Há uma necessidade quase obsessiva de vencer o outro, de impor a própria visão, de ter a última palavra.
Participo de grupos de mensagens e vejo isso de perto. Na prática, me tornei mais um observador. Não por falta de posicionamento, mas por excesso de desgaste. Há pessoas que não conversam, não escutam e não admitem a mínima possibilidade de estarem erradas. Para elas, o mundo se divide entre os que concordam e os que precisam ser combatidos.
E há um detalhe ainda mais incômodo: a repetição. Os mesmos discursos políticos, as mesmas frases prontas, todos os dias, como um eco infinito. A impressão é que pensar dá mais trabalho do que repetir. E talvez dê mesmo.
Nesse cenário, a frase de Arthur Schopenhauer soa menos como exagero e mais como constatação: “Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais”. Dura? Sem dúvida. Mas basta observar o comportamento de muitos para entender o desconforto que ela provoca.
A pergunta inevitável surge: por que permanecer nesses espaços? Porque é neles que as máscaras caem. É ali, no calor das discussões, que se revela o que muitas vezes ficou escondido por anos. E nem sempre o que aparece é agradável. Já me surpreendi. Já me decepcionei.
Ficar um dia longe de um grupo e voltar para centenas de mensagens, quase sempre sobre as mesmas discussões políticas, no mesmo tom, não informa, não agrega, não aproxima. Apenas desgasta.
Opinar é um direito. Mas transformar qualquer conversa em confronto político é uma escolha. E talvez esteja passando da hora de reconhecer o quanto essa escolha tem custado caro para o convívio, para o respeito e para a própria sanidade.