Ana Maria Celho Carvalho – Bióloga

Com a eliminação do Brasil pela Noruega, nesta Copa do Mundo de 2026, lembrei-me de um artigo divertido escrito por Roberto Pompeu de Toledo, publicado na revista Veja, sobre a Copa do Mundo de 2014. Com o sugestivo título “Conpozissão imfãtil”, o autor escreveu sobre essa Copa, como se fosse uma criança, uma menininha. Na época, fiz uma adaptação do texto desse autor, como se segue.

“O mundo é dividido em nações, que é o nome que tem os países, como o Brasil, o Japão. Quase nunca a gente percebe que o mundo é dividido em nações, porque aqui no Brasil só tem brasileiro, e a gente fica pensando que o mundo é como o Brasil. Mas, em Copas do Mundo, a gente percebe. Cada nação insiste em falar em uma língua diferente. Não sei porque todo mundo não fala português, que é tão fácil que até criança pequena fala, sem precisar estudar. Na Suíça e na Bélgica eles falam muitas línguas, além do suíço e do bélgico. Na hora do hino cada jogador canta numa língua e ninguém entende. Também no jogo, cada um fala com o outro numa língua, e isso é uma maneira de confundir o outro time, que não sabe o que eles estão combinando.

Cada nação tem uma camisa diferente. A melhor é a de um país chamado Croácia, onde vivem os croatas, que são pessoas que gostam muito de jogar xadrez. Por isso, a camisa deles é como um tabuleiro de xadrez, com quadradinhos brancos e vermelhos. A camisa da França é azul, e os jogadores são chamados de “azuis”, mas, na verdade, só a camisa é azul; eles são brancos ou pretos, como todo mundo.

As nações possuem bandeiras e hinos. Acho a bandeira do Brasil a mais bonita de todas, fora algumas, e muito bem feita para o futebol: tem o verde dos gramados, o amarelo da taça que o campeão vai ganhar e a bola. No meio tem uma faixa que, quando o Brasil é campeão, fica escrito “campeão” e, quando não é, fica escrito uma bobagem qualquer. Outras bandeiras são interessantes, principalmente para nós, meninas, como as que têm estrelinhas e outros desenhos. A mais engraçada é a da Argentina, que tem um solzinho com olho, nariz e boca. É uma bandeira amiga das crianças. Meu pai não gosta que eu torça para a Argentina, mas eu torço por causa do solzinho e não conto para ele.

Antes do jogo tem os hinos, e a televisão vai traduzindo. Aí eu tenho medo. O da França diz para os filhos formarem uns batalhões e atacarem os inimigos. Deve ser terrível viver na França. Lá tem inimigos que querem estrangular as crianças, e os franceses cantam essas coisas como se não fosse nada demais. Os ingleses também têm inimigos terríveis, cheios de truques maldosos, diz o hino deles, e eles juram que vão esmagar os inimigos. Nos Estados Unidos o hino explica que tem bombas e foguetes voando. Como os jogadores podem ser bonzinhos, depois de cantar essas coisas? Tem um que mordeu outro. Acho que foi pouco; coisas muito piores podiam acontecer.

Podia acontecer de morrerem, por exemplo. O hino da Itália pede para que todos estejam prontos para morrer, porque a Itália chamou. Como é que se pode chamar os outros para morrer? O do Uruguai pede para escolher a pátria ou o túmulo. O nosso, do Brasil, que eu prefiro, não dá para entender as palavras e, por isso, não ameaça ninguém. Mesmo assim, tem um pedaço que diz que a gente não teme a própria morte. A Fifa não devia deixar eles cantarem essas coisas. É um risco: no fim do jogo, o campo pode ficar cheio de mortos. Mas nossos jogadores cantaram sempre, todos, e choraram muito. Quem chorou mais, eu acho, foi o Thiago Silva. Aqui em casa até o meu pai chorou. Eu não. Tenho mais o que fazer.”

Enfim, doze anos se passaram desde a Copa de 2014. Mudaram os jogadores, mudaram os técnicos, mudaram os heróis e os vilões. Mas os adultos, antes de cada Copa, continuam pensando que o Brasil será o campeão. Depois da derrota, dizem que nunca acreditaram muito no time. Alguns choram, outros brigam, chamam o juiz de ladrão, prometem nunca mais assistir futebol. Mas a promessa dura somente até a próxima Copa.

Acredito que a menininha, dessa “conpozissão imfãtil”, olharia para os adultos com um sorrisinho de quem não entende tanta confusão, por causa de um jogo com vinte e dois jogadores correndo atrás de uma única bola. Daria de ombros e diria:

-“Perdeu? Que pena. Agora vou brincar. Tenho mais o que fazer”