Diógenes Pereira da Silva*
É cada vez mais difícil compreender certas posições da política brasileira sem perceber o enorme grau de contradição que domina o debate público. O problema já não está apenas nos escândalos ou acordos de bastidores, mas na incapacidade de muitos enxergarem a realidade quando ela atinge o grupo político de sua preferência.
Criou-se no Brasil uma lógica perigosa: não importa mais o fato ou a gravidade do erro, mas quem o praticou. Se for o adversário ideológico, exige-se punição exemplar. Se for alguém do próprio campo político, surgem justificativas, relativizações e silêncio conveniente.
A frase “votar no menos pior” virou símbolo do esgotamento político nacional. Não há virtude nisso. Ela apenas revela o nível de desesperança de um eleitor que já não escolhe projetos de país, mas tenta evitar aquilo que considera mais nocivo.
A realidade mostra que poucos escapam desse desgaste. Há nomes influentes da direita envolvidos em controvérsias e denúncias, assim como há inúmeros escândalos históricos ligados à esquerda. Fingir que a corrupção, o fisiologismo ou as contradições pertencem apenas a um lado é negar os fatos.
O mais preocupante é que o Brasil passou a discutir política como torcida organizada. O debate sobre gestão pública foi substituído por guerra ideológica permanente. Enquanto isso, temas essenciais seguem sem respostas consistentes: segurança pública, saúde, educação, infraestrutura e crescimento econômico.
Nesse cenário, o eleitor enfrenta uma tarefa cada vez mais difícil: encontrar candidatos que realmente apresentem projetos sérios e viáveis para o desenvolvimento do país, e não apenas discursos prontos para alimentar a polarização. Falta planejamento de longo prazo, metas concretas e compromisso verdadeiro com os problemas reais da população.
O Brasil precisa abandonar a lógica dos salvadores da pátria. Nenhum político deveria estar acima da crítica apenas por representar determinada ideologia. Democracia sólida se constrói com instituições fortes, fiscalização séria e uma sociedade capaz de cobrar coerência de todos, sem exceção.
*Diógenes Pereira da Silva
Tenente do Quadro de Oficiais da Reserva Remunerada da PMMG