Diógenes Pereira da Silva*
Escancara-se diante de nós uma constatação incômoda: o caráter tem sido tratado como detalhe, quando deveria ser fundamento. Na política, e também na vida social, a retórica muitas vezes substitui a responsabilidade.
Escândalos se repetem, erros são relativizados e a indignação coletiva se dissolve com rapidez preocupante. Mas é no futebol, território de paixão e identidade nacional, que a incoerência recente ganhou contornos ainda mais simbólicos e revoltantes.
Indigna profundamente a condução adotada no Clube de Regatas do Flamengo com a demissão do técnico Felipe Luís. Em meio a resultados consistentes, evolução tática visível e um ambiente competitivo estável, a ruptura foi abrupta e carente de justificativas técnicas convincentes. Sob a presidência de Rodolfo Landim, a decisão soou como manifestação clara de imediatismo e vaidade administrativa, desconsiderando planejamento, continuidade e respeito ao torcedor. Romper um trabalho promissor não é simples ato de gestão; é mensagem institucional.
O clube que deveria prezar por profissionalismo, optou por alimentar a instabilidade, fragilizando sua própria estrutura. O futebol moderno exige critérios objetivos, transparência e visão de longo prazo; quando prevalecem impulsos e pressões circunstanciais, o que se perde não é apenas um técnico, mas a credibilidade do projeto esportivo.
Preocupa perceber que tais decisões são absorvidas com naturalidade excessiva. A sociedade protesta por alguns dias e logo se acomoda, como se a falta de coerência fosse parte inevitável do jogo. Política, futebol e convivência social se entrelaçam porque refletem valores comuns.
Se o caráter deixa o campo, seja ele político ou esportivo, perde-se mais que partidas ou mandatos; perde-se confiança.
Resgatar responsabilidade e firmeza moral não é exagero retórico, é necessidade urgente para preservar instituições e honrar aqueles que nelas acreditam.
*Tenente do Quadro de Oficiais da Reserva Remunerada da PMMG
O