Diógenes Pereira da Silva

Nossos agentes da segurança pública estão adoecendo mentalmente.

Muitos afirmam que permanecer na Polícia Militar ou Civil é uma escolha individual. De fato, ninguém é obrigado a vestir uma farda. No entanto, essa leitura ignora fatores estruturais que tornam o exercício da função cada vez mais adoecedor.

A pressão diária, a exposição constante à violência, as jornadas exaustivas, as más condições de trabalho e o dogma institucional de que o policial deve ser sempre forte e invulnerável contribuem diretamente para o adoecimento psíquico desses profissionais. Isso não é opinião. É realidade.

A célebre frase “Ser ou não ser, eis a questão”, de William Shakespeare, dita pelo príncipe Hamlet ao refletir sobre a vida, a dor e o suicídio, ganha hoje um significado cruelmente atual quando aplicada à segurança pública brasileira.

Os números confirmam essa tragédia silenciosa. Em 2023, o Brasil registrou 118 suicídios de policiais. No mesmo ano, pela primeira vez na história, o número de policiais militares que tiraram a própria vida superou o de mortos em confrontos. Em 2024, dados preliminares indicam que o suicídio continuou sendo a principal causa de morte entre policiais civis e militares.

As taxas de suicídio entre profissionais da segurança pública são muito superiores às da população em geral. O silêncio institucional, o estigma em torno da saúde mental e a ausência de políticas públicas eficazes criam um ambiente que adoece, isola e mata.

Falar sobre isso não enfraquece a polícia. Ao contrário, fortalece a instituição ao reconhecer que, por trás da farda, existe um ser humano, com limites, medo e sofrimento.

Cuidar da saúde mental de quem protege a sociedade não é favor. É dever constitucional do Estado e responsabilidade direta dos gestores públicos. Ignorar esse adoecimento é uma escolha política. E escolhas políticas também matam.

Diógenes Pereira da Silva
Tenente da Reserva da Polícia Militar de Minas Gerais