Ivone Gomes de Assis – Editora e escritora

Sempre fui apaixonada pela tecnologia. Durante meus 15 anos de atuação no campo tecnológico, vi e ouvi coisas bizarras, com as quais eu me divertia. Por exemplo, certa ocasião, enquanto eu desenvolvia um trabalho perto de BH, uma bibliotecária já idosa, ao retornar de uma internação prolongada, causada por uma forte gripe, convocou-me a uma audiência particular, para que eu explicasse o mal causado a ela, uma vez que o médico, segundo ela, garantira-lhe que sua doença se tratava de uma contaminação por vírus, e o tal pestilento, afirmou ela, veio do computador que eu havia instalado em sua sala.
Por respeito à sua ingenuidade, “jurei” solenemente que tomaria as devidas precauções, e que resolveria o caso de imediato. Que ela me perdoasse pelo infortúnio, pois aquilo não voltaria a se repetir. Claro que não se repetiria, pois tudo era uma questão de tempo, até que ela perdesse o medo da novidade desconhecida e, assim, compreendesse o mal-entendido. Mas, por educação, bom senso e respeito, permiti que ela vivesse o processo, a fim de compreender, por si, a evolução. No amanhã, quem sabe serei eu passando por um processo similar? Tudo muda a todo instante.
Agora, da pandemia para cá, a humanidade está de namoradinha nova, e só se fala nessa musa inspiradora, a senhorita I.A. Como escreveu nosso saudoso sonetista português Luís Vaz de Camões (1524-1580), “Amor é fogo que arde sem se ver, /é ferida que dói, e não se sente; /é um contentamento descontente, / é dor que desatina sem doer. //[…] /é um andar solitário entre a gente; /é nunca contentar-se de contente; /é um cuidar que ganha em se perder. //É querer estar preso por vontade; /é servir a quem vence, o vencedor; /é ter com quem nos mata, lealdade…”.
É nessa paixão ardente que vejo agora o novo surto tecnológico, em que mídias e pesquisadores se perdem no encantamento, anunciando que a inteligência artificial é a companheira de solitários, que robôs inteligentes combatem a solidão… e outros desvarios. Se de um lado a comunidade científica procura imputar aceitação de sua brilhante criatividade, e do outro a mídia batalha para angariar público em sua audiência, havemos de pensar na “terceira margem do rio”, em que a mente humana processa as ondas em diferentes tempos e formatos. Então, o que é incrível para um, é crível para o outro, e pode ser psicose para alguns extraordinários, por isso é necessário cautela nas palavras e ética na política tecnológica.
A solidão é fruto de um vazio de si, e não se contenta com um preenchimento de I.A., ao contrário, a artificialidade remete a uma ansiedade, uma expectativa inalcançável, cuja frustração pode levar à morte. A exemplo temos Sewell Setzer, um garoto americano que se apaixonou por uma personagem virtual, chegando ao ápice da loucura, quando tirou a própria vida. A solidão de Sewell se agravou com o “alucinógeno tecnológico”, promovendo uma tragédia que poderia ter sido evitada com diálogos, terapias, companhia de amigos, brincadeiras de criança, conversas ao redor da mesa… A culpa não se aplica a A ou B, e sim, ao sistema social. Temos uma sociedade gravemente adoecida.
O poeta americano Eugene Field (1850-1895), em sua literatura infantil, convida a conversas com os brinquedos. Em 1889, escreveu: “Acredite em mim, por todos aqueles encantos antigos e cativantes. […] criei uma coleção de malucos que são ridicularizados. […] até que a Fortuna me reajuste […] por minhas histórias e minhas rimas, você ainda continuará a confiar em mim”.
Ainda, em seu poema “Os brinquedos do menino”, Eugene Field diz: “O cãozinho de madeira, coberto de poeira, /Ainda está de pé, firme e forte. //Com o azul embolorado, o coitado do soldado /Não teve a mesma sorte. /[…] na estante do quarto os guardava. /”Não se mexam até eu voltar; /[…] E na poeira, enquanto passam os anos, /Perguntam, de si para si, /Por onde andará o menino risonho /Desde o dia em que os guardou ali”.
A vida é feita de emoções, com suas duas faces da moeda.

Publicado no Jornal Diário de Uberlândia, Coluna Literato (assinada por Ivone Gomes de Assis), em 23/01/2025.