Diógenes Pereira da Silva*
O Brasil Ainda Reage ao Crime, Mas Não o Enfrenta: Reflexões a Partir do Anuário de Segurança Pública 2025
O Anuário de Segurança Pública 2025 apresenta um retrato que combina avanços pontuais com um conjunto de desafios que continuam a colocar o Brasil entre os países mais violentos do mundo. Embora alguns indicadores mostrem melhora, a leitura do panorama geral revela que o país ainda opera de forma reativa, fragmentada e incapaz de construir políticas de segurança verdadeiramente modernas e preventivas.
A queda de 5,4% nas Mortes Violentas Intencionais é, sem dúvida, um dado relevante. Trata-se de uma redução que impacta diretamente milhares de famílias e que deve ser reconhecida. No entanto, esse avanço não consegue compensar o crescimento de outras modalidades criminais que exigem respostas mais sofisticadas. Em outras palavras: o país registra menos mortes, mas convive com crimes cada vez mais complexos e difíceis de enfrentar.
Entre esses crimes, destacam-se os delitos digitais, que cresceram 7,8% e demonstram a incapacidade do Estado brasileiro de acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas. Paralelamente, o aumento de feminicídios, que chegaram a 1.492, e o alarmante número de mais de 87 mil estupros, muitos deles cometidos contra crianças e dentro do próprio núcleo familiar, escancaram a fragilidade das redes de proteção e a insuficiência de políticas efetivas para combater a violência de gênero e a violência sexual infantil.
Outro dado que merece reflexão é o aumento das apreensões de drogas. Embora esse indicador costume ser interpretado como sinal de eficiência, ele não se traduz em redução do tráfico ou do consumo. A política de drogas no Brasil segue baseada em ações pontuais, sem integração entre prevenção, repressão qualificada e políticas sociais. Enquanto isso, o sistema prisional continua superlotado, desigual e dominado por facções que se fortalecem justamente pela ausência de um projeto sério de ressocialização.
A violência nas escolas, que também registrou crescimento, reforça a sensação de que espaços historicamente vistos como ambientes seguros estão cada vez mais vulneráveis. Esse fenômeno não pode ser lido apenas como reflexo da criminalidade externa, mas como resultado direto do enfraquecimento das estruturas educacionais, familiares e comunitárias.
Diante desse cenário, o país permanece preso a um modelo de segurança pública que privilegia ações emergenciais, operações midiáticas e decisões improvisadas. O Brasil continua enxugando gelo porque ainda não entendeu que segurança não se faz apenas com viaturas, aumento de efetivo ou endurecimento penal. Faz-se com inteligência, integração entre os entes federativos, investimento contínuo em tecnologia, fortalecimento das investigações e políticas de prevenção que dialoguem com as realidades locais.
Os dados do Anuário de 2025 deixam claro que não basta diminuir mortes violentas se continuarmos convivendo com crimes que avançam silenciosamente, alimentando um ciclo permanente de vulnerabilidade e sofrimento. Se o Brasil deseja, de fato, transformar seu cenário de segurança, precisará abandonar o improviso e construir políticas públicas de longo prazo, baseadas em evidências, e não em discursos fáceis.
O Anuário de Segurança Pública 2025 é um alerta. Ele nos mostra que o país progride, mas não avança; reage, mas não previne; registra números, mas não resolve problemas. A escolha entre repetir os erros do passado ou inaugurar uma nova cultura de segurança pública não é técnica, é política. E dela depende, em grande medida, o futuro de milhões de brasileiros.
*Tenente da Reserva Remunerada PMMG – Graduado em Segurança Pública pelo Centro Universitário do Triângulo – Pós Graduado em Gestão de Pessoas.