Leandro Grôppo – Publicitário
É lugar-comum dizer que o Brasil está polarizado entre petistas e bolsonaristas. Essa divisão beneficia os polos que a compõe e facilita a disputa ao alimentar as narrativas opostas. Mas também simplifica a “análise” dos precipitados que cravam não haver espaço para outros discursos, seja por desconhecimento, falta de visão estratégica ou até interesses próprios.
Por ser útil para muitos, em especial aos candidatos a cargos legislativos, que se beneficiam dos algoritmos das redes, os extremos se retroalimentam propositalmente para reduzir a decisão. Ou você é a favor ou é contra, sem lugar para alternativas. Mas será mesmo? Analisando diagnósticos recentes é possível afirmar que não.
Pesquisa aprofundada realizada pela More in Common, inédita no Brasil, aponta que a polarização política no país, hoje, é menos acentuada do que alguns sugerem. O estudo segmentou a sociedade brasileira em seis grupos e revelou que os extremos do debate político são dominados por agendas específicas, na direita e na esquerda, que representam 11% dos brasileiros. São a minoria, mas os mais barulhentos.
E enquanto outros 21% são “conservadores tradicionais” e 14% “esquerda convencional”, a maioria, 54%, se mantêm afastados da política e raramente participam de debates públicos. Esses brasileiros “invisíveis” não se reconhecem nem na direita nem na esquerda, e preferem se manter distantes da polarização. A maioria dos brasileiros não milita, não se identifica com rótulos e evita o conflito. Essa desmobilização não é uma despolitização, mas um afastamento da política atual. Votam, mas raramente se envolvem em discussões que dominam as redes sociais e os noticiários. Formam a maioria silenciosa, cansada do embate ideológico da minoria escandalosa.
Ao mesmo tempo que os extremos travam batalhas em torno de temas como gênero, costumes e liberdade de expressão, a maioria se preocupa com questões práticas e imediatas: saúde, insegurança e custo de vida. E é justamente nesse vácuo que outras candidaturas podem surgir e crescer. Para tanto, não basta falar o mesmo que outros falam, nem adianta repetir formas que outros já usaram.
Em um ecossistema saturado de personas fabricadas, vídeos meticulosamente elaborados e discursos que soam todos iguais, a maioria busca por qualidades pessoais raras ultimamente: quem não imite os símbolos do poder, mas sim os construa, rompendo padrões a partir da realidade cotidiana com autenticidade e pertencimento. Partidos e candidatos que entenderem isso, poderão ocupar o espaço que existe e (ainda) está em aberto.
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