Ana Maria Coelho Carvalho*

Adoro livros. Comecei na infância com “Lalau, Lili e o Lobo” e fui progredindo. Recentemente, li “Casos de Minas”, de Olavo Romano. Bom demais, com casos acontecidos nas pequenas cidades de Minas e na roça. Tem histórias de alma penada, de pirraça de marido velho com a mulher “cobra caninana”, de casal apanhado na moita de bambu, de benzeção pra curar cobreiro e vento virado, de dedos de prosa na varanda, de moça fugindo pra casar, de parto encruado.

Casos como o do Mestre Rufino, que ensinava música para a Maricota, que não conseguia entender o que significava “o sustenido eleva meio tom”. Ela abandonou o curso na síncope, uma lição antes das três quiálteras, foi aprender a cozinhar. A história da Doralice, apaixonada pelo Zico, que escreveu para ele uma cartinha, terminando assim: “atirei um limão verde na porta da sacristia; deu no ouro, deu na prata, deu no moço que eu queria”. O caso do Chico Lourenço, homem de rompante, que levou a vida berrando e criou os dois filhos no grito: o Chiquito, que vivia caçando encrenca e rabo de saia e o Luiz, que vivia a vida sem pressas e sem aventuras. Do médico cansado e dedicado, tratando do povinho sem recurso que pagava com frango, arroz e ovo. E quando o tratamento era caro, pagavam com porco. Do Quinzinho, contando a morte da Bebeca, sua esposa, que, quando acordou, estava morta. Depois disso, viveu triste e desacorçoado.

Há no livro trechos com cenas bucólicas, como: “um carcará pia atrás da casa, um carrapateiro pousa no barracão, uma vaca berra, o bezerro responde no curral, o sol se esconde atrás da moita de bambu”. E também ditados sábios, como “em festa de nhambu, jacu não entra”; “galo que canta fora do terreiro, é defunto certeiro”; “fica bobo na praça, que o tamanduá te abraça.”

Além disso, trechos divertidos mostrando a fala dos mineiros que juntam tudo e engolem letras. O “devogado” Washington, conhecido como Osto; o John Kennedy, chamado de Tião Quêmis; a festa do Mártir São Sebastião, abreviada para Mar Sonsabastião.

O dicionário mineirês-português, que circula na internet, aborda a prosa dos mineiros. Por exemplo, o significado de “prestenção: é quâno eu tô falano iocê num tá ovino”; “isturdia: ôtru dia”; “Jisdifora: cidade pertim do Ridijanero”; “sapassado: sábado passado”; “oipocêvê: óia procê vê”. E por aí vai. Fico é com pena do meu genro americano, que anda tentando aprender português. Se o português já é difícil, imaginem misturado com o mineirês. Um dia, o meu filho, mineiro da gema, apressando o pessoal que enrolava para sair, falou: “ôu, cês vai ou cês num vai?”. O genro respondeu prontamente: “eu vai”. Pra piorar, a filha argumentou que os dois precisam falar em português com o filho deles. O genro disse, com sotaque carregado, que então só podia falar as palavras que aprendeu aqui: nossa! credo! trem e uai. Pra quem não sabe, nossa é o mesmo que “nóoo e vem de Nóoosinhora”; “uai é uai, sô’; e “trem qué dizé quarqué coizz qui um mineirim quizé”. Exemplo: “já lavei us trem”, “nóoo, qui trem bão!!”
Só sei que ser mineiro é “bãodimais”.

*Bióloga

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