Ana Maria Coelho Carvalho*

Tenho uma casa de aluguel e resolvi colocá-la na imobiliária, para evitar desgaste com os inquilinos. Só que eu não sabia da existência do gato preto.
Acontece que ela foi alugada para inquilinos que possuem dez gatos: brancos, marrons, malhados, pretos. Gatos no sofá, no muro, na sala, no quintal, na cozinha. Tudo bem se eles ficassem por ai. Mas o problema era o gato preto. Não porque dizem que gato preto dá azar, mas porque toda noite o felino saia sorrateiro, lépido, pisando macio, corpo elástico, olhinhos verdes brilhando no escuro. Ia atormentar a vizinhança. Entrava na cozinha da D. Tetê (nome fictício, para proteger a personagem) e atacava a comida de quatro gatos filhotes, indefesos perante a audácia do gatuno que, além de tudo, ainda batia neles. D. Tetê, indignada, foi reclamar com a vizinha, minha inquilina.
O gato preto, alheio a tudo, continuava suas peregrinações, ora na casa da D. Tetê e ora na casa de uma amiga minha, onde batia no Toninho e na Princesa, seus gatos de estimação. Como se não bastasse, ainda subia no fogão e comia nas panelas destampadas, lambendo os beiços. Minha amiga passou a deixar a cozinha fechada, mesmo quando o calor estava insuportável. Culpa do gato preto.
Um belo dia, D. Tetê veio na minha porta. Desfilou um rosário de lamentações sobre as traquinagens do felino. Queria providências imediatas, até pensei que teria um ataque cardíaco ali mesmo. Sugeri encurralar o gato na cozinha, colocar num saco e soltar bem longe (fazer o que?). Ela ficou estupefata com a sugestão, disse que eu não sabia como era perigoso um gato encurralado. Até me ofereci para ajudar, mas não chegamos a nenhum acordo. E eu, como bióloga, jamais poderia sugerir algo mais drástico.
Depois, passeando com minhas cachorrinhas (que, felizmente, nunca foram atacadas pelo malvado) encontro-me com a D. Tetê. Ela me pergunta o que vou fazer. Sem saída, prometo-lhe que vou telefonar para a imobiliária e reclamar dos inquilinos. Ligo e conto o caso do gato. A atendente ri da história, fala que nunca receberam reclamação deste tipo. Promete consultar o departamento jurídico. Enquanto isso, o gato preto, gordo de tanto atacar a comida alheia, continua atormentando.
Em uma manhã, indo buscar pão quentinho na padaria, vejo o gato preto estendido na beirada do passeio, morto. Mortinho. Sem nenhum arranhão, sem sangue, sem tripa pra fora, sem nada. Os pelos brilhando, olhinhos fechados, patinhas encostadas umas nas outras, bem arrumadinho. Abismada, meu primeiro pensamento foi: -“A D. Tetê matou o gato!”
Chego em casa, conto o acontecido. Minha amiga liga dizendo que o gato preto morreu. A D. Tetê toca o interfone e pergunta se já sei da novidade. Olho bem para ela, tentando decifrar seus pensamentos. Os olhos estão marejados, a voz entrecortada. Não, não pode ter sido ela, a não ser que seja uma excelente atriz. Mas olhos marejados como, se detestava o gato?
A vizinhança passou a fazer especulações. Teria sido o gato preto envenenado na calada da noite, com veneno de rato? Teria levado uma paulada ou uma pedrada? Ou foi atropelado por um motoqueiro distraído? Por um carro desgovernado? Mas como foi parar no passeio, assim tão arrumadinho? Mistério.
Sei que o gato preto se foi. Mas não sei se deixou saudades.

*Bióloga – anacoelhocarvalho@terra.com.br

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