Mariù Cerchi Borges*

O escritor italiano Giovani Sartori, no seu livro “HOMO VIDENS” faz um minucioso estudo das influências maléficas dos meios de comunicação, mais especificamente da TV, sobre as esferas mentais do pensamento humano.
Com o objetivo não apenas de chamar a atenção, mas também chocar pais e educadores, ele chega ao extremo de afirmar que os efeitos danosos da TV na mente humana seriam capazes de provocar até mutações na própria natureza, ou seja, de criar um novo “antrhopos”, isto é, uma nova espécie de ser humano. Reconhecendo ser inevitável conter tais influências, o autor reforça o argumento de que o homem está perdendo a capacidade de conceber idéias claras e precisas precipitando-se na direção do que ele chama de pós-pensamento.
Preocupado com a hegemonia da imagem que subverte a relação entre o ver e o entender, e mais, admitindo até que o ver está atrofiando o entender, o autor mostra que a geração televisiva dos dias atuais, se coloca frente a um televisor antes mesmo de saber ler ou escrever. Indo um pouco mais além, Satori acredita que a TV esteja criando um homem que não lê, que revela um alarmante entorpecimento mental, um “molóide” criado pelo vídeo. Assim, a TV estaria produzindo imagens e apagando conceitos. E, conforme sabemos, a capacidade de formar conceitos resulta de processos mentais dedutivos, construídos pelo aprofundamento e árduo esforço da mente humana. O uso apenas do estímulo visual, ou seja, das imagens, anula o processo intelectivo da formação de conceitos, trazendo como resultado, o surgimento de uma sociedade de idiotas cujas decisões tanto a nível pessoal como político e social ficariam sujeitos aos comandos vindos da “telinha”. Seria, no seu modo de ver, a substituição, na mente humana, do Homo Sapiens (homem simbólico/razão) pelo Homo Videns (homem imagem/visão). Observa, ainda, o assustador aumento de mentes débeis “justamente por darem de cara com um público que nunca foi treinado para pensar”. Considera que, premiando e promovendo a extravagância, o absurdo e a insensatez, a TV esteja contribuindo para fortalecer e multiplicar o “Homo Insipiens” (idiota) visto que “os meios de comunicação, e, sobretudo a TV, são geridos pela subcultura, por pessoas sem cultura”. Ressalta que as culturas (povos) mais adiantadas, assim o são, por lidarem com uma linguagem abstrata que os capacita ao conhecimento analítico-científico.
Exageros à parte considero extremamente importante, da parte dos pais e educadores, um olhar reflexivo sobre o tempo de exposição da criança frente ao vídeo, bem como e, principalmente, sobre a natureza dos programas escolhidos acompanhando, criteriosamente, as formas como as mensagens estão sendo assimiladas e decodificadas pelas crianças. Até mesmo os “inocentes” desenhos animados precisam passar por rigorosa observação. A TV não é de todo má, no entanto, poderá tornar-se extremamente danosa se não favorecer o desenvolvimento da capacidade crítica frente à programação que está oferecendo. Há canais que exibem programas bons com conteúdos educativos e culturais, bastando a cada um fazer a filtragem e estabelecer critérios sensatos na escolha da programação a ser assistida. A culpa de tantos danos morais e intelectuais advindos do uso indiscriminado da TV pode ficar creditada muito mais na falta de critérios seletivos dos telespectadores do que mesmo na TV.
Costumo lembrar uma frase que ilustra, no meu modo de ver, o que Sartori pretendeu mostrar em seu livro: “Assim como o olhar do observador perturba o objeto observado, a mediocridade do objeto observado pode mediocrizar o olhar do observador”.
Trata-se, sem dúvida, de uma questão séria que merece uma reflexão sensata e menos apaixonada sobre o referido tema.
Com o aumento de programas abaixo da crítica oferecidos pelas nossas TVs, nunca foi tão oportuno pensar sobre isso.

*Educadora – Uberlândia – MG

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