Gustavo Hoffay*

De repente me vi caridoso, mas não me perguntem exatamente quando…….Certo é que um dia amanheci e percebi uma linha que demarcava o que era meu dever de executar e o que não era; o que eu fazia mecanicamente e o que eu deveria realizar com afeto. E veio-me à memória o Estado que, por obrigação legal, tem a tarefa de agir incisivamente nessa seara e de maneira a aliviar o sofrimento de quem não teve a oportunidade de progredir social e economicamente e que, muitas vezes por isso, vive à margem da sociedade produtiva. Mas onde, nessa relação “povo-poder público”, o genuíno sentimento de dar e receber com alegria, sem qualquer interesse escuso e o qual pudesse, até, humilhar quem recebe? Entendo por caridade uma entrega total, gratuita e irrestrita a alguma causa em favor de alguém que passe por alguma necessidade. Quando assisto a grandes campanhas televisivas, envolvendo artistas famosos e tidas por caritativas, entendo tal ato muito mais como a uma ofensa aos mais humildes e justamente por diminuir em muito a solidariedade como essa, de fato, deve ser entendida. Pessoas ou empresas que fazem-se de “farol” enquanto promovem “fanfarronices” quando promovem alguma campanha em prol de pessoas carentes, de certa maneira cometem uma ofensa por diminuir nos beneficiários o sagrado direito de serem assistidos pelo Estado. Francamente…Muitas são as empresas e pessoas que têm a capacidade de fazer o bem, mas são poucas aquelas que o fazem de maneira silenciosa e sem alardes publicitários com a finalidade precípua de promoverem-se. Doações a carentes não podem ser entendidas como a esmolas ou sentidas com orgulho e enquanto aliviam o indigente apenas momentaneamente mas, sim, como efetivação ou instauração da justiça e onde aquele necessitado sinta-se momentaneamente abraçado pela comunidade até que a mesma, por meio das suas autoridades, ponham as suas mãos à raiz do mal e, mediante sábias reformas, diminuam as causas da miséria pública. Estamos fartos de observar ações e ouvir discursos nas tribunas das assembleias que não atingem, de fato e no tempo oportuno, resultados satisfatórios em prol do resgate da dignidade dos mais necessitados, mas por outro lado sabemos que existem pessoas que sobem os degraus da casa do pobre, ficam à sua cabeceira, oferecem-lhe cobertor e alimento e arrancam-lhe, na efusão de uma conversa amiga, o segredo de seu coração desolado. Trabalhemos sempre por um mundo menos faroleiro e mais humilde em prol de amenizar-se a miséria alheia e sair à procura de medidas sérias e suficientes para levarmos consolo e esperança a muitas pessoas. A dignidade das mesmas é e sempre será contrariada enquanto as obras assistenciais ao seu favor forem unicamente estatizadas, mecânicas, sem alma. Um exemplo disso foram alguns programas assistenciais lançados no governo petista, estatizando obras de assistência social que nunca bastaram para prover a indigência de milhões de nossos conterrâneos. Onde, pergunto, a alma caritativa dessas iniciativas de cunho unicamente eleitoreiro? Infelizmente mais inundações, desabamentos, desemprego, seca e outros flagelos continuarão a ocorrer em solo brasileiro e, em consequência, sempre resultarão em órfãos, doenças, pessoas mutiladas, fome, anciãos desamparados. Por mais bem intencionado que seja, qualquer governo jamais irá evitar as misérias e as dores decorrentes de flagelos diversos. E, para dar aos necessitados de socorro o devido remédio, será sempre necessária a abnegação generosa que as leis do Estado não conseguem obter, mas que o amor a Deus e a caridade cristã podem suscitar. O próprio Jesus quis acautelar o mundo contra a ilusão de que um dia o gênero humano, esmerando-se em conquistas científicas e técnicas, conseguiria extinguir as condições de vida dos indigentes: «Pobres, sempre os tereis convosco» (Mt 26,11). Dizendo isto, o Senhor fazia eco a uma palavra ainda mais explicita do Antigo Testamento: «Jamais deixará de haver pobres nesta terra. Por isto dou-te o preceito: hás de abrir a mão ao teu irmão, àquele que é humilhado e indigente no teu pais» (Dt 15,11). Portanto, aos governos cabe a tarefa de fomentar e garantir, por suas leis, o bom êxito desses esforços, nunca, porém, a de monopolizar ou «estatizar» todas as obras de assistência social, pois a justiça e a força das leis, sem o dinamismo da caridade, deixam de ser valores humanos, e tornam-se algo de mecânico e estéril; reciprocamente, a caridade não orientada pela lei ou pela justiça corre o risco de se desviar, cedendo ao individualismo e à covardia.

*Presidente Conselho Curador da Fundação Frei Antonino Puglisi
Uberlândia-MG

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