Vigorosa reação democrática

Cesar Vanucci *

“Ninguém fechará esta Corte.”
(Luiz Fux, presidente do STF)

Sua Exa., presidente Bolsonaro, desperdiçou chance magnífica para comunicar ao povo seus planos para enfrentar a avalanche de problemas que sacode o país. Os olhares da nação estiveram focados nos pronunciamentos de 7 de setembro. A frustração popular foi descomunal.

Não se ouviu do mandatário a mais leve alusão a qualquer uma das questões que enchem de sobressalto os lares. Nada se falou sobre a “gripezinha” que já matou 600 mil, contaminou mais de 20 milhões e expôs a fragilidade do governo numa crise humanitária. Nada se disse a respeito da inflação que anda roçando dois dígitos, ou sobre a expansão avassaladora das multidões de despossuídos sociais, patrícios despojados de acesso a padrões mínimos de bem-estar. Nadica de nada se comentou a respeito das filas nas portas das empresas, à cata de oportunidades de trabalho que garantam renda para sobrevivência de milhões. Sobre a crise hídrica e energética e as alterações tarifárias dela decorrentes, sobre as ameaças de apagões ou racionamento, coisa alguma também foi registrada. Idem, idem, com a mesma data, quanto às devastações florestais que tanto desgastam a imagem do país no exterior. Não se ouviu patavina sobre os custos insuportáveis dos gêneros de primeira necessidade. Nenhuma palavra foi dedicada à incessante escalada de preços dos combustíveis, nem tampouco dos medicamentos.

Outros momentosos assuntos, sob foco constante nas preocupações das ruas, foram, pela mesma forma, solenemente ignorados. O Brasil real ficou consideravelmente distanciado da fala de seu dirigente maior em eventos supostamente organizados com o fito de celebrar o “Dia da Pátria”.

A sociedade não ouviu o que queria ouvir. Mas teve que escutar uma saraivada de afirmações chocantes, que não desejava, de maneira alguma, escutar. Esbravejante, utilizando belicosidade incompatível com a dignidade de suas funções, trazendo para o palanque clima tenso, impróprio até para comício político, quanto mais para uma celebração de caráter cívico, o presidente alvejou em cheio as instituições democráticas. Extrapolou em demasia os limites das amplas prerrogativas correspondentes ao cargo. Gerou no seio da opinião pública perplexidade e inconformismo. Atraiu reações em todos os segmentos da vida nacional.

Emblemático assinalar que das concentrações de que participou, em Brasília e São Paulo, ambas convocadas por seguidores, muitas pessoas, pertencentes com certeza a alguma “variante tupiniquim” do “coronavírus talibanista”, carregavam cartazes e faixas de inocultável teor antidemocrático. “Pediam”, extravagantemente, “em nome da democracia”, entre outras absurdidades, “o fechamento do Supremo Tribunal Federal”, a “prisão dos ministros”, o “fechamento do Congresso” e “a volta do AI-5”…

Um coral vigoroso de protestos se fez ouvir, imediatamente, em todos os rincões do país, em contraposição ao descabido procedimento do ocupante do Planalto. As manifestações dos ministros Luiz Fux, presidente do STF, e Luiz Roberto Barroso, presidente do TSE, do jurista Celso de Mello, até recentemente decano da Alta Corte, dos presidentes da Câmara dos Deputados e Senado, dirigentes políticos e de organizações representativas de setores influentes na lida comunitária, deram o tom do geral desagrado da Nação quanto ao que aconteceu.

O brado retumbante que ecoou nos céus da Pátria projetou inquestionável fidelidade aos sagrados valores democráticos e republicanos, por parte da esmagadora maioria da gente brasileira.

Oxalá o “mea culpa” do presidente, nascido de um entendimento com o ex-presidente Michel Temer e estimulado por vários de seus correligionários, traduza disposição sincera de mudança de rumos no gerenciamento das questões pendentes, relacionadas com seu mandato constitucional.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Francisco em Santa Cruz de La Sierra

José C. Mattelli*

Vamos transcrever tópicos dos comentários feitos por Frederico Mazzucchelli sobre o discurso feito pelo Papa Francisco em Santa Cruz de La Sierra, em 09.07.2015, seja por sua grande atualidade, seja como homenagem do blog ao Papa cujas palavras não tiveram, na grande mídia, a repercussão que deveriam ter.

Será o Papa um denunciante banal?

É manifesta a preocupação do Papa com o destino dos deserdados e excluídos: “reconhecemos que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas em sua dignidade”. Os “mais elementares direitos econômicos, sociais e culturais” são negados “a milhares de milhões de irmãos”. Para o Sumo Pontífice, um sistema que promove tamanhas “situações de injustiça (de) que padecem os excluídos de todo o mundo (…) atenta contra o projeto de Jesus”.
Não é possível contrariar os fatos. Salta a olhos vistos a gravidade da situação social por todo o mundo. Não se trata apenas dos desempregados, subempregados, despossuídos ou precariamente ocupados da Bolívia, a quem o Papa dirigiu suas palavras. Nos Estados Unidos (sim, nos Estados Unidos!), na América Latina, na Europa Central e do Leste, na Europa Ocidental, na Ásia ou na África é flagrante a degradação das condições de vida por todo o mundo. Quer na Colômbia, na República Dominicana, na Jamaica, na Irlanda, na Grécia, em Portugal, na Eslováquia, na Espanha, na Bósnia, na Hungria, na Sérvia, na Letônia, na Turquia, no Irã, na Jordânia – para mencionar apenas alguns países – as taxas de desemprego são superiores a dez por cento e, em certos casos, superiores até a vinte por cento. O drama dos africanos que morrem no Mediterrâneo buscando chegar à Europa é uma ofensa aos mais elementares sentimentos humanitários. É importante sublinhar que se assiste, hoje, à marcha de um processo regressivo. Existe uma indiscutível deterioração das condições de vida, emprego e trabalho por todo o mundo. É essencial repudiar a constatação simplista, cínica e resignada de que “sempre foi assim”. Não é verdade: a piora das condições de emprego e trabalho é correlata às transformações da economia capitalista a partir da desorganização dos anos 1970. O colapso das normas de cooperação e solidariedade forjadas no pós-guerra (o chamado “consenso keynesiano”) e a reentronização da lógica pura e dura dos mercados produziram impactos avassaladores sobre o equilíbrio das sociedades. A recente crise de 2007-8, cujos efeitos ainda não foram dissipados, tornou o quadro social apenas mais deprimente.
Não, o Papa não é um denunciante banal!

*Advogado e professor – Espírito Santo do Pinhal – SP

O cola rato

Ana Mara Coelho Carvalho*

Tudo começou quando encontrei um camundongo nadando na vasilha de beber água da Mel, a nossa cachorrinha yorkshire. O mamífero roedor, da espécie Mus musculus, com dentes incisivos desenvolvidos, orelhas e caudas longas, pelos cinzentos e macios, tentava desesperadamente subir pelas paredes escorregadias. Olhando a cena, fiquei num terrível dilema: matar o camundongo (ratinho), salvá-lo, fingir que não vi nada, chamar a Mel para estraçalhar o roedor, esperar até ele morrer afogado. Vendo que era valente e esforçado e pensando no bem que presta à ciência como cobaia de laboratório, resolvi salvá-lo. Coloquei a vasilha na poltrona do carro e fui devagar até um terreno baldio, que já deveria mesmo estar cheio de ratos, mais um não faria diferença. A cada solavanco, a água mexia e o ratinho quase saia (se saísse, poderia me dar umas mordidas, transmitir doenças ou eu poderia trombar o carro quando atacada). Joguei a água com o ratinho no chão e ele saiu correndo, rápido e encharcado.
Teria sido uma história com final feliz, se não tivessem aparecido vários outros ratinhos na cozinha (provavelmente vindos de um lote vago perto de casa) e se eu não tivesse contado o episódio para o Zé, meu finado marido. Ele tinha nojo, asco, aflição, medo, pavor, histeria, repulsão e repugnância por ratazana (Rattus norvegicus), rato (R. rattus) e camundongo (Mus musculus), qualquer espécie. Ficou chocado por eu ter salvado o ratinho. Depois disso, a cada dia surgia outro na cozinha, correndo para debaixo do fogão e desaparecendo como por encanto. A Mel, a cachorrinha, entrou em desespero. Latia sem parar e passava noite e dia de tocaia, olhando debaixo do fogão e da geladeira. O filho adolescente e os netos também faziam plantão, quietinhos na cozinha, esperando os ratinhos, armados com vassouras e rodos (até acenderam o forno, para ver se torravam os pequeninos e nada). Conseguiram, com ajuda da Mel, desentocar e matar três, a pauladas, uma carnificina.
Com tudo isso, o Zé foi ficando estressado. Um dia saiu e voltou com um arsenal de pegar ratos: uma ratoeira, uma gaiolinha incrementada com um fundo falso (que abaixava quando o ratinho ia comer a isca) e um cola rato. Esse último era genial: um papelão dobrado, “made in China”, com instruções de uso e desenho de um rato enorme, com bigodinhos salientes. Dentro, uma cola poderosa, grossa e amarela (conforme descobri, colava tudo mesmo: mão, sapato, cachorro, rato). O papelão deveria ser colocado aberto no caminho dos ratinhos, de preferência com isca de queijo ou banana. Os roedores, quando passassem por cima, ficariam grudados na cola. O arsenal foi todo montado e ficamos aguardando os resultados.
A ratoeira e a gaiolinha não funcionaram, os ratinhos pressentiam o perigo e nem se aproximavam. Mas o “cola-rato”, colocado debaixo do fogão, grudou um ratinho. Ele esperneou, o papelão veio pra frente, a Mel terminou de puxá-lo com as patinhas, pulou no papelão, abocanhou o ratinho e ficou presa. Quando vi a cena, quase desmaiei, mas fui acudir. Depois de muitos gritos (meus), latidos (da Mel) e grunhidos (do ratinho), consegui desgrudá-la, mas os lindos e sedosos pelos do lado esquerdo do corpo ficaram na cola. O ratinho foi pro lixo e a Mel foi tosada.
Bem, contei toda essa tragédia para ajudar, com essa experiência, as pessoas que talvez passem por uma invasão de ratinhos. Usem o cola rato, é eficiente e custa barato, mas retirem gatos e cachorros de perto.

*Bióloga – Uberlândia – MG – anacoelhocarvalho@terra.com.br

Jantar indigesto

Iria de Sa Dodde – Professora – RJ

Vazou nas redes sociais, de forma até proposital, um jantar entre a “elite empresarial, financeira e política”. A figura central, Michel Temer, e o gigolô Paulo Marinho dão a ênfase do que pode ter saído desta reunião. Nada talvez seja demais. Estas reuniões são a tônica da harmonia entre os poderes. De Gaulle tinha razão. O Brasil não é um país sério.

Seguramente o STF não é inimigo do povo!

Autor: Rafael Moia Filho*

O ministro Alexandre de Moraes do STF mandou prender um ex-deputado acusado e condenado por corrupção, por portar armas de fogo num vídeo em que produziu ameaças a integridade do ministro e do STF. O mesmo ministro é relator do processo contra os crimes praticados por uma turba bolsonarista que espalha fake news desde a campanha eleitoral de 2018. No TSE, o Ministro Barroso foi contra a implantação do voto impresso, alegando motivos dentro do que chamamos de processo democrático.
Pois em tese, são estes os motivos de Bolsonaro para convocar e ameaçar os dois ministros e suas instituições nas manifestações do dia 07 de setembro nas ruas brasileiras. Ninguém em momento algum teve o sagrado direito de liberdade de expressão ou de ir e vir, ambos garantidos pela constituição ameaçado. Nenhum cidadão brasileiro inocente foi preso ou impedido de se manifestar livremente em nosso país.
A verdade é que o bolsonarismo tem como base fiel a mentira, aquilo que se denominou como pós verdade. Em cima dessas mentiras esse político incapaz que nada realizou em dois anos e oito meses de mandato navega. Ele exerce lavagem cerebral sobre essa gente que se dizem patriotas mesmo quando invocam uma intervenção militar para justamente fechar as instituições democráticas do nosso país. São cúmplices, coniventes com essa determinação que vem do palácio do planalto.
É fato de que Bolsonaro não foi eleito pela maioria dos brasileiros, mas sim por uma maioria dos votos válidos, que na ocasião resultou em 57 milhões de votos. Num cenário onde o total de votos dados ao candidato Haddad somado aos votos nulos, brancos e abstenções chegaram a 86 milhões.
Porém, Bolsonaro confunde o povo brasileiro que no momento passa fome, necessidades básicas, desemprego, sofre com inflação alta e preços obscenos, com aquele povinho que o cerca na saída do Planalto ou nas suas aventuras grotescas em cidades brasileiras em cima de motos, carros ou jegues.
Então é uma falácia dizer que a maioria dos eleitores votou no atual presidente no segundo turno da eleição de 2018. A maioria não aprova esse desgoverno de incitação ao ódio, onde nada foi realizado para termos uma economia estável, para desenvolver ações que pudessem reduzir o desemprego, a carência de distribuição e transmissão de energia elétrica ou a produção de energia alternativa. Um governo que não trabalha e vive em palanques montados para manter-se em evidência diante de seus aloprados seguidores.
No Brasil, hoje, o povo é representado por 213 milhões de seres humanos. Essa patrulha ideológica que espalha o ódio, a mentira e tenta enganar a maioria aplaudindo esse político obtuso, despreparado e mentiroso não vai conseguir reconduzi-lo ao mesmo cargo. Motivo? Primeiro porque não terá nada a dizer de positivo a favor de seu mandato. Segundo, como mostram todas as pesquisas eleitorais, o suposto Mito de barro não chega ao segundo turno em 2022.
Isso explica essas manifestações antidemocráticas e o desespero do Mito e de seu bando de fanáticos na tentativa de virar a mesa, de dar um golpe “A La Chávez” da Venezuela. Pois sabem que pela via democrática esse sujeito perderá a eleição e ficará à disposição junto com seus filhos da nossa Justiça, a mesma que ele tenta desqualificar, pois sabe de seus crimes e dos seus filhos.
Os que irão às ruas no dia 7 de setembro aplaudir o mito não representam o povo. Parte significativa do povo, a maioria, vai ficar em casa ou aproveitar os feriados de fim de semana e o ponto facultativo da segunda-feira para descansar. O povo é o povo, esse gado, que serve como massa de manobra não os representa.

*Escritor, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

Terapia Comunitária Integrativa: uma luz sobre um mundo de desigualdade e conflitos

Dr. Flávio de Andrade Goulart*

[Trago hoje aqui um post escrito a quatro mãos com minha querida amiga Maria Henriqueta Camarotti, psiquiatra e propagadora de tecnologias sociais e de saúde no DF].

A cena apresentada abaixo é uma ficção, mas se prestarmos bem atenção veremos que ela pode ocorrer na atualidade em qualquer parte, na nossa cidade inclusive. Imaginemos um grupo de cidadãos, principalmente formado por mulheres, que passe algumas horas em uma fila, demandando algum serviço público. Poderia ser para matricular um filho na escola, ou obter um cartão para o Bolsa Família, mas para ficarmos na área que dá significado a este blog, suponhamos que seja em uma unidade de saúde, à espera de uma vaga no atendimento. Como geralmente acontece, as pessoas começam a conversar entre si e o tom costuma ser ligado às dificuldades que enfrentam no dia a dia de suas vidas de pessoas pobres (porque rico, como se sabe, não entra em fila de nenhuma espécie).

Uma das mulheres reclama de estar ali há horas, quando deveria estar em casa preparando o almoço para os filhos. Outra que o marido está desempregado e que no momento lhe falta até dinheiro para comprar arroz e feijão; carne, nem pensar. Uma outra se revela ela própria desempregada e além do mais abandonada pelo marido, com nada menos do que três filhos para cuidar. Um dos homens da fila se diz hipertenso, mas que está há mais de trinta dias sem poder tomar os remédios receitados, porque os mesmos estão em falta ali na unidade e ele não tem dinheiro para comprar. Uma mulher grávida diz que já a terceira vez que vem ali para marcar seu pré-natal, mas que tem sido sucessivamente dispensada por falta de vagas. Desemprego; violência doméstica; violência policial; insegurança quanto ao local de moradia; banditismo e ação de milícias; longas caminhadas para alcançar o local de trabalho, por falta de dinheiro para a condução; cirurgias indicadas pelos médicos, mas repetidamente postergadas; desemprego; problemas com drogas na família; doenças de diversas naturezas; sofrimento. São alguns dos problemas que fazem parte do cardápio temático do grupo de pessoas naquela fila.

Enquanto isso o sol vai esquentando, uma pessoa desmaia, alguém reclama do banheiro da unidade que está imprestável para uso. Até que uma funcionária vem até a porta para dizer que naquele dia não haverá mais marcação de consulta porque o pessoal da unidade estará em treinamento. Nesta hora a tensão chega ao máximo, alguns abandonam a fila e vão embora. Outros esboçam uma reação agressiva contra a mensageira da infausta notícia. Há que se assente no meio fio, com a fisionomia contraída e desolada, têmpora entre as mãos.Como agir diante de algo assim?

Anúncios

DENUNCIAR ESTE ANÚNCIO

Desistir e voltar outra hora? Botar pra quebrar ali e naquele mesmo momento? Reclamar ao Político, ao Diretor da unidade, ao Delegado, ao Presidente da Associação de Moradores, à imprensa, ao Bispo? Liderar uma passeata e uma queima de pneus na rodovia? Ir procurar uma condição melhor de atendimento em outro bairro? Mandar tudo às favas e ir para casa pensar melhor no assunto?

Talvez cada uma dessas iniciativas tenha sua justificativa, dependendo do momento. Mas queremos falar aqui de uma tecnologia social que poderia ser útil diante de situações como esta, embora não seja uma panaceia ou algo de resultado imediato, mas uma maneira de informar, conscientizar e buscar soluções possíveis ou pelo menos levantar alternativas de solução que cada um ou cada situação exige. Tudo dentro das leis que regem a vida dos cidadãos no país, com reflexos positivos não só na promoção da saúde e de cidadania e também no desenvolvimento da resiliência nas pessoas.

Referimo-nos à Terapia Comunitária Integrativa (TCI). Vale a pena conhecer algo mais sobre ela.

***

A TCI representa uma ferramenta de construção de redes sociais solidárias. Foi criada em Fortaleza pelo psiquiatra, antropólogo e professor da Universidade Federal do Ceará, Adalberto de Paula Barreto, na década de 80, que a desenvolveu como estratégia para se trabalhar de forma grupal, de maneira dinâmica, participativa e reflexiva, oportunizando assim espaços para exposição e debate de problemas e inquietações das pessoas, com repercussão sensível no diálogo e na busca de soluções para os conflitos emanados do grupo. Assim, além de abrir espaços de troca de experiências, a TCI favorece e fortalece a criação de vínculos e o resgate da autonomia dos indivíduos por facilitar a transformação de carências em competências, de forma que, a partir da sabedoria dos próprios indivíduos, torna-se possível fomentar a capacidade de ressignificação das dores e das perdas por eles revelados.

As palavras de seu criador, a TCI procura suscitar a dimensão terapêutica do próprio grupo valorizando a herança cultural dos nossos antepassados indígenas, africanos, europeus e orientais, bem como o saber produzido pela experiência de vida de cada um.

A TCI representa um nítido espaço de escuta, de fala e de construção de vínculos, uma verdadeira prática terapêutica cidadã, reparadora de vínculos sociais, consubstanciada na formação de redes solidárias em regimes multiculturais e na descoberta de soluções a partir de competências locais. A TCI é hoje realidade não só no Brasil como em muitos outros países, fazendo parte das políticas públicas em nível nacional e também de estados e municípios. Entre as instituições que a acolhem e divulgam estão universidades, instituições de ensino e pesquisa, entidades não governamentais e programas sociais de diversas naturezas.

Pode-se dizer também que a TCI representa uma metodologia facilitadora da autonomia, capaz de potencializar os recursos individuais e coletivos, na medida em que se baseia e se apropria das qualidades e forças existentes em potência nas relações sociais, constituindo-se, assim como instrumento de construção de redes de apoio social. Há evidências de que a TCI, ao desenvolver a resiliência nas pessoas, faz com que estas adoeçam menos ao sentirem que contam com suporte emocional contínuo, derivado dos encontros grupais de que participam e do decorrente compartilhamento de seus problemas, assim valorizados em suas particularidades, contando com a sensibilidade e o apoio dos demais participantes.

A TCI como ferramenta de cuidado está fundamentada em cinco pilares norteadores: Pensamento Sistêmico, Pragmática da Comunicação de Watzlawick, Antropologia Cultural, Pedagogia de Paulo Freire e Resiliência O Pensamento Sistêmico facilita com que as crises e os problemas individuais sejam solucionados se compreendidos como inseridos em um contexto maior, que contemple o biológico, o psicológico e a sociedade. Os princípios de Watzlawick enfatizam a comunicação como elemento que une os indivíduos socialmente e que todo comportamento é determinado por uma comunicação, podendo esta se dar de forma verbal e não verbal, extrapolando as palavras ou simplesmente os sinais emitidos. A Antropologia Cultural chama atenção para as diferentes culturas existentes, sendo um elemento de referência fundamental na identidade individual e coletiva – é a partir dessa referência que os indivíduos se encontram, se aceitam e assumem sua identidade. A Pedagogia de Paulo Freire parte do princípio de que todas as pessoas têm conhecimentos e experiências a trocar, aprendendo e ensinando em sinergia constante, dentro da perspectiva da educação como prática libertadora, fazendo da opressão e da fragilidade um incentivo para a reflexão, o comprometimento e o interesse na luta por sua libertação. E a resiliência, como se sabe, é a capacidade que os indivíduos possuem (ou podem adquirir) de resistir às intempéries da existência e manterem-se capazes para enfrentá-las e abrir caminhos para o futuro, seja individualmente ou como membros de grupos.

A partir de 2008 a TCI foi incorporada pelo Ministério da Saúde nas práticas integrativas e complementares e assim inserida na atenção primária em saúde, como estratégia de promoção da saúde e de prevenção do adoecimento. Aliás, pesquisa realizada pelo próprio MS junto com a Universidade Federal do Ceará indicou que a inserção dessa abordagem na Estratégia de Saúde da Família reduziu substancialmente os encaminhamentos para os serviços mais especializados de saúde, pois as demandas que chegam a tais rodas são resolvidas em sua maioria no contexto da própria TCI ou nas instâncias comunitárias, nas instituições de direitos humanos e de apoio a população e mesmo entre as pessoas que delas participam.

Não é demais lembrar que além da área da saúde, a Terapia Comunitária está também inserida nas políticas públicas da educação, justiça comunitária, áreas sociais, nas artes e nas várias instituições governamentais e não governamentais. E não está restrita apenas aos profissionais de nível superior, pois acolhe a participação como terapeutas os agentes sociais e comunitários, lideres, militantes do cuidado, voluntários e pessoas que se sentem interpeladas pelo sofrimento humano.

No Brasil a TCI é hoje uma prática fortemente enraizada. Existem cerca de 40 mil terapeutas comunitários formados em 42 polos de capacitação, atuando em 25 estados, representados por uma entidade, a ABRATECOM – Associação Brasileira de Terapia Comunitária. Aqui no Distrito Federal, uma entidade local, o Movimento Integrado de Saúde Comunitária (MISMEC-DF), criado em 2003 já formou 1280 terapeutas em 26 turmas. No mundo todo existem núcleos de TCI em variados países, como Equador, Venezuela, Colômbia, Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia, França, Bélgica, Itália, Suíça, Alemanha, Moçambique, além de outros.

Em suma, como princípio essencial, a Terapia Comunitária Integrativa rejeita o modelo tradicional de “salvadores da pátria”, gerador dependência, para um modelo realmente participativo, promotor de autonomia. Busca também partir das ações centradas em carências sociais para investir nas competências, bem como na superação da referência individual para a comunitária, promovendo ainda a circulação de informação, o entendimento do outro como agente ativo de seu processo e o estímulo à corresponsabilidade e à cidadania.

***

Informe-se mais:

Barreto A. P. Terapia Comunitária Integrativa Passo a Passo. 2013
Camarotti, M.H.; Barreto, A. e Freire, T. Terapia Comunitária sem Fronteiras. Brasilia. 2011.
Camarotti, M.H. A Terapia Comunitária Integrativa no Cuidado da Saúde Mental. Brasilia: Editora Kiron. 2013.
Camarotti, M. H Terapia Comunitária aplicada aos jovens file:///C:/Users/HENRIQUETA/Dropbox/6aaaaaTCI/03-artigo-1.pdf
Camarotti, M.H. e Hugon, N. Acolhimento na Terapia Comunitária Integrativa. http://circularede.blogspot.com/2017/02/acolhimento-na-terapia-comunitaria.html
Camarotti, M.H Responsabilidade Social http://www.responsabilidadesocial.com/entrevista/maria-henriqueta-camarotti/
Câmara dos Deputados. Terapia Comunitária pode ajudar nas políticas públicas de saúde e educação https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cssf/noticias/noticias-2016/terapia-comunitaria-pode-ajudar-em-politicas-publicas-para-saude-e-educacao
Grandesso, M. Anais do Congresso Brasileiro e Internacional de Terapia Comunitária Integrativa https://issuu.com/abratecomterapiacomunitaria/docs/anais-iv-congresso-brasileiro-de-tci
Mariana Albernaz Pinheiro de Carvalho; Maria Djair Dias; Francisco Arnoldo Nunes de Miranda; Maria de Oliveira Ferreira Filha. Contribuições da terapia comunitária integrativa para usuários dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): do isolamento à sociabilidade libertadora., Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 29(10):2028-2038, out, 2013.
https://fr.wikipedia.org/wiki/Th%C3%A9rapie_communautaire
https://www.aetci-a4v.eu/
https://www.4varas.com.br/
Anúncios

*Flávio de Andrade Goulart é médico, professor de Medicina na UFU e na UNB, secretário municipal de Saúde em Uberlândia e é sobrinho do poeta Carlos Drummond de Andrade.