A guerra continua…

Marília Alves Cunha – Educadora e escritora

A guerra não esmoreceu entre Rússia e Ucrânia. Pessoas continuam morrendo, famílias se separam, cidades são destruídas, bombas explodem em clarão no céu. Choros escorrem, lamentos se levantam e morrem sem ecos, animais assustados são sacrificados ou morrem de fome…

Nós, de longe, quase não ouvimos mais falar dela, da guerra. Notícias poucas, a mídia tem outras manchetes, guerra velha e feia não tem mais lugar nos centro das atenções. Ficou natural, banalizou-se, acabou-se a novidade, mesmo que a morte e a violência, o desamparo e o medo continuem seu trabalho. É assim hoje, tudo rápido como o raio que corta o céu ou como a exígua vida de um girassol. Como a nossa ânsia besta por um acúmulo de informações que levam a nada…

Deixo aqui, completando o texto, tristes palavras de Mahmoud Darwish, poeta e escritor palestino já falecido.

“A guerra terminará e o líderes apertarão as mãos. Ficará aquela velha á espera do filho mártir, aquela mulher á espera do marido e aquelas crianças á espera do pai herói.
Não sei quem vendeu o país, mas vi quem pagou o preço.”

Nem tudo precisa virar discussão Quando o diálogo vira imposição

Diógenes Pereira da Silva – Tenente do Quadeo de Oficiais da Reserva Remunerada da PMMG.

Nem tudo precisa virar discussão
Quando o diálogo vira imposição

As redes sociais, especialmente quando o assunto é política, se transformaram em um verdadeiro campo de batalha. Não de ideias, mas de egos. O que deveria ser debate virou disputa. O que deveria ser argumento virou ataque. E o mais preocupante: muita gente já não percebe mais a diferença.

Hoje, praticamente toda conversa acaba no mesmo lugar: política. Não importa o assunto inicial, cedo ou tarde ele descamba para direita contra esquerda, como se o mundo se resumisse a isso. Discordar deixou de ser algo natural e passou a ser tratado como afronta. Há uma necessidade quase obsessiva de vencer o outro, de impor a própria visão, de ter a última palavra.

Participo de grupos de mensagens e vejo isso de perto. Na prática, me tornei mais um observador. Não por falta de posicionamento, mas por excesso de desgaste. Há pessoas que não conversam, não escutam e não admitem a mínima possibilidade de estarem erradas. Para elas, o mundo se divide entre os que concordam e os que precisam ser combatidos.

E há um detalhe ainda mais incômodo: a repetição. Os mesmos discursos políticos, as mesmas frases prontas, todos os dias, como um eco infinito. A impressão é que pensar dá mais trabalho do que repetir. E talvez dê mesmo.

Nesse cenário, a frase de Arthur Schopenhauer soa menos como exagero e mais como constatação: “Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais”. Dura? Sem dúvida. Mas basta observar o comportamento de muitos para entender o desconforto que ela provoca.

A pergunta inevitável surge: por que permanecer nesses espaços? Porque é neles que as máscaras caem. É ali, no calor das discussões, que se revela o que muitas vezes ficou escondido por anos. E nem sempre o que aparece é agradável. Já me surpreendi. Já me decepcionei.

Ficar um dia longe de um grupo e voltar para centenas de mensagens, quase sempre sobre as mesmas discussões políticas, no mesmo tom, não informa, não agrega, não aproxima. Apenas desgasta.

Opinar é um direito. Mas transformar qualquer conversa em confronto político é uma escolha. E talvez esteja passando da hora de reconhecer o quanto essa escolha tem custado caro para o convívio, para o respeito e para a própria sanidade.

Emendas e penduricalhos

Paulo Henrique Coimbra de Oliveira – Economista – RJ

Qual seria a diferença entre as emendas parlamentares e os penduricalhos do judiciário, MP, tribunais de contas e órgãos assemelhados? Nenhuma é a resposta correta. Em comum todos têm como origem recursos públicos e todos inconstitucionais. Custo benefício ZERO para o país. Apenas privilegiam de forma ilegal e imoral classes de servidores que decidem ao arrepio das leis suas imorais benesses. Traduzindo em miúdos: corrupção institucionalizada. Não têm moral para chamar ninguém de corrupto.

A Vida como Ela é

Diógenes Pereira da Silva – É Tenente do Quadro de Oficiais da Reserva Remunerada da PMMG

Vivemos em uma época em que a vida virtual passou a ocupar um espaço cada vez maior na rotina das pessoas. Basta abrir as redes sociais para encontrar um mundo aparentemente perfeito: sorrisos constantes, viagens, festas, conquistas e felicidade sem fim. Ali, quase ninguém mostra as lágrimas, as noites sem dormir, as preocupações ou os momentos de desânimo.

A vida real, no entanto, é bem diferente. Ela não permite filtros nem edições. Existem dias em que tudo parece dar errado, em que o cansaço vence a disposição, os problemas se acumulam e a esperança parece enfraquecer. São momentos que testam nossa fé, nossa paciência e nossa capacidade de continuar caminhando.

Poucos percebem que ninguém constrói sua história sozinho. Somos dependentes uns dos outros desde o primeiro até o último dia de vida. O alimento que chega à nossa mesa é fruto do esforço do agricultor, do pecuarista, do caminhoneiro, do comerciante e de tantos outros trabalhadores anônimos. A roupa que vestimos, a energia que ilumina nossa casa, o atendimento nos hospitais, a segurança nas ruas e tudo aquilo que faz parte da nossa rotina existe porque milhares de pessoas cumprem, diariamente, a sua missão.

Talvez um dos maiores erros da sociedade atual seja acreditar que felicidade significa ausência de problemas. Não significa. A verdadeira felicidade está na capacidade de enfrentar as dificuldades sem perder a dignidade, a esperança e a vontade de recomeçar. É nas tempestades que descobrimos nossa força e aprendemos o verdadeiro valor da família, dos amigos e da fé.

Os antigos costumavam dizer que apenas uma coisa não tem solução: a morte. Todo o restante, por mais doloroso que pareça, pode ser enfrentado com coragem, perseverança e confiança em dias melhores.

A vida nunca foi fácil e jamais será. Ela exige sacrifícios, renúncias e muito trabalho. Mas é justamente essa mistura de desafios e superações que dá sentido à nossa existência. Cada obstáculo vencido nos torna mais fortes, mais humanos e mais conscientes de que o maior patrimônio que possuímos não é o dinheiro, nem o sucesso ou a fama, mas a capacidade de seguir em frente quando tudo parece perdido.

A vida como ela é não se mede pelas fotografias publicadas nas redes sociais. Ela se revela no silêncio das lutas diárias, na coragem de quem não desiste, na solidariedade de quem estende a mão ao próximo e na esperança de acordar, todos os dias, acreditando que amanhã poderá ser melhor do que hoje.

Conpozissão imfãtil

Ana Maria Celho Carvalho – Bióloga

Com a eliminação do Brasil pela Noruega, nesta Copa do Mundo de 2026, lembrei-me de um artigo divertido escrito por Roberto Pompeu de Toledo, publicado na revista Veja, sobre a Copa do Mundo de 2014. Com o sugestivo título “Conpozissão imfãtil”, o autor escreveu sobre essa Copa, como se fosse uma criança, uma menininha. Na época, fiz uma adaptação do texto desse autor, como se segue.

“O mundo é dividido em nações, que é o nome que tem os países, como o Brasil, o Japão. Quase nunca a gente percebe que o mundo é dividido em nações, porque aqui no Brasil só tem brasileiro, e a gente fica pensando que o mundo é como o Brasil. Mas, em Copas do Mundo, a gente percebe. Cada nação insiste em falar em uma língua diferente. Não sei porque todo mundo não fala português, que é tão fácil que até criança pequena fala, sem precisar estudar. Na Suíça e na Bélgica eles falam muitas línguas, além do suíço e do bélgico. Na hora do hino cada jogador canta numa língua e ninguém entende. Também no jogo, cada um fala com o outro numa língua, e isso é uma maneira de confundir o outro time, que não sabe o que eles estão combinando.

Cada nação tem uma camisa diferente. A melhor é a de um país chamado Croácia, onde vivem os croatas, que são pessoas que gostam muito de jogar xadrez. Por isso, a camisa deles é como um tabuleiro de xadrez, com quadradinhos brancos e vermelhos. A camisa da França é azul, e os jogadores são chamados de “azuis”, mas, na verdade, só a camisa é azul; eles são brancos ou pretos, como todo mundo.

As nações possuem bandeiras e hinos. Acho a bandeira do Brasil a mais bonita de todas, fora algumas, e muito bem feita para o futebol: tem o verde dos gramados, o amarelo da taça que o campeão vai ganhar e a bola. No meio tem uma faixa que, quando o Brasil é campeão, fica escrito “campeão” e, quando não é, fica escrito uma bobagem qualquer. Outras bandeiras são interessantes, principalmente para nós, meninas, como as que têm estrelinhas e outros desenhos. A mais engraçada é a da Argentina, que tem um solzinho com olho, nariz e boca. É uma bandeira amiga das crianças. Meu pai não gosta que eu torça para a Argentina, mas eu torço por causa do solzinho e não conto para ele.

Antes do jogo tem os hinos, e a televisão vai traduzindo. Aí eu tenho medo. O da França diz para os filhos formarem uns batalhões e atacarem os inimigos. Deve ser terrível viver na França. Lá tem inimigos que querem estrangular as crianças, e os franceses cantam essas coisas como se não fosse nada demais. Os ingleses também têm inimigos terríveis, cheios de truques maldosos, diz o hino deles, e eles juram que vão esmagar os inimigos. Nos Estados Unidos o hino explica que tem bombas e foguetes voando. Como os jogadores podem ser bonzinhos, depois de cantar essas coisas? Tem um que mordeu outro. Acho que foi pouco; coisas muito piores podiam acontecer.

Podia acontecer de morrerem, por exemplo. O hino da Itália pede para que todos estejam prontos para morrer, porque a Itália chamou. Como é que se pode chamar os outros para morrer? O do Uruguai pede para escolher a pátria ou o túmulo. O nosso, do Brasil, que eu prefiro, não dá para entender as palavras e, por isso, não ameaça ninguém. Mesmo assim, tem um pedaço que diz que a gente não teme a própria morte. A Fifa não devia deixar eles cantarem essas coisas. É um risco: no fim do jogo, o campo pode ficar cheio de mortos. Mas nossos jogadores cantaram sempre, todos, e choraram muito. Quem chorou mais, eu acho, foi o Thiago Silva. Aqui em casa até o meu pai chorou. Eu não. Tenho mais o que fazer.”

Enfim, doze anos se passaram desde a Copa de 2014. Mudaram os jogadores, mudaram os técnicos, mudaram os heróis e os vilões. Mas os adultos, antes de cada Copa, continuam pensando que o Brasil será o campeão. Depois da derrota, dizem que nunca acreditaram muito no time. Alguns choram, outros brigam, chamam o juiz de ladrão, prometem nunca mais assistir futebol. Mas a promessa dura somente até a próxima Copa.

Acredito que a menininha, dessa “conpozissão imfãtil”, olharia para os adultos com um sorrisinho de quem não entende tanta confusão, por causa de um jogo com vinte e dois jogadores correndo atrás de uma única bola. Daria de ombros e diria:

-“Perdeu? Que pena. Agora vou brincar. Tenho mais o que fazer”