Ana Maria Coelho Carvalho – Bióloga
Já aceitei o fato de que jamais vou obter algum lucro com minha fazendinha. Mas terei muitas histórias para contar. Por exemplo, o caso do boi Diamante.
Tudo começou quando precisei de um boi para cruzar com as vacas que comprei. São onze: sete já prenhes, duas com bezerros e duas entrando no cio. Não seria possível recorrer à inseminação artificial, pois seria necessário um curral adequado, com tronco, e lá não tem. Aliás, não tem nada, só problemas! Além da ausência do curral adequado, a vaca pode ficar muito brava e dar coices no veterinário. Do jeito que as coisas andam por lá, provavelmente isso aconteceria.
Além do mais, eu queria conhecer o boi que seria o pai de todos os bezerrinhos da fazenda. Queria saber se seriam parecidos com ele, se herdariam sua boa genética e assim por diante. A inseminação artificial é muito vaga, muito abstrata! E, como vaca não se reproduz por partenogênese, o encarregado e eu começamos a procurar um boi bom e barato.
Um absurdo o preço de um reprodutor: de R$15.000,00 a R$20.000,00 e sem P.O. -puro de origem, com registro genealógico que atesta sua procedência. Por sorte, encontramos uma fazendeira vizinha que precisava vender um boi. Grande, bonitão, orelhas bem compridas, nelore, todo branco, com três anos. Negociei por R$8.500,00, para pagar quando ele fosse entregue.
Fiz uma votação na família para escolher o nome: Araújo, Bumbá ou Sansão. Ganhou Araújo. No entanto, a vizinha contou que ele já se chamava Diamante, era manso e atendia pelo nome. Resolvi não trocá-lo, para não causar confusão mental no animal.
O tempo foi passando, e o boi não chegava. Avisaram que ele estava escondido no pasto do vizinho e ninguém conseguia encontrá-lo. Um mês e meio depois da negociação, finalmente o Diamante chegou à minha fazendinha. Justamente em um dia quando eu lá estava. Fiquei emocionada!
Ele veio tocado pela estrada por dois cavaleiros, acompanhado de duas vacas no cio. Sozinho, não viria de forma alguma.
Prenderam o Diamante no curral e tentaram colocar as minhas vacas junto dele, para que fossem se enturmando. Mas elas dispararam, e ele ficou sozinho. Depois que os cavaleiros foram embora, não havia como buscar as fujonas novamente, pois o encarregado não conseguiria trazê-las a pé. Pois o bendito Canarinho, meu único cavalo, tinha fugido pela oitava vez! Ele passa debaixo de qualquer cerca.
Aproveitei para apreciar o Diamante e tirar fotos de todos os ângulos, enquanto ele estava sozinho, bufando no curral. E, não sei por quê, o encarregado abriu a porteira e soltou o boi, sem qualquer tipo de adaptação ao novo ambiente.
Ele saiu trotando majestoso, olhando para lá e para cá, até parar perto da casa da sede. Da varanda, olhei nos olhos dele. Ele olhou nos meus. Depois, vagarosamente, virou a traseira para mim e, balançando o rabo, entrou no pasto sujo, cheio de árvores e arbustos e desapareceu.
Ainda falei para o encarregado:
_Tião, este boi vai sumir!
Ele argumentou que não, que o boi iria procurar as vacas e o cocho de água. Como meu conhecimento nessa área é zero, acreditei.
E não é que o boi sumiu mesmo? Desapareceu sem deixar rastros.
O pior é que, sem o Canarinho, como procurar o Diamante? Resolvi oferecer uma recompensa a quem devolvesse o cavalo. Colocamos fotos dos dois em todos os grupos de WhatsApp da região.
Em dois dias, o Canarinho apareceu. Paguei uma recompensa de R$300,00. Voltou de crina feita e com os cabelos da orelha aparados, todo bonitinho! O encarregado montou nele e passou quatro dias procurando o Diamante.
Com a graça de Deus, o boi foi encontrado, junto com vacas no cio, em uma fazenda vizinha. Parece que havia pulado a cerca, e tudo indicava que estava bem e feliz.
Quando recebi a notícia, em Uberlândia, que o Diamante havia sido encontrado, fiquei em êxtase. Contei para todos que estavam torcendo para ele aparecer. Regozijo geral!
Mas a alegria durou pouco: apenas 3 horas.
Recebi várias fotos do Diamante morto, mortinho, caído no chão! E uma imagem tétrica: um furo perto do pescoço, de onde saia sangue. Haviam tentado sangrá-lo para ver se ainda seria possível aproveitar a carne.
Contaram que ele estava sendo tocado, junto com duas vacas paridas, para o curral. De repente, começou a tremer as pernas, caiu no chão, estrebuchou, virou os olhos e morreu!! Um filme de terror. Consternação geral.
A primeira suspeita foi a de que tivesse sofrido um ataque cardíaco. Especulando-se sobre as possíveis causas da morte, levantaram-se cinco hipóteses: estresse por ter sido separado das vacas no cio; excesso de ingestão de sal com ureia; paralisia respiratória causada por botulismo; picada de cobra; ingestão de ervas venenosas seguida de excesso de movimento, como corrida.
Analisando-se os sintomas e as circunstâncias, a mais provável “causa mortis” é a ingestão de ervas venenosas. Ou então o estresse. O Diamante havia mudado de fazenda, ficou perdido, deve ter passado sede, foi arrancado dos seus amores.
Jesus, será que o boi morreu de paixão?
Descobri que o estresse pode, sim, provocar consequências graves nos bovinos. Há relatos de boi que morre quando é amarrado ao tronco, sofre ataque cardíaco.
Enfim, lá se foi o Diamante, não aproveitamos nem a carninha dele. E eu ainda fiquei traumatizada e com pesadelos. Lembrei-me do Zé, meu finado marido: mandava cinquenta bois de uma só vez para o matadouro e dormia feliz, sonhando com o dinheiro que iria ganhar.
Eu, não! Só faltou receber pêsames pela morte do boi…
Agora, não quero mais comprar reprodutor. Vou alugar algum quando precisar e esperar meu bezerro, o Príncipe Houdini, crescer. Ele já está com um ano, saudável, bem adaptado à fazenda e conseguindo escapar das inúmeras cobras venenosas que rastejam por lá.
Quem sabe, um dia, nasçam lindos bezerrinhos e eu possa olhar para eles, cheia de orgulho, e dizer:
-Parece com o pai!
A esperança é a última que morre.