Ana Maria Coelho Carvalho – Bióloga
Como já contei anteriormente, tenho uma fazenda nas proximidades de Pirapora. Não dá lucro nenhum, só despesas. Mas, em compensação, é uma fonte incrivel de histórias para contar – todas baseadas em fatos reais, como a que se segue.
Eu tinha algumas vacas e precisava de um boi. Depois da morte do Diamante, o boi bonito e caro que comprei e que morreu uma semana depois por ter ingerido ervas venenosas, tive de tomar uma decisão. Resolvi deixar o Príncipe Houdini, um bezerro nelore puro, filho da Daisy – a vaca de estimação da minha neta Lia – crescer e tornar-se o reprodutor e pai dos bezerrinhos que nascessem por lá.
Ele tem o sobrenome de Houdini , o maior mágico de todos os tempos, por causa do seu nascimento, que foi um espanto e ninguém esperava. Mas o sumiço seria ainda mais espantoso, como se segue.
Acontece que resolvi identificar cada vaca e bezerro com um brinco amarelo, contendo número e nome, para controlar melhor o rebanho. Também passei a fazer uma ficha de cada animal.
Por exemplo, na ficha da Castanha escrevi:
“Número 2. Escura, comprada do vizinho em março/22, já prenha. Chifruda, bate nas outras vacas. Deve dar à luz em setembro ou outubro /22. Sem raça boa, vender quando puder. Observação 1: Ficou bonita depois. Serramos o chifre dela. Bezerro Aladin nasceu em 5/9/22. Grande, branco, mancha na testa, primeiro bezerro nascido na fazenda. Observação 2. Entrou no cio em final de outubro, mas não tinha boi. Observação 3: Cruzou com o boi emprestado do vizinho em julho/ 23.”
É assim, tudo organizado.
Por isso, certa vez, quando fui à fazenda, escrevi o nome dos três bezerros maiores em brincos e pedi ao meu funcionário que os colocasse: Príncipe Houdini, Ouro Verde e Aladin. Na época, o Aladin, filho da Castanha, estava com 11 meses. O Ouro Verde, um boizinho filho da Mixirica, estava com dois anos e oito meses. A mãe era uma vaca sem raça, mas dedicada; o pai era desconhecido, provavelmente um boi gabiru. E o Príncipe Houdini estava com dois anos.
Até aí, tudo certo.
Acontece que, alguns meses depois, quando fui à fazenda, conferi o rebanho no curral. Vi um boizinho com o brinco amarelo escrito “Aladin”. O encarregado da fazenda- outro, não o que havia feito a identificação- disse que aquele era o reprodutor e que já estava cobrindo as vacas.
Completou, para minha surpresa, que não sabia como eu deixei um boi tão ruim para reprodutor: um gabiru, feio, sem raça, de cabeça larga e corpo curto.
Argumentei que o reprodutor que eu havia deixado era bom, um Nelore puro, o Príncipe. E que aquele também não era o Aladin.
Fomos procurar o verdadeiro Aladin.
Lá estava ele, sem o brinco de identificação, correndo feliz em volta da mãe, a Castanha.
Céus, o que tinha acontecido?
Como o Príncipe virou Aladin? Ou melhor: como surgiu aquele Aladin falso?
Passei boa parte da noite pensando no assunto, consultando minhas anotações e olhando fotos dos bezerros. De repente, entendi tudo.
O encarregado anterior era o verdadeiro culpado pela tragédia.
Ele havia trocado as identificações: colocou “Ouro Verde” no Príncipe, “Aladin” no Ouro Verde e deixou o verdadeiro Aladin sem brinco.
Quando comprei algumas vacas naquele ano, o verdadeiro Ouro Verde entrou na negociação, que fiz por telefone. O mesmo caminhão que entregou as vacas, levou o animal identificado como “Ouro Verde” – mas que, na verdade, era o Príncipe.
O encarregado, que tinha acabado de ser contratado, não conhecia o gado e seguiu minhas instruções: entregar o Ouro Verde.
E, como não fico na fazenda, não vi o problema. Nem sequer me despedi do Príncipe.
Entrei em contato com o comprador e pedi que destrocasse os bezerros. Ele ficou comovido com a história, disse que sabia, sim, qual era o Ouro Verde-Príncipe e que faria o possível para fazer a troca.
O problema é que o bezerro já havia sido vendido para um fazendeiro em Três Marias, bem longe dali. Só um caminhão para buscá-lo ficaria em R$2.400,00, o preço de um bezerro.
Daí, com o coração dilacerado, desisti do Príncipe. Afinal, depois de tanta confusão, eu nem sabia se seria ele mesmo que voltaria.
Que seja feliz por lá.
Só não posso contar para a Lia que o Príncipe Houdini fez jus ao nome e desapareceu num passe de mágica.
Mas a história ainda não terminou.
Surgiu outro problema: o que fazer com o boizinho que ficou por lá, feliz da vida e cruzando com as vacas? O que está identificado como “Aladin”, mas, na verdade é o Ouro Verde se passando pelo Príncipe. Agora, além de não ter raça, não tem identidade. Nem sei como chamá-lo.
Transformou-se, sem querer, em um impostor.
Aliás, o nome desta crônica poderia ser O sapo que virou príncipe.
Ou O príncipe que virou sapo.
Ou Impostor por acaso.
Ou mesmo Um sonho acabado.
Até O triste fim do Príncipe Houdini, parafraseando o clássico da literatura O triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, ficaria bem.
Enfim, seguindo orientações, vou ter que castrar o boizinho gabiru – arrancar os testículos, coitado -e deixá-lo engordar para depois vendê-lo.
Oh, mundo cruel!
E continuarei sem boi, pois o Diamante morreu e o Príncipe Houdini desapareceu.
No momento, vou investir meus sonhos no Sansão, um bezerro Nelore puro, acinzentado, de nove meses, filho da Sofia.
E seja o que Deus quiser.
Até os próximos capítulos!