Gustavo Hoffay – Agente Social
Originário da capital mineira desembarquei em Uberlândia às vésperas do Carnaval de 1.987, com ânimo forte para dar continuidade aos meu planos pessoais e profissionais e já determinado a fixar residência na cidade que despertava rumo a grandes e invejadas conquistas. Passados poucos dias e residindo em uma república de quatro estudantes universitários na rua Cruzeiro dos Peixotos , logo tive a oportunidade de ser encaminhado por um antigo amigo à presença de uma ilustre pessoa, profissional dos mais respeitados no comercio atacadista desta metrópole : o hoje saudoso Joaquim Vital e então gerente-geral das Casas Alô Brasil, à época o maior atacadista de secos e molhados de todo o Triangulo Mineiro e com mais de noventa representantes comerciais por todo o Brasil. Ali trabalhei por alguns anos na área de marketing até o encerramento das suas atividades em Uberlândia. Passados alguns poucos anos desde então, acumulei às minhas funções profissionais em um outro grande comercio por atacado nesta cidade, a prestação de serviços voluntários como uma forma de dedicar parte do meu tempo a pessoas esperançosas de reabilitação da sua saúde física e mental. Assim foi em duas fundações, um conselho municipal e finalmente no Hospital do Câncer da Universidade Federal de Uberlândia. Especialmente durante o tempo que lidei com centenas de cancerosos em tratamento e também com alguns dos seus respectivos familiares e amigos, passei a entender que a entrega consciente ou inconsciente de enfermos a cuidados médicos e de enfermagem, era mais que uma forma deles aliviarem o seu sofrimento físico e mental enquanto conservando a sua lucidez; implicava também em darem muito mais valor à vida e de uma forma que, talvez, nunca antes o fizeram. De minha parte, enquanto humilde voluntário e também na condição de ex-paciente daquela fantástica casa de saúde e na companhia de outros colegas também ali voluntariosos, aprendi que a abordagem a um enfermo em tratamento de câncer é algo muito delicado e não raramente difícil. Já há muito o paciente sofre dores em seu corpo e tem a consciência de que o seu sofrimento pode se agravar, apesar de todos os subsídios da medicina nele aplicados por meio de medicamentos, profissionais dedicados e uma alta tecnologia empregada a favor da sua reabilitação. E era-me doloroso observar a angustia visível nos olhos da maioria daqueles enfermos. Alguns diziam-me que se Deus fosse bom “ Ele não permitiria tanto sofrimento”! Numa determinada segunda-feira e já por volta das dez horas da manhã, estando o corredor do setor de quimioterapia todo tomado por pacientes à espera de receberem o devido tratamento, uma senhora com uma criança de aproximadamente cinco anos ao colo chamou-me especial atenção; ela chorava baixinho e apertava ao seu peito aquela pequena criatura. Não me contive e na ânsia de providenciar-lhe um pouco de alivio disse-lhe: -“ Se o seu filho está sofrendo, é porque Deus o ama”. E de imediato aquela mãe olhou-me e respondeu :-“ Então vou pedir a Deus que o ame um pouco menos”! Senti ali, naquele breve momento, o profundo desalento daquela senhora. A partir daquele dia, juro, resolvi que deveria esforçar-me por penetrar no íntimo do coração dos pacientes cancerosos ali em tratamento, de maneira a não deixar de excitar a minha sensibilidade, as minhas emoções. Foi quando voltei no tempo e relembrei do quanto eu mesmo, em tratamento de um câncer que me consumia e naquele mesmo hospital, tive as sensações do vazio, da solidão e da culpabilidade. E não havia médico, religioso, enfermeiro ou psicólogo que auxiliasse-me naqueles momentos de terríveis interrogações. Eu me continha, falava o menos possível e pedia que as visitas em meu quadro pós-operatório fossem breves. Até mesmo alguns médicos que aspiravam ser os servidores da vida, eis que sentia-os manietados diante da doença contra a qual eu lutava. Passado algum tempo, já reabilitado após uma cirurgia e vinte sessões de radioterapia e enquanto tendo por companhia a minha esposa Eliane como fiel escudeira e incentivadora, resolvi prestar-me a auxiliar outras pessoas que passavam pelo calvário que passei. Com o passar do tempo e as experiências ali vividas, percebi o quanto era recomendável que eu estabelecesse um relacionamento humano, fraterno entre eu, os pacientes e os seus respectivos familiares; nada de comentários muito transcendentais e elevados. O que importava era estar ao lado de cada um deles, dar testemunho do que eu mesmo havia passado e enquanto em tratamento do meu câncer, adaptando-me às circunstâncias de cada paciente e da sua família, de modo a encetar uma relativa e confortadora amizade. Com a mãe daquela criança em tratamento de câncer e a qual, muito infelizmente, jamais tornei a ver, aprendi ainda mais que os conflitos da perspectiva da morte suscitam sentimentos terríveis, mas que a fé e as orações podem levar ao enfermo o alivio e a força que Cristo não deixa de dar a quem o procura na intimidade do silencio. Creio que a mãe daquela criança e de cuja face jamais esquecerei pelo resto da minha vida, recorreu às orações e que elas deram-lhe um salutar impulso para que a sua fé crescesse e o seu filho se reabilitasse. Mudei-me de Uberlândia algumas semanas depois, mas pedi a Deus por ela e pela sua criança, na certeza de que Ele dá sempre a resposta que mais convêm ao bem de quem nele crê. Mais que consolo, o serviço voluntário em uma casa de saúde deve suscitar esperança. Sim, porque a esperança é a espinha dorsal e o dínamo de todo cristão.