José C. Marteli – Advogado e professor – Esírito Santo do Pinhal – SP

Amigas e amigos da “melhor idade”- Hoje é domingo. Dia da semana em que, vez ou outra, reservo para escrever alguma coisa sobre nossa faixa etária.
Então aqui vai, com uma pitada de humor, o que sempre ajuda.
Há 27 anos eu escrevera (em preto) o artigo abaixo, cujo título roubei para esta crônica.
Depois, em 2018, fiz algumas retificações, ou melhor dizendo, alguns esclarecimentos e comentários que podem ser vistos (em verde), entre parênteses.
Já estamos em dezembro de 2022, no limiar de 2023 e sou obrigado a complementar o que escrevera porque, pela vontade de Deus, ainda estou aqui, sem saber, como já escrevi alhures, se essa longevidade é dádiva ou castigo.
Eis o artigo de 1995 e respectivos esclarecimentos feitos em 2018:
“Lá pelos idos de 1995, em pleno vigor dos meus 62 anos, estava eu no Metrô de São Paulo, em pé, apoiado em meus “vigorosos” braços, numa viagem entre o Terminal Rodoviário do Tietê e o SEBRAE – SP, quando percebi de soslaio, uma moça fitando-me, insistentemente. Lisonjeado pensei:- ainda tenho “lenha para queimar”. Então arrisquei um olhar mais direto, tão logo nossos olhos se cruzaram ela não perdeu tempo. Levantou-se e…. ofereceu-me o seu lugar. Devia estar pesando no seu pai ou quem sabe no seu avô (dizer que estou com o mesmo vigor da época seria mentira. Mas posso afiançar que, com uma vida regrada, quis dizer regada, com muita cerveja e motivação constante, com a ajuda de Deus para que não sobrevenha nenhuma doença, dá pra fazer muita coisa prazerosa. E não se corre mais o risco de alguma mocinha nos oferecer o lugar porque agora só andamos em nosso carro. Adeus metrô, ônibus ou outros que tais).
De outra feita, numa viagem de ônibus entre Uberlândia e São Paulo sentei-me ao lado de uma viçosa “jovem” dos seus 40 anos, muito falante e que, no decorrer de nossa conversa, perguntou-me: – Você é casado? Ao mesmo tempo em que pensava estar interessando à dita cuja, respondi: – Sou viúvo. E ela arrematou: – Você é tão simpático, gostaria muito de apresentá-lo à minha mãe. (pelo motivo antes mencionado também não corremos mais este risco)
Daí em diante comecei a prestar atenção numa sucessão de fatos que começaram a ocorrer, semelhantes àqueles e que não me davam trégua, sempre lembrando minha velhice, digamos assim, emergente.(aí outra vantagem, – já repararam que sempre encontro vantagem em tudo – ela não é mais emergente. Ela se instalou. E quando se conhece o inimigo é muito mais fácil domá-lo)
Eram convites para sair das filas comuns dos bancos e ir para as de atendimento especial para idosos; eram médicos que, insistentemente, diziam que eu tinha uma saúde de jovem, níveis de colesterol e triglicérides de jovem, pressão de jovem etc..(bem, quantos às filas não preciso dizer que a informática resolveu tudo e quanto aos médicos, continuam os mesmos, só que dando maior ênfase do tipo:- viu seu amigo fulano? Morreu… e você está aí firme. Agora a “pá de cal”: no velório de um advogado amigo, alguém parabenizou-me por ter a honra de possuir a OAB mais antiga de Pinhal, honra detida até então, pelo morto. Ele queria lembrar-me, agora é sua vez)..eram amigos, “muy amigos”, que não perdiam a oportunidade para lembrarem-se de que eu, de forma alguma, parecia ter a idade que tinha; eram reencontros com antigos companheiros, colegas e amigos, quase todos, invariavelmente encarquilhados, abdomens proeminentes, cabelos brancos ou ralos, longe das belas figuras de homem que balançavam os corações de moçoilas casadoiras, monstros modelados vagarosamente pelo tempo e eram também reencontros com antigas namoradas, quase todas velhas e feias, longe daquelas que conhecera há tantos anos. Então me perguntava: e eu? Deveria estar igual a eles e a elas. Apenas a convivência diária comigo mesmo não me permitiam ver a dura realidade. (esse risco também, infelizmente, praticamente desapareceu. Quase não temos mais ninguém para comparações. A pouco e pouco estão nos deixando)
Não bastasse isso, eram ainda mortes, quase todos os meses, de amigos e conhecidos da mesma faixa etária que a minha. (vale o comentário anterior)
A par de tudo, participar, viver e/ou ser vítimas de fatos e acontecimentos desagradáveis, tão desagradáveis que nem vale a pena mencionar e que não me deixavam, também, esquecer minha condição de septuagenário. (faz parte da vida. Vida sem problemas só onde ninguém quer estar)
Mas já que a velhice chega e se instala, inexoravelmente, será que nada há a fazer? Há sim. Há coisas que podem ser feitas sempre, não importa a idade. Por exemplo: nada de ficar olhando para trás, para um passado que não volta mais a não ser para recordações boas e gratificantes. Olhar sempre para a frente, para o futuro, viver cada dia como se fosse morrer amanhã, mas sonhar e fazer planos como se nunca fosse morrer. (ratifico plenamente tudo que escrevera e que tenho praticado nestes 23 anos, apenas como já dissera alhures, com uma grande pitada de amor. Amor à vida, amor à natureza, amor aos animais e amor às pessoas. Isto que nos mantém vivos, enquanto Deus quer)
Lutar sempre, perseverar sempre, ajudar sempre, trabalhar sempre, entender sempre, compreender sempre e saber, sem culpas, ressentimentos ou depressões, que cada coisa a seu tempo, nada tem de errado se praticada no momento desejado. (quis deixar bem claro e ratifico agora, parodiando a letra da canção : “quem sabe faz a hora…”)
Quem tem essas características não é e nem será jamais velho. É apenas um jovem que está vivendo mais tempo. (e já que estamos vivendo, vamos viver intensamente. Dormir tarde. Levantar cedo. Sempre que possível, com muito humor em cada dia. Esta é a receita)”
Pois bem. Ratifico todos os comentários feitos em verde. Apenas acrescento que estou, infelizmente, percebendo outros sinais. A pele enrugando, uma protuberância abdominal que não percebia (tenho certeza que as amigas e amigos gostaram do eufemismo), o andar meio trôpego, algumas lembranças bem antigas que vão dando lugar a esquecimentos presentes e por aí vai. Mas, mesmo assim, tanto quanto possível, busco servir, porque quem não vive para servir, não serve para viver.