Diógenes Pereira da Silva*

Bets: quando a aposta custa a paz de uma família

Há algo de muito errado quando a promessa de dinheiro fácil começa a custar a paz de uma família.

As chamadas bets chegaram aos celulares dos brasileiros com uma facilidade assustadora. A qualquer hora, em poucos segundos, alguém pode apostar o dinheiro que deveria pagar uma conta, comprar alimentos ou garantir o sustento de casa.

Por trás das propagandas que exibem ganhos e diversão, existe uma realidade que nem sempre aparece: dívidas, salários comprometidos, bens vendidos, conflitos familiares e pessoas perdendo o controle da própria vida.

O problema não é apenas perder dinheiro. É entrar em um ciclo perigoso: perde-se uma aposta e surge a necessidade de apostar novamente para tentar recuperar o que foi perdido. E, nessa busca, muitas vezes comprometem-se o patrimônio, a tranquilidade e o futuro da família.

Legalizar não significa tornar inofensivo.

Por isso, é preciso questionar se a expansão das apostas on-line está sendo acompanhada pela fiscalização e pela proteção necessárias. O Estado não pode ser eficiente para permitir a movimentação de bilhões e, ao mesmo tempo, deixar em segundo plano as consequências sociais desse mercado.

Também é preocupante a forma como as apostas são apresentadas ao público. Mostra-se o vencedor, mas não se mostra a família endividada. Exibe-se o prêmio, mas não se revela o preço da perda.

As autoridades precisam agir com firmeza: fiscalizar, limitar práticas abusivas, proteger os mais vulneráveis e impedir que a publicidade transforme o jogo em uma falsa promessa de prosperidade.

A pergunta é inevitável: de que adianta arrecadar impostos se milhares de famílias pagarem a conta com dívidas, sofrimento e perda de patrimônio?

Nenhuma atividade econômica deveria ser analisada apenas pelo dinheiro que movimenta. É preciso olhar também para o preço que deixa na sociedade.

Porque, quando a aposta entra pelo celular, quem pode acabar saindo pela porta dos fundos é a tranquilidade de uma família inteira.

*Diógenes Pereira da Silva
Tenente do Quadro de Oficiais da Reserva Remunerada da PMMG