Dr. Flávio de Andrade Goulart – Médico, professor de Medicina na UFU e na UNB, secretário de Saúde em Uberlândia e sobrinho do poeta Carlos Drummond de Andrade

Já tratei de tal assunto aqui no blog outras vezes, geralmente aproveitando a edição periódica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. É hora de atualizarmos as informações, portanto. A primeira linha deste post propõe a questão e a resposta para ela é a negação. Brasília (e o DF como um todo), NÃO são lugares violentos. Mas não devemos nos contentar com tal resposta, pois ela vale apenas para a realidade brasileira. Na comparação com outros países estamos muito mal na fita, ou seja, bem posicionados apenas quando nos comparamos com o resto do país. Não nos é possível, realmente, bater no peito e dizer amém, a não ser, na melhor das hipóteses, por ingenuidade, ou, na pior, por má fé. Vamos aos dados. Primeiro no Brasil: nosso país registrou 40.775 mortes violentas intencionais (MVI) em 2025, o que representa uma taxa de 19,1 mortes por 100 mil habitantes, aliás, a menor taxa na última década, representando queda de pouco mais de 8% em relação ao ano de 2024. Isso parece ser o resultado de políticas públicas adequadas, embora contrabalançadas pela tendência armamentista bancada pelo governo anterior. Apesar de tal queda no âmbito nacional, algumas das UF tiveram na verdade aumento das MVI, como foi o caso de RN, RO, RR, AC, MS e RJ, além do próprio DF. Aqui em nossa casa foram registradas nada menos do que 287 MVI, um aumento de 5,8% em relação ao ano anterior, representando uma taxa de 9,6 por 100 mil habitantes, contudo bem abaixo da média nacional, que foi 19,1. No DF, foi também expressiva a variação entre homicídios de mulheres e feminicídios, estes últimos os crimes realizados por razões de gênero. Aqui, dois terços de tais crimes pertencem a esta segunda categoria, estando acima da média nacional. Quanto a este aspecto, em 2025, em termos nacionais, houve redução de 5,5% nos homicídios contra mulheres, enquanto os feminicídios propriamente ditos cresceram 4%, com o feminicídio perfazendo 44% do total, a maior proporção desde a emissão da Lei do Feminicídios em 2025. Vejamos agora os dados mundiais.
Panorama Mundial
• Média global: 6,2 homicídios por 100 mil habitantes;
• Total global: em torno de 437 mil vítimas por ano.
• Em 2021 foram 458 mil mortes.
• “Epidemia de violência”: taxa superior a 10 por 100 mil
Por região
(Região – Taxa por 100 mil – Total de vítimas)
• *América* 16,3 157.000
• *África* 12,5 135.000
• *Europa* 3,0 22.000
• *Oceania* 3,0 1.100
• *Ásia* 2,9 122.000
• As Américas têm a taxa mais alta do mundo; na América Latina e Caribe a taxa chega a 19,6 por 100 mil.
Sub-regiões mais violentas
• América Central: 41,0
• África Austral: 30,5
• África Oriental: 21,9
• América do Sul: 20,0
• Caribe: 16,9
Taxas mais baixas
• Europa Ocidental 1,0,
• Ásia Oriental 1,3,
• Polinésia 0,1
Países com maiores taxas
• – São Cristóvão e Nevis: 124,96 por 100 mil
• – Equador: 84,51 – cidade de Durán: 148 por 100 mil, a mais violenta do mundo
• – Bahamas: 62,03
• – Belize: 51,25
• – Jamaica: 49,3 – maior taxa do mundo em 2023
• – Colômbia: 46,95
• – Brasil: 34,66 homens / 3,92 mulheres. Taxa geral em 2021: 21,3
Onde se concentra a violência
• Apenas 5 países respondem por 40% dos homicídios do mundo: Brasil, Nigéria, México, Índia e África do Sul.
• Só o Brasil teve 47.060 assassinatos em 2023 – recorde mundial.
Perfil das vítimas
• Homens jovens: risco muito maior. Média mundial homens: 11,9 por 100 mil vs mulheres: 2,6
• No Brasil 2023: 34,66 homens vs 3,92 mulheres por 100 mil
• Arma de fogo: nas Américas quase 3/4 dos homicídios são com arma de fogo vs 21% na Europa
Tendências
• 2021 foi um ano “excepcionalmente letal” com aumento ligado à Covid-19 e crime organizado
• Na América Latina e Caribe em 2023 a mudança foi pequena: +0,4%, mas o Caribe subiu 31%. Haiti +119% e Equador +69%