João Batista Domingues Filho – Cientista Político – Professor UFU/INCIS

A capacidade de governar de Lula como um eterno comício é admirável. Criou uma fantasia de Brasil dos pobres na qual todos acreditaram, com pão (Bolsa-Família: cerca de 13 milhões de famílias) e circo (palanque permanente de sua pessoa). Contribuiu para retirar milhões de pessoas da pobreza. Ninguém deve ser contra oferecer alimentação suficiente a quem tem fome e moradia a quem precisa, como exige um ser humano civilizado, com recursos públicos.
É dever do Estado e direito de todo cidadão, numa democracia, viver com dignidade. O problema maior surge daí para frente: como ficará o futuro? Como produzir, com democracia, cidadãos brasileiros livres da dependência do Estado?
A desigualdade social permanece enorme no Brasil. Daí, “dar pão a quem tem fome e fome de justiça a quem tem pão” ser uma política pública justa. A mudança estrutural para acabar com a desigualdade é lenta. Lula preferiu fazer seu show para continuar no poder. Lula virou mito: não demonstra compromisso com a realidade, mas com a construção de sua própria narrativa. Deseja ser um Getúlio Vargas vivo.
Levou todo o movimento sindical para o Estado e ofereceu cada vez mais oportunidades de riqueza aos mais ricos. Não foi um estadista, mas um populista, como Getúlio Vargas e Jânio Quadros.
A política clientelista, com loteamento de cargos, ministérios e autarquias, tornou-se prática recorrente. Reformas estruturais não ocorreram não por falta de poder, mas por opção política. Lula teve condições para promovê-las.
Não realizou reformas essenciais: agrária, tributária e política. Contribuiu, de forma significativa, para a erosão do espaço público, para o enfraquecimento dos movimentos sociais e para a fragilização da cidadania. A esquerda não demonstrou capacidade de realizar reformas estruturais, e Lula foi o principal beneficiado: tornou-se mito.
Lula foi gerado e fortalecido pelos movimentos sociais, mas os ignorou como força política. O povo serviu de base de apoio nos palanques. Desse processo resultou o mensalão, com a cooptação de forças como CUT e UNE pelo governo.
Por que o Brasil não adotou um modelo econômico, social, político e ambiental próprio? Lula teve poder político para tanto, mas optou pela continuidade, assegurando governabilidade e aprovação. Isso caracteriza o populismo. Houve acertos na economia, mas erros na política e no social. Persistiram problemas na saúde, educação, segurança e saneamento.
Nunca houve reconhecimento efetivo de erros. A oposição foi frequentemente responsabilizada. Pesquisas indicavam elevada reprovação na área da saúde. Lula mostrou tolerância diante de práticas de corrupção. Ao final de oito anos de governo, afirmou que o mensalão não existiu, apesar de o esquema ter sido caracterizado pelo STF como envolvendo figuras centrais do governo.
Lula foi capaz de administrar a crise política gerada pelo mensalão. A oposição, por sua vez, apostou no desgaste eleitoral, esperando perda de força nas urnas. À luz da história posterior, vê-se que essa aposta não foi suficiente para interromper a força do lulismo no plano nacional, já que Lula retornou à Presidência e voltou a ocupar o centro da vida política brasileira.
Ao final de seu segundo mandato, Lula deixava uma herança política ampliada e uma agenda de reformas em aberto nas áreas previdenciária, sindical e trabalhista. Reformas implicam custos políticos elevados, que poderiam ter sido enfrentados naquele momento, mas foram evitados em favor da continuidade no poder. Hoje, porém, esse legado precisa ser lido em perspectiva histórica mais ampla, uma vez que Lula voltou ao poder e o debate sobre sua responsabilidade política já não pode ser encerrado apenas como balanço de um ciclo passado