José C. Martelli*

Esta carta não foi dirigida a este blogueiro, mas é como se o fosse, tal a comunhão de ideias.

Meu nome é Jaqueline Reinelli e sou responsável pelo texto “A gente vai embora.”
Tenho o texto registrado em meu nome no cartório de minha cidade, Florianópolis. Posso enviar o registro se preciso for.
Fico imensamente feliz em saber que o texto que fiz em um dos momentos mais difíceis de minha vida também tocou o seu coração.
Eu perdi minha mãe, amiga e companheira, após dez meses eu perdi meu pai, melhor amigo e parceiro em tudo, após alguns meses perdi o meu amado irmão, amigo, aquele que estava sempre para me acalentar, reanimar e fazer seguir em frente. Enfim, foi após estas perdas imensuráveis que em uma noite de solidão eu escrevi este texto. Não para deixar ninguém entristecido, mas, unicamente para mostrar para o maior número de pessoas possível o quanto somos sensíveis, frágeis e que em um piscar de olhos tudo pode mudar e tudo o que conquistamos e tanto brigamos, lutamos para ter, fica aqui….portanto, não faz sentido termos e sim sermos e estarmos, pois a gente vai embora.
Obrigada por ter publicado e obrigada por valorizar quem escreveu.
Um forte abraço,
Jaqueline

A GENTE VAI EMBORA e fica tudo aí,
os planos a longo prazo e as tarefas de casa,
as dívidas com o banco,
as parcelas do carro novo que a gente comprou pra ter status.

A GENTE VAI EMBORA sem sequer guardar as comidas na geladeira,
tudo apodrece, a roupa fica no varal.

A GENTE VAI EMBORA, se dissolve e some toda a importância que pensávamos que tínhamos,
a vida continua, as pessoas superam e seguem suas rotinas normalmente.
A GENTE VAI EMBORA as brigas, as grosserias, a impaciência, serviram para nos afastar de quem nos trazia felicidade e amor.

A GENTE VAI EMBORA e todos os grandes problemas que achávamos que tínhamos se transformam em um imenso vazio, não existem problemas.
Os problemas moram dentro de nós.
As coisas têm a energia que colocamos nelas e exercem em nós a influência que permitimos.

A GENTE VAI EMBORA e o mundo continua caótico, como se a nossa presença ou ausência não fizesse a menor diferença.
Na verdade, não faz.
Somos pequenos, porém, prepotentes. Vivemos nos esquecendo de que a morte anda sempre à espreita.

A GENTE VAI EMBORA, pois é.
É bem assim: Piscou, a vida se vai.. .
O cachorro é doado e se apega aos novos donos.

Os viúvos se casam novamente, andam de mãos dadas e vão ao cinema.

A GENTE VAI EMBORA e somos rapidamente substituídos no cargo que ocupávamos na empresa.

As coisas que sequer emprestávamos são doadas, algumas jogadas fora.

Quando menos se espera, A GENTE VAI EMBORA. Aliás, quem espera morrer?
Se a gente esperasse pela morte, talvez a gente vivesse melhor.
Talvez a gente colocasse nossa melhor roupa hoje,
talvez a gente comesse a sobremesa antes do almoço.
Talvez a gente esperasse menos dos outros,
Se a gente esperasse pela morte, talvez perdoasse mais, risse mais, saísse à tarde para ver o mar, talvez a gente quisesse mais tempo e menos dinheiro.

Quem sabe, a gente entendesse que não vale a pena se entristecer com as coisas banais,
ouvisse mais música e dançasse mesmo sem saber.

O tempo voa.
A partir do momento que a gente nasce,
começa a viagem veloz com destino ao fim – e ainda há aqueles que vivem com pressa!
Sem se dar o presente de reparar que cada dia a mais é um dia a menos, porque A GENTE VAI EMBORA o tempo todo, aos poucos e um pouco mais a cada segundo que passa.

O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO COM O POUCO TEMPO que lhe resta?!

Que possamos ser cada dia melhores e que saibamos reconhecer o que realmente importa nessa passagem pela T

Advogado e professor – Espírito Santo do Pinhal – SP