Gustavo Hoffay*

Nunca escondi de ninguém a minha condição de ex-usuário compulsivo de drogas; sequer quando candidatei-me a um emprego muito concorrido e tive que participar de uma dinâmica de grupo, seguida de uma entrevista com duas psicólogas. De um total de vinte e sete candidatos ao cargo almejado, dois chegaram à etapa final do processo de seleção, mas apenas um alcançou a aprovação final: eu! Passado algum tempo na condição de empregado daquela grande empresa, aos poucos e publicamente fui revelando os períodos do meu tempo de dependente ativo de algumas drogas, todas as vezes que eu tomava conhecimento de algum colega de serviço que havia sido afastado de suas funções e em decorrência única da sua adicção por algum tipo de droga, lícita ou não. Era uma forma de dizer ( mais clara e objetivamente) que sempre existirá uma solução para um usuário-dependente de drogas enxergar-se livre daquela sua condição e tornar a ser feliz,produtivo, querido e aceito pela sua família e também pela grande maioria da comunidade onde está socialmente inserido. Receoso de ser chamado à atenção por alguns dos meus superiores e em função daquelas minhas atitudes, terminei, um dia, sendo chamado à diretoria e ali fui cumprimentado e incentivado a continuar fazendo aquele tipo de abordagem a algum e outro colega de trabalho, desde que previamente consultado pelos mesmos e com a anuência dos seus familiares e da própria diretoria, que elegeria uma psicóloga para um necessário acompanhamento posterior. E digo isso em função de ter tomado conhecimento de que um dependente de álcool foi dispensado de uma empresa, devido ter apresentado-se para o trabalho em estado aparente de embriaguez. A sua dispensa, entretanto, ocorreu de maneira temporária e visto que a Consolidação das Leis do Trabalho preconiza o afastamento temporário de um empregado portador da Síndrome Dependência Química, até que ele conclua um reconhecido tratamento que vise a sua reabilitação. Entretanto fosse aquele mesmo trabalhador um usuário ocasional e que houvesse exagerado no consumo da sua droga de preferência no mesmo dia em que apresentou-se ao trabalho, a empresa poderia – sim – dispensá-lo por justa causa. Cabe aqui uma ligeira e sucinta observação e para a qual recorro aos tempos do Império, quando a escravidão no Brasil tornou-se em uma das maiores misérias da nossa história. Se antes os homens negros eram escravos dos senhores feudais e da burguesia de uma maneira geral, já há tempos o dependente de álcool e/ou outras drogas é considerado como a um escravo daquelas substâncias e muito embora aquele termo seja considerado como a um dos maiores insultos que se possa fazer a uma pessoa. Eu, um escravo…das drogas, do álcool? Sabemos todos a essência da palavra escravidão e ser escravo não é viver em um calabouço fétido e frio; ser escravo não é ter grilhões acorrentando os punhos; ser escravo não é sofrer vergastado sob o azorrague de um senhor pérfido e cruel! Ser escravo é prender-se e acorrentar-se às suas próprias e deletérias paixões. Depois de ter passado um longo período preso aos poderes alucinantes das drogas; ter-me deixado levar pela fúria das paixões delas originadas e ter conhecimento da verdade porém não amá-la; ter covardemente sentido dentro da alma um fogo abrasador que aniquilava minhas esperanças e fazia-me sentir impedido de alcançar nobres ideais de vida, finalmente fui levado por mãos amigas a descobrir que o maior sinal de todas as glórias é o Amor, causa única da grandeza humana. Dalí em diante, a partir de um glorioso trabalho de reabilitação proporcionado pelo querido (e hoje saudoso) Frei Antonino Puglisi , passei a sentir a minha própria grandeza enquanto na condição de homem; encontrei no amor presente na comunidade terapêutica criada e mantida por aquele religioso, a razão única da vida e que já não seria a atração pelas drogas o labéu infame a empanar-me a fronte. Razão única de todos os sacrifícios, o Amor é o grande construtor da vida e cabe ao usuário compulsivo de drogas, aos poucos e por livre e espontâneo desejo, conhecer essa grande verdade, amar a si mesmo e livrar-se dos grilhões originários daquelas substâncias. Já dizia o apóstolo João: aquele que não ama, permanece na morte. Assim, o usuário dependente de drogas deve reaprender a amar para descobrir-se vivo e produtivo, querido e amado por seus familiares e amigos. Não creio estar na inteligência a sede da inteligência humana, sequer na saúde ou nos músculos, mas unicamente no coração e onde repousa o ministério da ação, da vida! Daí a importância da capacidade divina de amar e amar-se. E é isso o que leva um usuário compulsivo de drogas a reabilitar-se e voltar, de fato, à vida; à verdadeira vida!

*Presidente do Conselho Curador – Fundação Frei Antonino Puglisi
Uberlândia-MG

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