Shyrley Pimenta*

Ouvir pode ser um ato de sabedoria. É uma técnica que o hábito e o tempo podem aprimorar. Um passo importante nesse sentido é exercitar os ouvidos e a razão. A arte de ouvir é o que nos propõe Plutarco, um pensador grego que viveu vinte anos em Roma e escreveu cerca de duzentas obras. O pensamento de Plutarco incluía, entre outras, a crença em adivinhações e numerologia e por isso muitos o acusaram de ser pouco dotado de espírito crítico. Contudo, era apreciado por figuras ilustres como Shakespeare, Rabelais e Montaigne.

Em seu texto “Como Ouvir”, publicado pela Martins Fontes, Plutarco tenta resgatar a arte de ouvir, preterida no seu tempo, um tempo que punha ênfase na oratória, a arte de falar ao público. O texto de Plutarco se aplica, com muita propriedade, ao nosso tempo, marcado pela sofisticação tecnológica que nos seduz, nos isola e nos dispersa de múltiplas formas. Interessado nos rumos da existência humana e preocupado em proteger, principalmente, os jovens dos discursos sofistas, Plutarco propunha os fundamentos da arte de ouvir, de exercitar a nossa capacidade humana de distinguir, na quantidade enorme de falantes, os bons dos maus discursos.
O texto de Plutarco vem, muito a propósito, ocupar um espaço vazio na cena moderna: a necessidade de nos empenharmos na tarefa de ouvir. A arte da escuta nunca se fez tão premente: nas escolas, nos locais de trabalho, nos consultórios médicos. Nestes, é comum a queixa de pacientes de que mal puderam falar, de que suas falas foram interrompidas a meio, e de que retornaram a suas casas cheios de dúvidas e temores. Parece que nossos médicos pós-modernos se afastam cada vez mais dos sábios ensinamentos de Hipócrates (460-377 a. C) segundo o qual a medicina se realiza pelo ato de escutar, olhar, tocar. Ser um bom ouvinte, separar o essencial do acidental, buscar o avesso dos sintomas, daquilo que se mostra, é fundamental.
As considerações de Plutarco nos fazem a proposta de ouvir sem afetação, sem aquela afetação que costuma acompanhar os que se consideram melhores, mais doutos, detentores do monopólio da verdade. Nossa tarefa é buscar, no silêncio, na escuta, na reflexão, o que há de relevante nos discursos, nas falas. E só o exercício da sabedoria pode nos abrir para o outro e para nós mesmos, pode tornar a nossa alma mais leve, mais moderada, mais aberta ao mundo, à natureza, à essencialidade da vida. O exercício da escuta pode ser um antídoto contra a aceleração e a superficialidade do mundo moderno, uma condição necessária para um ideal de vida mais saudável. Parodiando Oswald de Andrade: o sereno exercício da escuta pode ser, sim, a verdadeira prova dos nove. A que nos pode colocar face a face com a verdade. Ainda que provisória, não isenta de dúvidas, a verdade, já dizia Nietzsche, só é verdade porque torna os homens melhores.
E não nos exime, em absoluto, de continuar buscando, investigando, experimentando, sempre sob a égide da escuta, da reflexão, da prudência. Sobre a necessidade da escuta (flutuante) sabem bem os psicanalistas: o passado doloroso que conservamos em nós exige, para ser lido, compreendido e elaborado, uma nova experiência posterior, exige uma reapresentação que abra caminho para a significação, para a libertação do corpo e da alma, encouraçados no sofrimento, na doença.

Psicóloga e educadora – Uberlândia – MG

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