Antônio Pereira – Jornalista e escritor

O coronel Virgílio Rodrigues da Cunha, líder político “cocão”, capitalista, fazendeiro dos primeiros a entusiasmar-se com o zebu na cidade, por questões de saúde escapou de um trágico naufrágio.
Casado em segundas núpcias com d. Vindilina Helena Vieira, seguiu, com a esposa e a sobrinha Leonor Vieira Barbosa, para a Europa, em viagem de turismo.
Seu retorno estava marcado para os primeiros dias de novembro de 1927, pelo navio “Principessa Mafalda”, conforme telegrama passado de lá pelo coronel Franklin Jardim, que era seu amigo, para o Joaquim Fonseca.
É curioso destacar que esse navio, em outras viagens, trouxe muitos imigrantes italianos que, um dia, vieram para Uberabinha e que o coronel Franklin Jardim, foi um dos primeiros, senão o primeiro, gerente da agência local do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, o primeiro a instalar-se em Uberabinha, em 1919.
Quando foi às 17 horas do dia 25 de outubro de 1927, o navio “Avelona” captou um SOS do “Principessa Mafalda” que naufragava. Sua hélice fora rompida e havia um buraco enorme na proa por onde entrava grande quantidade de água. O “Avelona” dirigiu-se a todo vapor para o local, mas só chegou depois da imersão do navio avariado.
No local, a superfície irrequieta do mar já estava sendo varrida pelos refletores de outros seis navios: “Empire Star”, “Rosette”, “King Frederic”, “Formose”, “Mirelle” e “Altena”.
Um ou outro sobrevivente entre barcos, jangadas, peças de madeira, bagagens, calhaus, latas, pedaços de lona, destroços.
Estava também no “Principessa” um casal de família tradicional de Uberaba: Walter Borges e a esposa.
O navio adernava, Walter e a esposa estavam na proa, munidos de salva-vidas. Não havia mais barcos no “Principessa” e os que haviam partido levando passageiros não voltaram mais. Walter agarrou a esposa pelas costas dizendo que ia jogá-la ao mar. Ela pediu que não o fizesse. Quatro longos e fúnebres apitos do navio que começava a afundar desesperaram-no. Agarrou a esposa à força, atirou-a e pulou atrás. Afundaram e retornaram à superfície. O navio desapareceu. No seu afundamento, deixou cair para os lados dos dois um enorme cano que não os atingiu.
Walter nadava em direção aos barcos e puxava a esposa. Extenuado via tubarões roçarem a superfície. Mais tarde, ele contou que chegou a ver um náufrago ser abocanhado por uma daquelas feras marítimas. Um barco do “Formose” recolheu-os.
Logo a notícia se espalhou pela cidade. O navio em que vinha o coronel Virgílio naufragara. Houve um rebuliço na velha Uberabinha e muitas orações pela alma do coronel e de sua família.
Seus amigos e correligionários enviaram telegramas para todos os lados, inclusive para o cônsul brasileiro em Gênova, Epitácio Pessoa. Pediam a confirmação do nome do navio em que voltara o coronel. A primeira resposta a chegar foi do dr. João Alcântara informando que o coronel seguia pelo navio “Júlio César”.
Na verdade, o coronel Virgílio Rodrigues da Cunha já tinha encomendado as passagens pelo “Principessa Mafalda”. Mas, encontrando-se com o dr. João Alcântara, foi aconselhado a que se internasse num hospital e ficasse sob observação, talvez por algum sintoma que tenha revelado ao amigo médico. O coronel atendeu o conselho e suspendeu as passagens adquiridas.
Tão logo chegou a notícia de que ele estava vivo e de volta com a família para Uberabinha, a cidade reconfortada se preparou pare recebê-lo festivamente.
Chegou pelo trem Expresso da Mogiana. O povo lotava a gare. Autoridades e pessoas de representação esperavam-no entusiasmadas e felizes.
Quando a locomotiva do Expresso apitou anunciando a sua chegada, a Banda União Operária explodiu num vibrante dobrado.Fontes: jornais da época e d. Leonor Vieira Barbosa