De Belo Horizonte a amiga Paula enviou-me espontaneamente, via Internet, foto que registra a minha presença em uma descontraída reunião com grandes amigos à mesa de um bar naquela capital; um feliz encontro ocorrido em meados dos anos 70 e quando eu contava dezesseis ou no máximo dezessete anos de idade. Uma foto da qual eu já não lembrava e em função de um momento vivido há quase meio século! Que surpresa e quanta satisfação em rever sorridentes aqueles seis amigos, lembrar-me daquela época, quase sentindo o calor e a descontração de um encontro radioso, tão comum e sadio durante uma feliz e efervescente adolescência em pleno período de chumbo, ditadura e caça aos comunistas que “comiam criancinhas”; um período marcado pelo milagre econômico e de um ufanismo jamais visto em toda a história da nação tupiniquim. Daquela foto restam vivos apenas eu e uma outra amiga: Lulude ! As outras pessoas, aqueles sorrisos, aquela descontração e aquele registro de felicidade hoje sobrevivem apenas em uma fotografia em preto e branco: Ricardo “Azeitona”, Bosco, Nina, Fatinha e o “Beleza”. Então cheios de alegria e energia, universitários e sonhadores, eles retornaram ainda muito cedo ao reencontro com Deus, a origem de todos nós. Assustei-me com essa revelação a partir da minha amiga Paula, justo quando preparava-me para rever a todos, abraçar efusivamente cada um deles, saber o que fizeram de suas vidas, suas realizações, seus casamentos, seus filhos, netos….; lembrar com eles do nosso tempo de estudo ginasial no colégio marista Dom Silvério, quando planejávamos o nosso futuro, ilimitados em nossa esperança de ser o melhor naquilo que desejávamos para as nossas vidas e enquanto nossos pais, certamente, apresentavam seus pedidos e súplicas a
Deus e a todos os santos para que seguíssemos, abençoados, em direção à luz que deveria iluminar o nosso caminho, na busca daquilo que fosse o melhor para cada um de nós. Mas hoje, penso, Deus dá o que nos convém e nem sempre o que desejamos. Nossa visão é limitada e estamos sujeitos a erros e tentações e por isso, imagino, resta-nos ter aceitação se não conseguimos abraçar aquilo que tanto gostaríamos alcançar, ser e realizar. Somente com o tempo e nunca desistindo de conquistar alguns dos meus ideais de vida, aprendi que se Ele não dava o que eu Lhe pedia, era porque Ele havia reservado para mim o que de fato era de importância para a minha vida. Porque não tornei a encontrar ao menos alguns daqueles amigos, antes que partissem desta para a outra vida? Porque não tive a alegre oportunidade de reviver com eles, entre sorrisos, abraços, gargalhadas e lágrimas de felicidade alguns dos nossos melhores momentos de convivência em nossa saudosa e animada adolescência, nossas idas ao Mineirão, as viagens que fazíamos juntos, os barzinhos e nossas estréias como notívagos da capital mineira, os primeiros romances e as animadas festinhas nas garages das casas de colegas de escola….? Porque partiram tão cedo, depois de tanto esforçarem-se para alcançar um sonhado diploma, a profissão e a vida desejados? Porque rezar e crer em um Ser Superior que impede a muitos de alcançarem aquilo que é o seu principal objetivo de vida, de vivê-la saudável e intensamente por muitos anos ? Ora, francamente…Deus não é o gênio da “lâmpada mágica” que concede-nos o que desejamos, mas Ele nos dá a força, a paciência e o destemor para superarmos os desafios e os golpes que a vida impinge a cada um de nós. Deus é nosso eterno aliado, nosso escudo, nunca um adversário; Ele é a nossa fonte de poder, esperança e força para seguirmos fortes e determinados enquanto em nossa caminhada terrestre. Quantas são as pessoas que não são atendidas em suas preces? Será que Ele estendeu uma rede para, por exemplo, salvar dezenas e dezenas de vidas do temporal que recentemente desabou sobre o litoral paulista ou para impedir que um mar de lama soterrasse centenas de vidas em Brumadinho? As pessoas que rezam para ganhar na Mega Sena, são todas atendidas? Certamente que não, mas aquelas que oram com fé e pedem a Deus que conceda-lhes coragem e fortaleza para suportar o insuportável, muitas vezes têm suas orações atendidas pois descobrem ter muito mais força, sabedoria e coragem do que imaginam possuir para enfrentar os desafios, desavenças e dificuldades que, nem sempre, o dinheiro de um mega prêmio pode proporcionar; a isso dá-se o nome de FÉ! A misericórdia de Deus não faltou, por exemplo, em São Sebastião; mas sim a imprudência de muitos ao construírem suas casas em locais indevidos, inseguros e onde fatores naturais originaram tamanha tragédia. A filosofia ensina que toda ação tem sua razão suficiente; nada acontece sem uma explicação adequada. Com anos de atraso sofri muito menos ao tomar conhecimento da perda daqueles amigos, hoje apenas uma saudosa e alegre lembrança na minha mente e formatada em uma fotografia em preto e branco sobre a estante da minha sala. E agradeço a Deus por isso, por não vê-los sofrer e partir, por não deixar-me padecer na época de seus respectivos desenlaces; por entender o porque d’Ele escrever certo por linhas tortas para que, com o devido e necessário tempo, eu pudesse alinhá-las e discerni-las de maneira indolente ou o mais próximo disso. A fé de que tudo existe e ocorre de maneira a ser entendido, admirado e administrado por nós em nosso próprio benefício, é o que consola-nos e mesmo enquanto vivemos solicitados por compromissos diversos, diários e com hora marcados; a fé expande a nossa esperança e a nossa aceitação. Ter fé, abraçar a fé e viver a fé é ter a certeza de um alívio, de um conforto que necessitamos para viver bem e melhor.

Gustavo Hoffay
Agente Social
Uberlândia-MG