– “Com esta senha o senhor irá dirigir-se àquela fila e aguardar. Assim que for chamado, espere na fila da direita e fique de olho na tela daquela TV; ali irá aparecer o número da sua senha. Em seguida apresente-se munido dos seus documentos ao guichê indicado e aguarde na fila até ser chamado pela secretária do seu médico”. Aquelas seriam “apenas” as filas seguintes a partir do momento que saí de casa e entrei na fila de um ponto de ônibus e onde, aproximadamente, uma dúzia de pessoas já aguardava pela chegada daquele meio de transporte. Passada meia hora lá estava eu, novamente, em outra fila e esperando pela chegada de um ônibus que iria levar-me até ao Terminal Central; lá eu enfrentaria mais uma fila para embarcar em um outro ônibus , dessa vez rumo a um terminal complementar e onde, após aguardar em uma outra fila, serviria – me de mais um ônibus para, finalmente, chegar ao hospital onde estava agendada a minha consulta médica, não sem antes aguardar em mais uma fila a minha tão aguardada consulta. Eu já não lembrava mais o número de filas em que havia estado até aquele momento e desde que havia saído desde a minha casa, na Zona Oeste; mas posso jurar de pé junto que, até vislumbrar a porta de entrada do consultório médico, na Zona Leste, investi ao menos uma hora do meu tempo e da minha serenidade naquele estressante exercício de esperar….em filas. Durante aquele percurso a minha agonia e o meu desânimo aumentavam, acirrados pelo fato de ter esquecido de levar comigo o livro que eu estava lendo com especial interesse e de autoria de um dos autores de romances da minha preferência, John Grisham, com o qual estava deliciando-me naqueles dias e muito embora “A Viagem de Theo”, de Catherine Clément, vez e outra,chamasse-me à atenção para que eu continuasse regalando-me enquanto passeando pelas suas seiscentas e sete páginas, à medida que eu aprendia ao menos um pouco sobre os fundamentos básicos das religiões mais praticadas no mundo. A bateria do meu antigo e desgastado celular já estava em seus últimos picos de carga, o que impedia-me de usá-lo e de modo a passar o tempo enquanto, inquieto, aguardava por atendimento em uma daquelas extensas carreiras formadas por pessoas diversas . Em suma, em cada uma das filas restava-me olhar ao redor ou para o alto e para baixo, ao mesmo tempo que exercitava ambas as panturrilhas para que as pernas não inchassem e ardessem. E não demorou muito para que viesse à minha memória uma qualidade distintiva fundamental do meu ex-sogro, Geraldinho, a qual lamentei não possuir mas que, naqueles cruciantes momentos de espera em cada uma daquelas abomináveis filas seria – me, confesso, de extrema utilidade: conversar, conversar e conversar a respeito de qualquer assunto e com qualquer pessoa parceira daquele mesmo tormento, como forma de abrandar a minha agonia. E isso, quem me conhece, sabe que não sou capaz de fazer. Geraldinho, ao contrário, era um proseador de primeira grandeza, sublime, embora fosse uma pessoa extremamente modesta, jeitão brejeiro e estranhamente apelidado de “pau oco”. Onde houvesse uma fieira de gente – de qualquer extensão e para qualquer finalidade – lá estava o Geraldinho, ocupando o seu tempo ocioso com a sua tradicional lenga-lenga, satisfazendo-se, animando respeitosamente os “fileiros” com suas conversas fiadas e papos furados, enquanto impulsionado por seu coração manso e bondoso. Filas, enfim, serviam de grande atrativo para que ele ocupasse o seu tempo preguiçoso. Saudades, Geraldinho….Neste mundo onde o que mais se espera é o que ele mais precisa de cada um de nós, espero continuar tendo ao menos um pouco da serenidade e da humildade que conheci naquele meu sogro, de maneira a evitar discussões por bobagens e que, no dia seguinte, perdem qualquer importância que imagina-se pudesse haver, enquanto assuntos que poderiam auxiliar a mover o mundo e mudar para melhor a vida de pessoas diversas sequer são ditos de maneira espontânea e gratuita….em filas, pois egoística e comodamente permanecem camuflados pelo nosso orgulho. Acredito faltar “geraldinhos” dispostos a levar alegria para muitos e de forma a preencher lacunas que podem auxiliar na edificação de um mundo melhor e, quiça, sem filas de espera, pois muito infelizmente faltam pessoas iguais a ele em toda parte onde reina o resmungo e a impaciência. A pouco mais de um ano aguardo, em fila, da forma de milhares de outros brasileiros, por um exame de saúde na rede pública e o que aumenta ainda mais a saudade daquele meu amigo e ex-sogro, para que ele pudesse consolar a minha agonia de espera e fazer-me rir, verdadeiramente, diante do descaso de muitas das nossas autoridades naquela área e em função de outros investimentos que julgam ser de maior importância que a saúde do povo que governam e que move ou um dia moveu a economia deste país . Recentemente, ouvi dizer, a fila de quem aguarda por algum tipo de atendimento na área da saúde pública, em Uberlândia, vai andar, mover-se com maior ligeireza; aliás uma urgente, feliz e necessária readequação à hoje sofrível realidade para quem depende de atenção à saúde. O despertar de autoridades municipais investidas de prerrogativas inerentes aos serviços públicos de saúde em nosso município, embora tardio, dá sinais de que poderá tornar mais competentes e responsáveis os atos daquela natureza para dezenas de milhares de habitantes desta cosmopolita metrópole e que não têm condições de arcar com os altos custos de algum particular plano de saúde. Que bom! Menos fila, mais conforto, menos espera, mais alívio e esperança, mas sem o Geraldinho….., hoje no céu e a animar a todos os anjos e santos com o seu fagueiro palavrório!
Gustavo Hoffay
Agente Social
Uberlândia-MG