Marília Alves Cunha – Educadora e escritora – Uberlândia – MG

Estamos assistindo um recrudescimento da censura no Brasil, coisa deveras preocupante num país democrata, cuja Constituição Federal, lei maior a reger condutas, expressa com clareza cristalina o respeito que se deve ter à liberdade de pensamento e opinião. Coisa preocupante num país que procura, à duras penas, sair de crises e encontrar o rumo de um porto seguro. Muito preocupante impor censura, quando existe um povo ansioso por amadurecer, se manifestar e participar da vida política. Mais preocupante ainda, fazer de uma nação um inferno de intranquilidade, podando-lhe a voz e acrescentando ao seu conjunto de inseguranças o temor de pensar, questionar, duvidar, sentir, expor-se. Coisa difícil de entender… Estamos em pleno século XXI, quando se clama tanto pelas liberdades e pelo respeito aos direitos humanos. Difícil entender…
A censura, principalmente vinda de instituições, gera temor. Poucos ou quase ninguém desejam arriscar-se a tecer opiniões e expor suas ideias, se isto contraria o que está escrito ou posto no figurino dos “politicamente corretos” ou no que prescrevem aqueles que se julgam senhores da “verdade” que não pode ser desmentida e tem que ser tida como absoluta. Se você contraria o figurino, você passa a pertencer a outro mundo. Um mundo onde tudo é Fake News, é antidemocrático, é abusivo às instituições, é ódio, é violência, é discriminatório, mesmo que nada, nem um gesto ou palavra corrobore a sua presença naquele mundo. Basta uma palavra ou um gesto fora do esquadro montado, para que uma pessoa se torne uma diabólica e devastadora mente, perigosa ao ponto de derrubar os alicerces da república… Coisa impressionante!
E vão todos se calando, se autocensurando, receosos de cair na rede que foi sendo tecida ao longo do tempo. Existem promessas (ou seriam ameaças?) e os fatos demonstram: haverá prisão, pena, castigo, cancelamento pessoal e profissional para seja quem for, jornalista, político, blogueiro, dona de casa, qualquer um… É o que estamos assistindo, não há como negar!
Existe o judiciário em suas categorias próprias para instaurar inquéritos, julgar, condenar ou absolver de acordo com o devido processo legal. Em completo desrespeito a isto prisões arbitrárias estão em voga, inquéritos “finem mundi”, cassação de deputado também. Idem para cancelamento nas redes sociais ou desmonetização de canais. Até mesmo o Presidente da República está sendo excluído de algumas redes sociais e sabemos bem o por quê… Não existem robôs, não existe gabinete do ódio, não existe disparo em massa em campanha eleitoral e nem milagreiros que ditam o que é e o que não é Fake News. Existe apenas a vontade de um povo que descobriu sua força e quer votar em quem bem entender e manifestar-se como bem o desejar… E interessante, todo aparelho censurador se volta manifestamente contra pessoas do mesmo espectro político conservador…
Estamos com problemas? Sim, é claro, é indubitável. Como livrar-se dos problemas e ficar bem na foto? Evite falar de política (que pena, a gente estava aprendendo a participar), também de ideologia de gênero, de eleição, de orientação sexual, de família, de religião, de urnas eletrônicas e sua inviolabilidade, de doença, de remédios, de vacina, pandemia, passaporte sanitário, de banheiro unissex, da língua portuguesa, de criações artísticas e culturais, do Congresso, do STF, do TSE. Ainda, evite falar de qualquer coisa que possa mostrar algo de sí mesmo. Seja mais egoísta e, se necessário, acrescente a isto uma pitada de hipocrisia… E um aviso sério e urgente torna-se necessário! É melhor não ficar pensando muito. Aquele “penso, logo existo” do icônico filósofo Decartes vai perdendo seu encanto. Pensar, hoje em dia, como previu George Orwell, poderá por fim a sua existência como homem livre, dono de arbítrio e juízos de valor.
Marília Alves Cunha