Gustavo Hoffay*
Abandonei duas faculdades, não dei prosseguimento a um casamento, renunciei a oportunidade de fazer carreira como funcionário público federal concursado, desisti da gerência-geral de uma empresa estatal, larguei precocemente a honrosa função de professor e também a direção de um clube recreativo……larguei muito mais e principalmente a mão de Deus, quando conscientemente abracei a droga do álcool e dele, inconscientemente, tornei-me dependente. Mas depois concordei e finalmente segurei com toda a minha força e graças à intervenção de terceiros a primeira oportunidade de reabilitar-me, deliberadamente, a partir da particular e augusta decisão de retomar as rédeas da minha vida, afirmando-me na adesão a uma vida sóbria e produtiva em sociedade, aceitando realidades e dispensando ilusões; deixei de estar acorrentado no dom absoluto de mim mesmo e na aceitação da escravidão em relação ao inimigo que insistia dominar a minha mente. Fiquei irresoluto, focado no desejo de manter-me continuamente sóbrio e produtivo, feliz e consciente após concluir um longo processo pela minha reabilitação; passei a procurar somente a verdade, o bem e a justiça e até hoje, passados vinte e cinco anos desde então e já quase um septuagenário ainda me assumo, sim, um ingênuo e faço questão de continuar sendo um ingênuo, uma pessoa que acredita no ideal, na justiça, na verdade, no bem, num pouco de bondade no coração dos homens. A vinte e cinco anos continuo insistindo em acreditar em recursos escassos e admitindo travar batalhas – em boa fé – com os poderosos, gente como a gente e enquanto na busca de recursos para o benefício de causas louváveis. A reabilitação desde o submundo das drogas é possível para todos que nelas deixaram-se acomodar e inclusive para o mais pobre, o mais ignorante, o mais despreocupado, o mais depravado, o mais desalentado….A luz do Cristo alumia as trevas para todos eles; eles têm necessidade dessa luz, eles estão infelizes. Eles precisam ser estimados como homens amados por Deus, para que estimem todas as coisas segundo o valor delas em relação ao plano divino. Amemos os dependentes químicos em atividade de sua adicção pelas drogas lícitas e/ou ilícitas, para que eles se retifiquem por dentro, tenham horror ao se demolirem ou se atrofiarem em função do uso e abuso de drogas legais ou ilegais de sua preferência, para que aprendam a ter respeito pela própria grandeza e pelas grandezas de qualquer criatura humana, para que venham a ter a preocupação da verdade e do direito, para que passem a respeitar os bens e a honra de terceiros, para que reconheçam no outro o mesmo direito à vida, para que a vida do Cristo seja neles, para que o amor – com o qual Cristo os amou – opere neles e possam, enfim, por sua livre e espontânea decisão, tornarem à verdadeira vida por meio de um profícuo trabalho de reabilitação e em seguida persistirem sóbrios, felizes e diligentes em suas respectivas caminhadas . O dependente químico em atividade da sua adicção pelo álcool e/ou outras drogas, clama – mesmo que silenciosamente – por ajuda, por uma luz, pela esperança de uma vida longe das substâncias químicas alteradoras do humor, enquanto devendo sempre acreditar em suas naturais potencialidades e as quais, até a pouco tempo, encontravam-se encobertas pelas cinzas dos seus fracassos e frustrações. Não importa o que foi, os títulos que possui ou as grandes oportunidades que deliberadamente deixou escapar; doravante deve importar-se, sim, em manter a sua auto-estima elevada e orgulhar-se de tornar a tomar a direção da sua própria vida e honrosamente lutar por ela.
Gustavo Hoffay
*Ex-diretor da Fundação Giuseppina Saita, ex-presidente Cons. Deliberativo da Fundação Frei Antonino Puglisi, ex-diretor do Conselho Municipal Antidrogas de Uberlândia(MG), palestrante e dependente químico reabilitado.
Uberlândia-MG