Marília Alves Cunha – Educadora e escritora – Uberlândia – MG
“Saudade é arrumar o quarto, do filho que já morreu…”
(Chico Buarque de Holanda)
Coisa difícil da gente lidar… Porque sentir saudade é estar apartada de algo ou alguém que se quer muito. É sofrer uma falta imensa que pode nos ferir, momentânea ou circunstancialmente. E como dói!
Dia desses, por exemplo, tive vontade de voltar lá no passado distante, infância risonha e franca, para comer marmelada com leite. Não qualquer marmelada com leite. Mas aquela, doce feito no tacho de cobre sobre labaredas ardentes, virado e revirado por potente pá de madeira, marmelo colhido bem alí, na fazenda da tia. Ninguém fazia ou faz coisa igual a marmelada da tia Talita. E o leite? Grosso, morno ao natural, colhido na hora e derramado direto na caneca. Prazer que só vive na lembrança, sensação que se perdeu, fato gerador de saudades. Mas passo até bem sem esta gostosura, apesar da saudade…
Saudade é um sentimento que me acompanha todos os dias. Vivo cercada de lembranças: retratos, objetos, música, cheiros, histórias que reconto para mim mesmo. Entre as muitas saudades, algumas quase insuportáveis, daquelas que vez em quando tiram o ar, arrocham o peito, dão vontade de fechar os olhos, sumir do mapa ou besuntar-se de dor e solidão. Luto contra, buscando vida sem desfazer-me delas – das saudades. Repito muito a palavra, sem outra para colocar no lugar, existência sem sinônimos.
Marlene, minha irmã. Muito difícil viver sem esta gostosura de alma grande. Está na minha lista de melhores pessoas do planeta. Tinha dentro de sí um mundo tão rico e tão extraordinário em beleza, emoção e sensibilidade que chegava a ser difícil conviver com ela sem sentir-se em falta… Dois anos mais velha que eu, desde sempre se empenhou em defender-me e proteger-me, como se eu fosse uma preciosidade a ser resguardada. E eu sempre me aninhei naquela proteção, como pássaro que se abriga confiante sob asas maternas. Tratei também de colocá-la no colo, sempre que a vida batia forte e nuvens escuras sombreavam o dia.
Uma das lembranças mais tristes, quardadinha no coração, foi a nossa 1ª. despedida. A Marlene, por gosto de meu pai e a contragosto nosso foi matriculada num conservatório de música, em BH. Tinha apenas 14 anos, acabara de fazer o ginásio. Em aparência apenas 11, magricela e tímida. Na véspera da sua partida fomos ao cinema, como sempre fazíamos. Imagens se alternavam na tela, sem sentido… Ao final, voltamos para casa, mãos dadas, suadas, apertadas uma na outra, andando devagar para acalmar o tempo. Nenhuma conversa, nenhum olhar trocado. Qualquer gesto, qualquer som poderia desencadear um escandaloso choro ou um abraçar desesperado no meio da larga avenida. Permanecemos contidas. Não era do nosso temperamento estas grandes efusões emotivas.
Próximo a casa soltamos as mãos suadas. Mudei de calçada, nos desgarramos. Era o prenúncio do que sentíamos: estavam nos separando, almas infinitamente ligadas. A sensação de perda e de vazio marcaria nossas vidas por longo tempo.
Perder a Marlene, de verdade, foi um pouco a perda de mim mesmo. Querer sua presença talvez seja parte do meu espírito humano e egoísta. Como é difícil e sem graça viver sem o aconchego daquela que me colocava no alto, para quem eu era a mais bonita, a melhor pessoa, a mais inteligente, a mais engraçada, a que mais merecia receber da vida todos os benefícios e privilégios.
Como é doloroso ficar sem alguém que me amou tanto assim. Como faz falta a minha Marlene…