Dr. Flávio de Andrade Goulart*

Este ano infeliz felizmente já se finda. Pelo retrovisor, é hora de analisar os acontecimentos que o compuseram. Ou, quem sabe, seria melhor esquecê-los? Não! Melhor lembrar, para não corrermos o risco de esquecer o verdadeiro nó cego em que fomos colocados, graças à escolha insensata de um punhado de brasileiros que pareciam, em 2018, não ter os pés na realidade. Um tanto deles ainda estão em tal posição, embora com pés trocados pelas mãos, agora atolados na lama até o pescoço e com os joelhos no chão. Brasil acima de tudo e Deus acima de todos – e alguns idiotas por fora de tudo – eis o lema que define essa gente. Mas agora há luzes no horizonte e embora não haja garantia de que não virão muitas dificuldades pela frente, sempre serão luzes. E através deste túnel que parecia não ter fim chegamos finalmente a um lugar mais arejado e claro. Assim, toca a fazer uma retrospectiva de 2022, valendo para o País e para o DF, como convém a esta época do ano.
A primeira constatação é que tudo permaneceu como estava em 2021, não para disfarçar alguma mudança, mas para fazer com que o país ficasse mesmo parado no tempo. Aliás, como disse o grande líder do chiqueirinho do Alvorada, o ideal seria fazer o país voltar à década de 60, com os fardados no poder e a máquina de engodo funcionado a todo vapor no Planalto. Neste quesito, todavia, ele não teve muito sucesso, embora tivesse tentado de toda maneira promover uma marcha a ré geral. Alexandrão nos salvou, mas por pouco aquele lá obteria sucesso…
Mas apesar dos intentos do comandante do chiqueiro em deter o progresso social, 2022 foi um ano movimentado. A Covid levou quase 800 mil; o dito foi negado e o negado acabou confirmado; milhares de militares permaneceram lotados nas repartições civis; o glorioso Queiroga, que pelo menos sabia o significado da sigla SUS, por pouco não superou Pazzuelo na incúria e no puxa-saquismo; Damares expôs suas mentiras e paranoias arborícolas e de cunho sexual; um ministro tocou sanfona, outros tantos contaram mentiras; a situação do país que já andava troncha no cenário internacional piorou ainda mais; o presidente, tão operoso, fez passeios de motocicletas, carros de luxo, camionetes 4×4, lanchas, jet skis, jegues, braganetos, kassios, mendonças e sabe-se lá em que semoventes mais; o incansável mandatário ainda se engraçou com cantores breganejos, em mais de uma ocasião; teóricos da conspiração, charlatães e falsos sabichões continuaram a ser ouvidos como se tivessem alguma coisa de importante a dizer; Neymar rendeu vassalagem, sem entregar, entretanto o que prometeu; o amigo Trump padeceu com a Justiça em seu encalço; armas foram registradas aos milhares; decretos foram assinados num dia e revogados no outro e republicados mais adiante; no chiqueirinho do Alvorada se anunciaram medidas mil para a salvação nacional; ato contínuo, o chiqueirinho foi abandonado; a erisipela, antes moléstia subcutânea, mostrou poder de alcançar também a mente, num fenômeno ainda não explicado pelo Dr. Queiroga; a palavra liberdade, à moda de Orwel, passou a significar cala-boca e os palpites e as opiniões de mesa de boteco e espalhados nas redes sociais foram transformados na última verdade; blindados foram comprados de última hora, certamente para substituir os produtores de fumacê que desfilaram na Esplanada dos Ministérios; generais que fracassaram no leito conjugal (e no Haiti) não foram salvos pelas pílulas azuis, mas continuam a emitir ameaças e platitudes sobre a situação nacional; os filhos zero-zero, a cada dia, acrescentam novas vergonhas ao cenário, que vão da compra de mansões à distribuição internacional de pen-drives; o governo se esmerou na destruição das políticas públicas do país, aproveitando integralmente o tempo que lhe sobrou depois dos passeios e da campanha eleitoral em geral; a esposinha ofendida exibiu seu beicinho, no que foi acompanhada pelo zero do meio. E por falar em beicinho, o mandatário se trancou em Palácio e decretou que em brincadeira assim, em que não lhe garantam a vitória, não entra mais.
E para completar, Deus, convocado para garantir a Presidência a tal sujeito, não deu a mínima bola a tal pedido.
Mas as emas do Alvorada, aparentemente, pelo menos, puderam ciscar em paz. E que o último general que escapar pela porta da cozinha, pelo menos se lembre de apagar as luzes (e de pagar a conta).
Ah, me lembrei: este blog trata é de saúde…
O problema agora ficou sério, porque por mais que eu tenha procurado eventos relevantes na esfera do Ministério da Saúde não consegui encontrar. O que vi foi uma esfera totalmente plana, como o Planeta, sem que nada se destacasse na paisagem. Aqui e ali o que pude encontrar foram coisas como o apodrecimento de vacinas e reagentes em armazéns alugados a peso de ouro pelo Ministério da Saúde (peso de outro, aliás, que fez parte do esquema de propina capitaneado por pastores evangélicos de livre trânsito no MS e no Palácio do Planalto); a desativação quase total do programa Farmácia Popular; capitãs cloroquinas e outros mais, de patente e especialidade farmacológica diversificada, pontificando nos corredores do Bloco G da Esplanada dos Ministérios; bolsas de estudo da pós graduação descontinuadas, não só na saúde como em outras áreas; orçamento da saúde tratado com amputações sucessivas; licitações para compra de vacinas e outros insumos farmacêuticos empacadas; o ínclito coordenador de Ciência e Tecnologia do MS fazendo reiterados elogios à cloroquina e à ivermectina, sem deixar de duvidar da eficácia das vacinas; sua excelência o Ministro da Saúde comparecendo a quantos eventos desimportantes para os quais foi convidado, faltando apenas a algum batizado de bonecas por aí; toda discussão sobre aborto e direitos reprodutivos paralisada, enquanto a parceria entre o governo e as entidades médicas lideradas pelo CFM mostrava-se altamente produtiva; a opinião da sociedade civil organizada na saúde desprezada em praticamente todas as decisões do MS, ao contrário das opiniões dos zero-qualquer coisa em nomeações para a área.
Teve também a instituição de solenidade matinal do hasteamento da bandeira do Brasil à porta do Ministério da Saúde. Nem tudo está perdido…
Mas sem dúvida é preciso insistir em descobrir alguma coisa positiva, de fato. Vou aprofundar minhas pesquisas…
E no DF, existiriam perspectivas melhores? Nada… Aqui o suíno enrosca a cauda, pois o governo continua o mesmo, ou seja, temos que nos preparar para mais uma entediante temporada de mais do mesmo.
Sem dúvida, o que nos aguarda é a continuação do marasmo. Nada de ousadias, nada de decisões coerentes, nada de avanços nas políticas, pois certamente se vai navegar em uma zona total de conforto, cinzenta, opaca, sem surpresas. A secretária que veio do Acre (ou será de Rondônia?) certamente continuará nos brindando com seu desconhecimento – de dimensões verdadeiramente amazônicas – a respeito daquilo que realmente importa na saúde de uma cidade complexa como é o DF. As questões mais candentes e desafiadoras continuarão a ser ignoradas, como, por exemplo, a articulação com os municípios do Entorno; as áreas vazias de cobertura no território; o aprofundamento da descentralização da gestão na rede de serviços; a regulação tecnológica a serviço da saúde e não dos interesses do complexo comercial e produtor ; o planejamento baseado nas necessidades reais da população; o estabelecimento de remuneração de prestadores e servidores com base em valor; a informatização da rede de serviços; as parcerias público-privadas corretamente controladas pelo Poder Público etc. E bota etc nisso.
E assim, no plano federal, se encerra melancolicamente (mas com grande alívio por parte da cidadania), um governo que nem deveria ter começado. Aqui no DF a melancolia não é menor, mas cabe armarmo-nos de paciência e resiliência para o que nos espera pelos próximos quatro anos.
***
Antes de encerrar o ano vai aqui uma paródia (de minha autoria, apud Drummond):
A Despedida do Inominável (ou Se acostuma, Jair…)
E agora, Jair?
A eleição acabou,
A luz acendeu,
Seu povo pirou,
O QG se calou.
E tantos vieram,
Pra lhe atazanar.
Sua noite esfriou,
Sua cara caiu,
E você broxou.
E agora Jair?
E agora, você?
Você que é o mito,
Que zomba dos outros,
Que não está nem aí,
Que mente, confirma?
E agora, Jair?
Heleno em silêncio,
Guedes sumido,
Lira no muro
Você traído.
Carluxo o dengoso
Faz beicinhos de raiva.
Tantos lhe rodearam,
Achando-lhe o tal,
E agora, cadê?
Você está preso
Em um quarto, sozinho,
Você e sua empáfia
De bola vazia.
Já não pode sair,
Gritar já não pode
E nem ameaçar.
As coisas mudaram
Em todo o país
E agora, Jair?
E agora Jair?
O cheque a Michele,
Seus gritos e ordens,
As lives de quinta,
O filho que expele
Mensagens a esmo.
Generais lhe ignoram.
A mídia lhe cerca
Mas você só chora
Por não aceitar,
Que foi tudo em vão,
Acabada a mamata
Perdida a eleição.
É duro, Jair…
Sua incoerência,
Sua impaciência,
Seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
Procura uma porta
Não existe porta.
Quer mudar pra Angra,
Mas lá o rejeitam
E muitos lhe espreitam.
Quer comer gente
Em sua quitinete,
Mas tudo mudou,
nada se repete.
Seus fiéis seguidores
Por pouco já veem
Que foi tudo uma farsa.
Quer ir para a Barra
A Barra pesou
Jair, e agora?
Se você gritasse,
Se você gemesse,
Se você ouvisse
O hino nacional.
Se o Olavo vivesse,
Se você fugisse,
Se você morresse…
Mas você não morre
Nem com mil facadas.
Você é duro, Jair!
Sozinho no escuro
Qual bicho-do-mato,
Sem ideologia,
Sem uma mulher nua,
Pra lhe consolar,
Sem um general
Para se encostar.
Sem nenhum cavalo
Que fuja a galope,
Sem motociata,
jet-ski, carreata,
Já não sabe onde ir.
Mas você marcha, Jair.
Jair, para onde?
***
Mas que sejamos todos mais felizes em 2023!
*Flávio de Andrade Goulart é médico, professor de Medicina na UFU e na UNB, secretário municipal de Saúde em Uberlândia e é sobrinho do poeta Carlos Drummond de Andrade.