Quem convive comigo sabe que a minha memória caminha a passos largos em direção a um estado de agonia e, talvez, em função de freqüentes curtos-circuitos ou desavenças entre os dois únicos neurônios que ainda me restam e os quais, brava e heroicamente, resistem ao avanço da minha idade: o Tico e o Teco! Sou capaz de lembrar, até nos mínimos detalhes, de fatos que ocorreram e pessoas que conheci a cinqüenta anos ou mais, porém esqueço de muito daquilo que aconteceu comigo no último domingo e o que, acreditem, somente irei lembrar alguns dias depois. Resumindo, a minha memória recente está em frangalhos! Encontrar subitamente quem não vejo há semanas ou meses e lembrar-me de imediato do seu nome…., tornou-se para mim um sacrifício, um pessoal demérito! Imagino que essas e algumas situações similares foi o que levou-me a exercitar o que ainda resta da minha memória e, por isso, escrever e escrever muito acima da média de outras pessoas que conheço. Devoro livros e, acreditem, chego mesmo a escrever três a cinco páginas diárias a respeito de qualquer assunto que me venha à cabeça; em seguida leio e releio tudo aquilo, depois as amasso e lanço cada uma delas ao cesto de lixo mais próximo. Desde algum considerável tempo venho lendo, relendo e lendo novamente muitas das minhas anotações de uma época magnânima e profusa em aprendizados e experiências de vida fantásticos, da qual orgulho-me sempre de lembrar e prodigalizar: a saga pela minha libertação desde o submundo da dependência química. Daria um livro? Acredito que sim e, sem falsa modéstia, com boas possibilidades de vir a tornar-se um best-seller( aliás,penso, uma narrativa bem intencionada pode vir a figurar entre as favoritas do público e muitos de nós tornarem-se autores bem sucedidos).Esta prazerosa maneira de fazer exercitar os meus neurônios remanescentes e por conseqüência salvar o que ainda me resta de memória, trato na condição de uma valorosa oficina a preparar-me para dar início a novas etapas, a novos ciclos da minha vida enquanto amadurece um pouco mais o meu caráter e proporciona-me momentos de grande satisfação; são saudáveis recordações que, trazidas para a atualidade, evitei que caíssem ao chão e se perdessem por completo. Nos escritos que produzi durante pouco mais de vinte anos e que ainda ouso, algum dia, transformá-los em objeto de reflexões para jovens e principalmente para aqueles em situação de risco para o uso de drogas entorpecentes e/ou estupefacientes, floreio reminiscências de períodos que foram-me dolorosamente marcantes mas sem os quais, certamente, eu não teria formado a bagagem que serviu-me de base para a reconstrução da minha saúde mental e para a conquista de muito daquilo que eu imaginava sequer recuperável ou minimamente realizável em minha vida. Hoje a minha satisfação está na lembrança da grandiosidade e da importância do muito que vivi, enquanto entregando-me totalmente à tarefa de reestruturar-me interiormente, refletindo sobre a grandiosidade do muito que fiz no miolo dos dias passados durante um fantástico programa terapêutico. Permaneço trabalhando em benefício da minha memória recente e enquanto leio (muito), escrevo (muito), me alimento (bem), durmo (bem) e, principalmente, reservo boa parte do meu tempo para estar perto de pessoas que amo ou ir de encontro a outras que não vejo a décadas. Amanhã a minha história recente se tornará distante e o que certamente irá facilitar-me gozar de boas e saudosas recordações. Drogas, nunca mais!

Gustavo Hoffay
Agente Social
Uberlândia-MG