Às vezes penso que nós mesmos cultivamos (e estranhamente não fazemos o mínimo esforço para evitar que brote e prolifere) a violência em meio à sociedade onde somos parte integrante e ativa. Com efeito, passivamente deixamo-nos adaptar (até com certa facilidade) a circunstâncias que induzem a uma espontânea aceitação de muito daquilo que antes provocava-nos reações de medo, angústia, incertezas, repugnância, insegurança……! Mesmo com o crescente aumento e uma infeliz e conseqüente banalização de atos criminosos diversos ( e perversos), desde “simples” roubos e furtos, até a estupros e brutais assassinatos seguidos de morte e esquartejamento das vítimas – muitas vezes por motivos fúteis, sinto aumentar a insensibilidade de pessoas que prestam-se a dar a sua valorosa audiência a certos programas televisivos relacionados à criminalidade, que mais parecem sobreviver em função da desgraça alheia do que pela capacidade dos seus produtores e apresentadores, no sentido de levarem algo realmente útil, educativo e agradável para dentro de nossas salas. Estupros, golpes diversos, roubos, seqüestros, assaltos e atentados – até com emprego de extrema violência – são diariamente veiculados por empresas de telecomunicação que gozam de concessão pública, muito embora (e infelizmente) a renovação da mesma seja automática – ao menos enquanto não houver um rigor maior nesse processo e da parte da Câmara dos Deputados. Ora! São tantos os casos de natureza criminosa – correntes e recorrentes – diariamente noticiados em nosso país que, além de servirem de inspiração para principiantes de uma vida marginal, chegam mesmo a tornar-se popularmente banais e ao ponto de em pouco tempo serem esquecidos, mesmo depois de criteriosa e judiciosamente analisados, julgados e condenados. A nossa sociedade chegou a tal ponto de frouxidão diante de noticiários que antes colocavam-nos em estado de alerta que, muito infelizmente, já aceita com passividade o emprego das palavras “suspeito”, “recolhido”, “meliante” e “subtrair” pelos canais da imprensa para definir o que, respectivamente, deve ser entendido por culpado, preso, criminoso e roubo (ou assalto), como o era até alguns anos passados. Tenho a impressão de que estamos sendo sugestionados a aceitar práticas criminosas como a ocorrências banais, corriqueiras, até mesmo adequadas a determinadas circunstâncias como aquelas originadas de “torcidas organizadas” em estádios de futebol, onde a cólera pública chegaria a causar inveja aos antigos gladiadores romanos. O resultado de tanta anuência diante de uma avassaladora onda notadamente terrorista, seguida de indiferença e resultante de uma analgesia popular é, certamente, o aumento de casos totalmente carentes de racionalidade e protagonizados por bárbaros e vândalos que acham-se acima de qualquer lei ou autoridade. Estamos, mesmo, quase chegando ao ponto da criminalidade passar a ser caracterizada como a algo que deve ser consentido e entendido por qualquer coisa meramente frívola, mesmo que por mais ultrajante seja reconhecermos todos os seus ângulos, modos e matizes lancinantes. Afinal tornamo-nos cada vez mais estranhos e gravemente hipnotizados por suas tramas, enquanto subjugados pelo domínio de quem tem o poder de manter-nos confinados dentro de nossas próprias casas e por alguns outros que, de gravata e paletó, momentaneamente abrigam-se no Congresso Nacional e pouco ou quase nada fazem para livrar-nos do jugo imposto pelos insolentes delinqüentes. A população já agüenta assistir passiva a inércia do estado diante da violência e suas terríveis conseqüências para a vida de milhões de cidadãos enquanto, estranhamente, parte da mesma contenta-se com o simples registro de um ato criminoso em algum Boletim de Ocorrência! Quem de nós, cidadãos, tomou conhecimento de que aquele deputado ou senador a quem confiamos o nosso votou, adotou alguma providencia para fazermos frente ao agravamento da situação de violência por todo o nosso Brasil? Nosso país chegou a um ponto onde meias-medidas e alguns raros decretos, truques e pajelanças apenas provocam meros e reacionários espasmos, ao contrário de adotar efetivas estratégias de combate ao crime. Qualquer criança a partir dos seis anos de idade sabe, com toda certeza, que é a ausência do Estado o que mais estimula a violência criminal e o que é caracterizado, também pela falta de políticas públicas de geração de emprego e renda, além de leis apropriadas e também de policiamento ostensivo nos grandes centros urbanos. Mente ou se engana quem não admite que a ação predadora de jovens e adultos, em bandos ou solitários, é o que vem corroendo física, monetária, financeira e mentalmente a vida de milhões de brasileiros. Se há algo que continua a exercer de maneira implacável e efetiva as suas ações em nosso país, sem dúvida trata-se do crime organizado e que a cada dia aumenta ainda mais o seu poderio no combate sistêmico contra a cidadania, sob o olhar complacente daqueles em quem confiamos os nossos votos.

Gustavo Hoffay
Agente Social
Uberlândia-MG