Dr. Flavio de Andrade Goulart*

Pois é, o lado ensolarado da História prevaleceu. Comemoremos, mas sem esquecer que as trevas não se dissiparam totalmente. Não falo apenas do que nos aguarda até o dia 31 de dezembro, quando as forças do mal ainda reterão um real poder nas mãos. Já não vamos passar tanta vergonha lá fora, mas é preciso lembrar do que ainda está por vir, neste país dilapidado em suas reservas materiais e simbólicas, com seus cidadãos divididos de forma tão drástica. Recompor tal quadro certamente será tarefa das mais árduas – para um gigante da negociação política, um mestre da resiliência, como Lula. Além do mais, seja qual for o destino que os agentes do obscurantismo tomarem, restarão pestilências no ambiente nacional por muito tempo. O novo governo deverá ter competência e credibilidade para reconstruir e pacificar o país. Nós, que o elegemos, precisamos ter, mais do que paciência histórica, capacidade de conciliar iniciativas individuais e coletivas de apoio, sem embargo de mantermos a vigilância crítica, para não truncar a tarefa de reconstrução. Não é luta apenas para os próximos meses, mas para anos inteiros. É algo que o País certamente ainda não viu em nenhum momento de sua história, mesmo quando deixou para trás as trevas da ditadura militar. Há muito o que fazer na saúde, na educação, no meio ambiente, na segurança pública, na economia e em tantas áreas mais. Mas o primeiro desafio, sem dúvida, será o de superar o estado de verdadeira polarização destrutiva com que nos deparamos até agora e passar a agir com os adversários de ontem de forma comunicativa, educativa, interativa, racional e solidária. Afinal, os partidários do bolsonarismo continuarão vivos e atuantes no cenário. Como trazê-los à luz da racionalidade? É a grande pergunta que se impõe.
Mas a verdade é que se não abrirmos tal caminho, continuaremos na penumbra e na incerteza, nós que precisamos de luz, mais luz, cada vez mais! E assim cabe indagar: com que tipo de força poderemos contar para fazer acontecer uma efetiva recomposição da fragmentada sociedade civil que o bolsonarismo deixa como legado ao país? Creio que qualquer resposta não se dará puramente através de influências individuais, por mais brilhantes que sejam, mas nas acumulações que a Filosofia, a Cultura, a Ciência, a Ética, os Valores, trouxeram à humanidade ao longo dos tempos. É preciso recorrer ao pensamento de homens e mulheres que analisaram e se posicionaram frente às grandes crises que a Humanidade já enfrentou. Entender as causas e os possíveis modos de superação dos impasses presentes no cenário. Parta tanto convoco alguns desses seres iluminados para nos ajudar na gigantesca tarefa com que nos defrontamos agora. Assim, convido vocês para uma “conversa” com PAULO FREIRE, HANNAH ARENDT, ZYGMUNT BAUMAN, JURGEN HABERMAS e CARL GUSTAV JUNG. Com a minha pretensiosa mediação (desculpem a falta de modéstia…).
Eis algumas das coisas que conversamos: sobre como chegamos à presente situação de ódio, tumulto político e falta de respeito e o entendimento das relações humanas. Sobre as coisas que se passam no inconsciente ou na psique das pessoas. Sobre a política, em geral e especificamente o bolsonarismo. Sobre a fixação sexual e escatológica dos bolsonaristas. Sobre a polarização da vida política e os caminhos para sua superação.
Nota final: ainda dentro deste mesmo tema da necessidade da interlocução ampla para a reconstrução brasileira, trago aqui um texto do psiquiatra e antropólogo cearense, Adalberto Barreto. Diz ele, em síntese: aquele que discorda de minhas ideias não é meu inimigo e sim alguém que me faz pensar. É claro que com relação a muitos bolsonaristas isso chega a ser um verdadeiro “exercício de santidade”, como disse Guimarães Rosa. Mas não custa nada tentar…
*Flávio de Andrade Goulart é médico, professor de Medicina na UFU e na UNB, secretário municipal de Saúde em Uberlândia e é sobrinho do poeta Carlos Drummond de Andrade.