Ana Maria Coelho Carvalho*

Gosto de escrever textos divertidos para alegrar o leitor. Por exemplo, comentando um vídeo que recebi. Nele, uma mulher de uns 30 anos, bem morena, rosto redondinho, lábios carnudos e bem maquiada, séria e com voz cristalina, fala com indignação mais ou menos assim: -“Ôu, esse trem de homem malhado não presta. Ele só te chama pra tomar açaí. O problema é que ele paga o dele e eu pago o meu. E tem mais, é só açaí com banana, senão engorda. Ele fica vigiando pra ver se a gente vai colocar leite condensado e leite em pó, e nem é ele quem vai pagar. Hoje o que eu gosto é de homem barrigudo e gordinho, são os melhores que se tem. Ele te chama pra tomar uma e toma todas. E você pode pedir porção de batata com queijo, mandioquinha, peixe, torresmo. Quando você fala que vai embora, ele chama pra tomar a saideira. Depois paga tudo e ainda te leva em casa. Hoje “tá” na moda é homem gordinho. Quando vejo homem sarado eu corro”.
Eu ri muito desse vídeo, principalmente porque adoro açaí com leite condensado e leite em pó. Lembrei-me de um texto da Danuza Leão, em que ela fica indignada quando vai a restaurantes e o garçom traz uma bola bem pequenina do seu sorvete preferido. Quanto mais caro o restaurante, menor a bola. Ela escreve sobre vários prazeres que a gente deixa de ter, com tantos deveres, tantas preocupações em acertar, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação. E aí a vida vai ficando sem tempero e sem graça. Termina pedindo ao garçom, entre outras, cinco bolas de sorvete de chocolate.
Enfim, concordo com as duas mulheres acima. É bom demais comer o que a gente gosta, sem sentimentos de culpa.
Mas daí fico pensando em tantas pessoas que passam fome, e não tenho como deixar de escrever sobre as tristezas da vida. Como o caso de Dayana e seus quatro filhos. Li sobre ela há tempos, numa matéria da Folha de São Paulo. O repórter Anthony Faiola, do Washington Post, contou de sua visita ao maior orfanato da Venezuela, em Caracas. O pátio era uma pista de obstáculos de crianças abandonadas. A assistente social que o acompanhava ia explicando sobre as crianças. Passou por ele um menininho robusto em um triciclo, apelidado de “El Gordo”, mas quando foi deixado no orfanato meses atrás era pele e osso. E a menininha de vestido florido, que quase não falava mais. A mãe a tinha abandonado em setembro em uma estação de metrô, com uma bolsa de roupas e um bilhete suplicando que alguém a alimentasse. Centenas de pais têm feito isso na Venezuela, onde a fome e a miséria crescem sem parar. Não têm como alimentar seus filhos e os estão entregando. Não porque não os amem, mas porque os amam (quer coisa mais triste?). E os bebês, que antes eram facilmente adotados, não o eram mais, pois os pais adotivos não conseguiam arcar com as despesas. No país, a maioria das crianças com menos de cinco anos não têm alimentação adequada. A fome obriga as famílias a fazerem escolhas dolorosas, como no caso de Dayana, 28 anos . Ela perdeu seu emprego de faxineira e entregou seus dois filhos menores para o orfanato. Como a entidade não aceitava crianças maiores, ela tentava alimentar o de 8 e o de 11 anos em casa. O orfanato oferecia a ela leite, macarrão e sardinha, mas não era suficiente. Contou ao repórter, na época, que depois do jantar , os meninos pediam: “-Mãe, quero mais”. Mas ela não tinha mais nada pra dar a eles.
Que bom seria se Dayana pudesse dar a eles, como sobremesa, açaí com leite condensado ou sorvete de chocolate.

Bióloga – Uberlândia – MG – anacoelhocarvalho@terra.com.br