Marília Alves Cunha – Educadora e escritora – Uberlândia – MG
Era bem pequena, engolida por aquela quantidade de pano branco que chamavam de hábito. Rosto redondo, comum, onde olhos brilhantes e espertos dominavam a cena, nele se estampando sorrisos e zangas, mais os primeiros. Fala pausada, cada palavra pronunciada com perfeição, tom suave… Ela gostava da palavra, era mais que gostar, uma paixão que a levava a transmitir lições que, para mim, ficaram encantadas, perenes.
Uma das lições aprendidas: não tenha medo de escrever. Alguma coisa sairá a contento, outras nem tanto. Importa o exercício, o treino, as ideias correndo para o papel, o gosto que se apura pela linguagem. E leia muita, escolha bons escritores. Absorva o que puder, aproveite o encanto que se encontra nos livros, percorra caminhos já traçados, eivados de sabor, beleza e poesia. Depois, trace os seus. Me arrependo de não ter seguido à risca seus conselhos sábios…
Quando me disse, com ar meio autoritário que eu deveria escrever o discurso de formatura do 4º. ano primário quase desmontei. Por que eu? Nunca escrevera um discurso… Vai escrever o primeiro, respondeu resoluta. Meu pai apoiou a ideia e negou ajuda. Confiou na menina assustada e temerosa… Deu certo! Enquanto lia com voz embargada, diante de uma plateia enorme, dava uma olhadinha de esguelha para a mestra e percebia, feliz, seu ar de aprovação.
Com que prazer e entusiasmo a pequena freira dava aulas. Quanto zelo com as redações, corrigidas uma a uma e apreciadas, sempre uma observação pertinente a encabeçar o trabalho. Num tempo em que a presença da tecnologia era praticamente nula, escola feita de giz e quadro negro, nada para ser simplesmente copiado, o aprendizado ia de um telegrama a um pequeno bilhete, de uma carta à descrição de uma gravura ou a deliciosa fantasia da escrita livre.
Guardei comigo a mania de dicionário, mais um dos aprendizados. Os antigos (como eu) sabem perfeitamente o que é um dicionário. As novas gerações vão de google, a modernidade impera. Caminho sem volta. Lembro-me bem das aulas de leitura. A obrigação era preparar o texto, ler correntemente, interpretar e conhecer o vocabulário que se apresentava. Aí é que entrava o dicionário, apelidado pelas crianças de “pai dos burros”. E tinha mais: os alunos tinham que fazer exercícios de fixação do vocabulário, usando as palavras novas nos seus exercícios. Era gostoso ir á cata da coisa nova. Exemplo: a palavra miríades, com vários usos, de acordo com a pesquisa. O bonito vinha depois dos significados: “Corro à floresta entre miríades/ de vagalumes junto aos troncos”. Manuel Bandeira escreveu isto no lindo poema “Estrela da vida inteira”. Curiosidade acesa, corria a procurar o poema, uma coisa levando a outra. Usei muito a palavrinha, nunca me esqueci dela e li seguidas vezes o grande escritor.
Quase sempre me lembro da minha professora de português enquanto escrevo alguma coisa. Penso comigo mesma: Será que aprovaria? Não sei se ainda vive ou se já seguiu outro caminho, mas espero que tenha recebido a recompensa por suas bonitas aulas e importantes lições. Na última noticia que tive, ela abandonara o hábito branco que a engolia… Assim me sinto: honrada e recompensada por ter sido aprendiz daquela pequena grande professora de português que me ensinou, acima de tudo, a amar as palavras.