No dizer de Percival Puggina, grande escritor que frequenta as páginas deste blog com brilhantismo, a expressão “tias do ZAP” foi criada em laboratório, com o intuito de levar as mulheres a abdicar de suas atitudes nascentes como cidadãs, em uma sociedade conflituosa, marcada pelo antagonismo. E bendiz em um texto as estas “tias” que estão nas ruas, nas redes sociais e na linha de frente da mobilização que derrotou a esquerda em 2018. O personalíssimo e também notável escritor, Rodrigo Constantino, autor de várias obras de leitura saborosa, também fez referências às “tias do ZAP”, conferindo a elas o protagonismo de uma revolução na política brasileira.

A princípio, me senti injuriada com este título. Por trás do título vinham críticas dissimuladas ou não. Maior das vezes, o tom era pejorativo. Queriam dizer mais ou menos assim: as pobres mulheres inocentes ou ignorantes, que iniciavam sua entronização no reino das redes sociais, espalhavam muitos fakenews… Por maldade? Não, pobres mulheres! Porque não entendiam de política, eram inocentes úteis trocando os pés pelas mãos, compartilhando notícias quaisquer que fossem, sem base na realidade… Eram mulheres que sempre se deram a outras tarefas e agora, maravilhadas pela descoberta da tecnologia, participavam canhestramente da vida política. Bem, todo mundo algum dia deixou escapar alguma notícia sem pé nem cabeça que hoje chamam de fakenews… Quem nunca?

Eu, habitante do mundo da 3ª. idade, entusiasta (com reservas) dos modernos meios de comunicação, “tia do ZAP” no sentido bom da palavra, tenho algumas considerações a fazer a respeito:
– A maior parte destas “tias” nasceram e cresceram num tempo em que computador, celular e outras maquinetas nem eram simples sonhos. Num tempo em que poucas famílias privilegiadas tinham uma geladeira e que o fogão a lenha e o ferro em brasa funcionavam em quase todas as casas, comida feita devagarinho, naquele tempero e quentura que deixou saudade. Telefone? Nem pensar! A geringonça era acessível a pouquíssimas pessoas…

– Premidas, umas por circunstâncias e outras por empenho de filhos, netos, afilhados, começaram a mexer no celular e descobriram maravilhadas que o aparelhinho poderia ser diversão e libertação. Que delicia bater papo com as amigas pelo ZAP, ler notícias e fofocas sobre a vida dos famosos, visitar, por exemplo, o Museu do Louvre sem sair de seu cantinho, assistir filmes e séries de seu interesse, ler textos bonitos e inteligentes, fotografar. No quesito “fotos” foi alegria geral. Começaram a fotografar tudo, a torto e a direito, principalmente registrando a belezura dos filhos e a gracinha dos netos, o sorriso dos amigos , as delicias que produzem na culinária, as flores que cultivam.
-E descobriram-se libertas, por que não? Aposentaram-se das filas de bancos, ficaram craques em fazer compras online, apresentaram-se como cidadãs nas redes sociais, expondo suas ideias, atrevendo-se a colocar anseios e opiniões. Deram asas a sua curiosidade, vontade de evoluir, participar ativamente deste novo mundo de comunicação digital, participar da vida política que dita regras e regula a nossa vida, mas que também (e como) sofre influências de um povo.

Hoje em dia a nominação “tias do ZAP” perdeu a conotação pejorativa. Elas estão fazendo um belo trabalho em nome de suas crenças, sempre atentas ao bem da família, da comunidade onde vivem, da pátria. As mulheres em geral, avós, mães, tias, são educadoras por instinto e necessidade, dado seu amplo envolvimento com as e crianças. E têm grande noção do que representa para o seu pequeno núcleo familiar e para a humanidade princípios e valores que têm sido desprezados por pensamentos totalitários. A negação de grande parte do que foi construído pela civilização até o presente dia, lhes parece a negação de sua própria história e a destruição do porvir. Mas ajustam-se à modernidade, como integrantes de uma comunidade que precisa evoluir e progredir. Como formiguinhas atentas, têm trabalhado, constantemente, para disseminar idéias, expressar opinião com liberdade e responsabilidade, não “fakenews”, como chamam hoje em dia as mentiras que se espalham por aí. Estão felizes. Sentem-se e são participantes da história bonita que o Brasil vai escrever.

Antes que me esqueça, vai o recado de uma tia do ZAP: SEU VOTO DECIDE! BRANCO, NULO E ABSTENÇÃO DEIXAM OS OUTROS DECIDIREM!

Marília Alves Cunha
Educadora e escritora – Uberlândia – MG