Marília Alves Cunha*

Desde que o rapazinho franzino, de olhar esverdeado e doce lhe roubara um beijo molhado no
escurinho intimista do cinema, o coração da menina vivia aos saltos. Uma sensação diferente
lhe provocava o corpo e uma inquietação estranha lhe atordoava a cabeça. Desejo de sentir de
novo aquela boca, desejo de ir além; década de 50, meados, primeiro beijo. A menina um
primor que só a juventude nascente realiza: corpo despontando, profusos hormônios em
misteriosa invasão, frêmitos, desejos.

A curiosidade era grande, nunca atendida. Quem naquela época conversaria sobre sexo com
uma guriazinha de 14 anos recém feitos? As rasas e poucas informações vinham, aqui e acolá,
de conversas desafinadas entre amigas ou através de revistas que o pai assinava. Ela gostava
de ler, lia tudo. E foi numa destas revistas que a noticia lhe interessou: falava sobre um livro
censurado desde a 1ª. edição , “O amante de Lady Chatterley”, escrito pelo autor inglês
D. H. Lawrence (o tal livro, banido pela censura em 1928, só teria a 1ª. edição oficial, na
Inglaterra, em 1960).

Por que sofrera censura tão arraigada e contundente? Contava a história de uma mulher,
Constance, solitária e invadida pelo desejo, desde que seu marido voltara da guerra,
paralisado e impotente. Constance encontra aconchego, emoção e sexo na pessoa viril do
guarda-caças da imensa propriedade, Oliver Mellors, um ex-soldado que vivia em isolamento,
depois de vários amores fracassados. O próprio marido lhe sugerira que gerasse um herdeiro
para a família. O livro foi considerado indecente, inapropriado, contrário à moral, aos bons
costumes da época e nocivo à juventude. Hoje em dia seria risível esta censura, a transição de
costumes faria o mesmo parecer “a piece of cake”… E a menina, doida para ler o livro
proibido, dava asas à imaginação e sonhava…

Certo dia, ao bater o olho na estante de livros da casa vizinha (vizinhos de fato, daqueles que
se frequentam todos os dias), deparou se com o título. Emoção. Coração na boca. O livro
pirata, na estante da vizinha, aguardando ser colhido. Foi o que ela prontamente fez: abriu a
pasta e espertamente guardou aquela maravilha. Saiu correndo, tinha pressa em chegar em
casa, começar a ler aquele tesouro proibido.

Nunca almoçou com tanta pressa. Subiu para o quarto. Tinha prova no dia seguinte, avisou. Ia
trancar-se e estudar o dia inteiro, que ninguém a incomodasse. Cada página do livro lido com
atenção aguda. A atenção, é óbvio e ululante, se acendia mais nas páginas que descreviam
com nitidez de detalhes os encontros amorosos de Constance e Oliver, na floresta atapetada
por grama, folhas e flores que serviam de leito e enfeite para os cabelos longos e macios de
Charlote.

Foi uma loucura para aquela menina de 14 anos, recém feitos. Leu uma vez, repetiu a leitura.
Encantou-se a cada palavra e mais ainda com a entrega dos amantes que lhe parecia tão
natural e bonita. Seria bom viver algo parecido, um dia…

Furtivamente entrou na casa dos vizinhos, tempo de portas abertas, sala vazia, tratou de
devolver o livro exatamente no lugar de onde o tirou. Pegou outro, cujo título lhe parecia
interessante, guardou na pasta e saiu correndo, não sem antes gritar um “tchau” para o
pessoal que estava na cozinha. Começava aí uma peregrinação constante àquela sala e àquela
estante, o que lhe rendeu alguns frutos intelectuais… A menina roubava livros, lia, se extasiava
com as leituras… mas devolvia sempre!

*Educadora e escritora – Uberlândia – MG